REPORTAGEM
Tempestade Kristin: "Mais do que colocar Deus no banco dos réus", devemos "perguntar o que podemos aprender" para o futuro
30 mar, 2026 - 07:00 • João Maldonado
Como podem os padres, no seu dia-a-dia, ajudar uma comunidade desolada pela destruição causada pelas tempestades deste inverno? “Colocar Deus no banco dos réus” pode ser uma hipótese, mas da Igreja propõe-se uma reflexão sobre o que “podemos aprender com isto”, não se prendendo tanto “com aquilo que de um momento para o outro desaparece”.
Esta é a história de um dia passado em Leiria, fruto de uma viagem de ida e volta desde Lisboa, com a destruição, entre árvores caídas e postes tombados, ainda visível estrada fora.
Esta é a história que resulta de três entrevistas a três padres e da forma como por três distintas lentes avaliam as três realidades que experienciam diariamente com uma mesma conclusão.
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Esta é a história de como a fé pode ser portadora de esperança e trabalhar em conjunto com a ajuda psicológica e indemnizações pelos estragos sofridos num vendaval de tempestades a fazer agora dois meses.
Ainda não é hora de almoço e, conforme combinado, já o padre Pedro Viva, capelão do Hospital de Santo André, em Leiria, aguarda, de bata branca, a chegada da Renascença ao principal hospital da capital de distrito. Portas atravessadas, são nem dois minutos de caminhada até alcançarmos o escritório, junto à pequena capela do edifício onde tantos acorrem especialmente em horas de maior aflição. “A fé ajuda. Não só na esperança na vida eterna, mas também na esperança de um futuro melhor aqui na Terra”, começa por dizer o primeiro entrevistado do dia.
Por outro lado, explica, sendo esta fé cristã vivida de forma comunitária, “pode ajudar a pessoa na medida em que se encontra com outros, partilha as suas vivências, escuta também as vivências dos outros e ajudam-se mutuamente”. Neste período pascal pós-tempestades, o conselho no caminho para a reconstrução pessoal passa por, pelo menos, tentar “viver um bocadinho aleluias de ressurreição”.
Num hospital o trabalho de um capelão passa, em grande medida, por “levar essa esperança de Cristo ressuscitado”, sobretudo a quem está doente, privado da família, numa cama que não é sua e com roupas que desconhece. O desafio é tentar indicar o caminho a quem, por vezes, até já de o encontrar desistiu.
É mais do que normal que quando acontece uma tragédia, como aconteceu na zona de Leiria, haja crentes que questionam aquilo em que sempre acreditaram uma vida inteira. “É normal que as pessoas façam perguntas” e tentem “perceber a lógica das coisas”. Mas, levanta o padre Pedro Viva a hipótese, “mais que perguntar porque é que isto aconteceu, talvez o mais interessante seja a gente perceber o que é pode aprender com isto enquanto sociedade, como é que nos podemos organizar para minimizar no futuro situações”.
“É sempre mais fácil apontar para Nosso Senhor. Onde é que tu estiveste ou porque é que permitiste. Do que nós fazermos o nosso trabalho de casa e perceber o que é que podíamos nós ter feito de melhor. Deus estará sempre, seguramente. Onde está o homem está Deus e, portanto, mais do que O colocar no banco dos réus, nós perguntarmos a nós mesmos o que é que de facto nós podemos aprender com isto”, sublinha.
O raciocínio é válido tanto para as consequências da intempérie deste inverno como para o dia-a-dia nos hospitais de todo o mundo, onde capelões acompanham não só os doentes e suas famílias, mas também os funcionários que ali trabalham – cada um com naturais problemas pessoais.
Entre outras funções, e apesar de a maior parte dos dias ser passada na instituição de saúde, com atendimentos, missa (como a de domingo de Páscoa marcada para as 11h00) e visitas às enfermarias, o padre Pedro Viva é também o responsável pelo emblemático Santuário de Nossa Senhora da Encarnação, fechado agora por danos graves na infraestrutura. A reabertura? “Provavelmente antes do final do ano não é possível”, avança, tendo por isso as habituais celebrações de domingos e dias santos às 21h30 passado para a Sé – o próximo ponto desta reportagem, onde se encontra a aguardar o regresso à casa habitual esta imagem de Maria.
“Um clima de medo, ansiedade, desconforto físico – a começar por aí –, mas também emocional e espiritual”, começa por referir, sobre estes estranhos tempos, o padre José Augusto Pereira Rodrigues, que se encontra com a Renascença à entrada da Sé de Leiria. A entrevista, devido ao ruído, decorre no interior, na zona da sacristia, com dois quadros atentos ao conteúdo: um do Papa Leão XIV, à esquerda, outro do bispo da região, D. José Ornelas, à direita (que pela Diocese de Leiria-Fátima aqui irá presidir às cerimónias do tríduo pascal).
