Religião
“Aqui estou”: Mullally entronizada como primeira mulher Arcebispa de Canterbury
26 mar, 2026 - 12:30 • Reuters
Antiga enfermeira, Mullally tomou lugar na cadeira de Santo Agostinho, do século XIII, na Catedral de Canterbury, perante cerca de 2.000 convidados, entre os quais o príncipe William.
Sarah Mullally foi esta quarta-feira entronizada como a primeira mulher Arcebispa de Canterbury da Igreja Anglicana, assumindo a liderança espiritual de cerca de 85 milhões de anglicanos em todo o mundo, numa cerimónia histórica que combinou tradição com simbolismo global.
Antiga enfermeira, Mullally tomou lugar na cadeira de Santo Agostinho, do século XIII, na Catedral de Canterbury, perante cerca de 2.000 convidados, entre os quais o herdeiro ao trono, o príncipe William, e a sua mulher, Kate, o primeiro-ministro Keir Starmer e vários líderes religiosos.
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No seu primeiro sermão como arcebispa, Mullally — envergando uma mitra dourada e acompanhada, durante parte da cerimónia, por um coro africano de mulheres que cantavam e dançavam — rezou para que “a paz prevaleça” em regiões devastadas pela guerra, do Médio Oriente e Ucrânia ao Sudão e Myanmar.
“À medida que inicio hoje o meu ministério como Arcebispa de Canterbury, volto a dizer a Deus: ‘Aqui estou’”, afirmou perante a congregação.
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Com 63 anos, Mullally reconheceu o sofrimento causado por falhas passadas da Igreja em matéria de proteção, uma das quais levou à demissão do seu antecessor, Justin Welby, sublinhando a necessidade de “manter o compromisso com a verdade, a compaixão, a justiça e a ação”.
Antes da cerimónia, o bispo Philip Mounstephen, que a abençoou no momento da sua instalação na cátedra diocesana, afirmou à Reuters que a chegada de uma mulher a um “cargo antigo… mais antigo do que a própria Coroa” constitui um momento histórico.
“Isto assinala uma enorme mudança na vida da Igreja”, disse.
Cerimónia reflete dimensão global do anglicanismo
Apesar de a nomeação de Mullally, em outubro, ter suscitado críticas de um grupo conservador de igrejas anglicanas, maioritariamente de África e da Ásia — conhecido como Gafcon —, o bloco abandonou este mês planos anteriores de designar uma liderança paralela, optando antes por criar um novo conselho.
Um órgão representativo da Comunhão Anglicana também descartou uma proposta anterior de presidência rotativa, após preocupações com uma possível rivalidade com o Arcebispo de Canterbury.
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As tensões entre cristãos progressistas e conservadores não são exclusivas do anglicanismo, mas o papel do arcebispo é sobretudo simbólico e depende da capacidade de persuasão, ao contrário do Papa, que detém autoridade direta sobre os católicos em todo o mundo.
Os arcebispos recentes têm enfrentado dificuldades em ultrapassar divisões sobre temas como os direitos LGBTQ+ e a liderança feminina, entre a Igreja Anglicana — hoje mais progressista — e províncias mais conservadoras noutras regiões.
Um bispo da Igreja Anglicana do Quénia, alinhada com o Gafcon, adotou um tom mais conciliador à chegada a Canterbury.
“Ainda que consideremos que isto (bênçãos a casais do mesmo sexo) não é aceitável, queremos debater a partir de dentro, para que outros compreendam também as razões que nos levaram a essa conclusão”, afirmou o bispo Francis Omondi à Reuters.
A própria Mullally tem sublinhado a importância da unidade na diversidade, afirmando à Reuters, em outubro passado: “Somos uma família com uma raiz comum e, como qualquer igreja global, existe nela uma grande diversidade.”
Arcebispa bate à porta da catedral
No início da cerimónia, Mullally bateu à porta oeste da catedral, vestindo uma capa litúrgica presa por um fecho inspirado no cinto que usava enquanto enfermeira no Serviço Nacional de Saúde. Foi depois recebida por crianças.
A arcebispa usou ainda um anel oferecido a um dos seus antecessores, Michael Ramsey, pelo Papa Paulo VI, em 1966 — símbolo da aproximação entre anglicanos e católicos, séculos após a rutura com Roma promovida pelo rei Henrique VIII.
Durante a cerimónia, ouviram-se orações e leituras em várias línguas, incluindo urdu, refletindo a dimensão global da Igreja Anglicana.
A data coincide com a Festa da Anunciação — celebração bíblica do momento em que um anjo anuncia a Maria que será mãe de Jesus —, tema central da cerimónia.
“Ao olhar para trás, para a minha vida — para a Sarah adolescente que depositou a sua fé em Deus e decidiu seguir Jesus —, nunca poderia ter imaginado o futuro que me esperava”, concluiu Mullally.
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