Há perguntas que são sempre feitas com mais ou menos frequência, oscilando de fé para fé, de desgraça para desgraça. “Porque é que nos calhou a nós, que mal fizemos, porquê tudo isto, que bem é que podemos tirar disto?” Reconhecendo não ser fácil dar a volta à vida quando se perde o que tantas vezes demorou anos e anos a erguer, o padre leiriense esclarece que, para si, “não é falta de fé, não é uma ideia errada de Deus, mas é fruto deste choque, deste trauma causado nas pessoas” – que, aponta, têm um enorme desejo de ser escutadas, de “continuar a contar a sua história”.
“Não há praticamente conversa nenhuma que comece comigo que não parta daquela madrugada, daquela experiência. Começa sempre por ali. As pessoas têm necessidade de contar, recontar e voltar a dizer aquilo que aconteceu”, reforça, munido pela experiência pastoral.
A cura pode demorar tempo. Pode ser lenta, pelas marcas profundas que deixou, mas a tais inquietações, a resposta do sacerdote é firme. “É apelando ao fundamento da nossa fé cristã, à certeza de que Deus nos ama, de que Deus está connosco, de que o seu Filho, Jesus Cristo, feito homem, veio para nos salvar. Com estas certezas nós somos capazes de ir integrando, de uma forma equilibrada, na nossa experiência de fé, este trauma”.
E, para o ultrapassar, a “força da solidariedade” pode ser uma das chaves de ouro, abrindo “as mãos para aquele que precisa” e descobrindo que dessa maneira “a nossa dor diminui” – num período de Páscoa onde se reza tendo como ponto de partida o “sofrimento de Cristo com a cruz”.
“As pessoas precisam de perceber e de ser capazes de reconhecer que Deus não fugiu, que Deus não nos abandonou, que Deus não teve ali uma madrugada em que se esqueceu de Leiria. Isso não aconteceu, isso não aconteceu”, repete, sublinhando assim a ideia de perseverança que quer transmitir.
Da Sé são 10 minutos a pé até ao Convento de São Francisco à Portela. É lá a casa de sete irmãos franciscanos e é lá que encontramos o frei Gilberto Teixeira, que aos 89 anos de idade ainda é capaz de subir escadas sem apoio do corrimão e ainda consegue mover duas cadeiras com uma em cada braço num largo corredor – tudo sem se queixar e sempre de sorriso na cara.
“As aparências iludem”, ri-se ao comentar a própria idade, antes de entrarmos em conversa mais séria. Depois de uma vida entre Moçambique e África do Sul, é em Leiria que está agora colocado, admitindo as dificuldades que os padres têm, às vezes, de “ir ao encontro” – já que “nem sempre as pessoas recorrem”. Em situações como a desta zona entre janeiro e fevereiro, admite, pode acontecer que até os padres fiquem “sem fala”, mas, sendo “o pior mal perder a confiança na vida”, o trabalho passa por ajudar toda as pessoas a contrariar esse rumo.
Como fazê-lo? A pergunta, a meio desta entrevista, surge como obrigatória. A resposta, erguida de improviso pelo frade de 89 anos que meia hora antes ainda não tinha sido informado desta conversa, merece ser lida na íntegra. Por isso, pela densidade e simplicidade simultânea que ostenta, aqui segue.
“Vivemos num tempo em que dificilmente podemos prever o dia de amanhã e, por isso, as pessoas precisam estar preparadas. Acho que na maioria dos casos as pessoas não estão preparadas para isso.
Habituámo-nos a viver sem dificuldades. A termos tudo aquilo que precisamos e que queremos e a não pensar muito no futuro, porque está garantido. Quando acontece, por exemplo, um caso destes, as pessoas muitas vezes vêem-se com o futuro estragado. Há o perigo de realmente quebrar e, portanto, é preciso manter a esperança.
É preciso ver que realmente a garantia do futuro não está tanto nos bens materiais que de um momento para o outro acabam. Está num futuro que não se vê com os olhos e que realmente deve despertar em nós também, porque realmente nós prendemo-nos demasiado àquilo que agarramos, àquilo que passa e vivemos muitas vezes um dia inteiro a preparar o bem-estar.
Talvez se as pessoas se dessem conta podiam aproveitar este tempo para uma reflexão séria e para preparar um autêntico futuro. E não se deixarem prender tanto com aquilo que realmente de um momento para o outro desaparece”, diz frei Gilberto Teixeira de uma assentada.
Os franciscanos de Leiria irão participar na Via Sacra da cidade, que começa precisamente no Convento na sexta-feira, celebrando como todos os anos este tempo de Páscoa.
- Noticiário das 6h
- 11 mai, 2026












