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Páscoa

Papa carrega Cruz da Via Sacra que desmascara toda a presunção humana de poder

03 abr, 2026 - 13:27 • Aura Miguel

As reflexões da Via Sacra articulam os excertos evangélicos para cada estação com frases dos ensinamentos de São Francisco de Assis, cujos 800 anos da sua morte se assinalam esta ano.

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“Cada um de nós é chamado a responder pelo poder que exerce na vida quotidiana”, lê-se no texto da Via Sacra deste ano, presidida por Leão XIV no Coliseu de Roma.

Toda a autoridade terá de responder perante Deus pela forma como exerce o poder recebido: o poder de julgar, mas também o poder de iniciar uma guerra ou de a terminar, o poder de educar para a violência ou para a paz, de alimentar o desejo de vingança ou o de reconciliação, o poder de usar a economia para oprimir os povos ou para os libertar da miséria, o poder de espezinhar a dignidade humana ou de a proteger, o poder de promover e defender a vida ou de a rejeitar e sufocar” (1.ª estação).

As reflexões da Via Sacra foram escritas pelo padre franciscano Francesco Patton OFM, ex-Custódio da Terra Santa. O texto articula os excertos evangélicos para cada estação com frases dos ensinamentos de São Francisco de Assis, cujos 800 anos da sua morte se assinalam esta ano.

O percurso do caminho de Jesus até à Cruz é ilustrado por acontecimentos contemporâneos. “Ó Maria, lançai um olhar de ternura sobre cada um de nós, mas sobretudo sobre as muitas, demasiadas mães que ainda hoje, como vós, veem os seus filhos detidos, torturados, condenados, mortos. Lançai um olhar de ternura sobre as mães que são acordadas no meio da noite por uma notícia devastadora, e sobre aquelas que velam no hospital um filho que está a morrer”, lê-se na 4.ª estação, que invoca o consolo de Maria sobre as mães que perderam os seus filhos, os órfãos da guerra, os migrantes, os deslocados e os refugiados, aqueles que sofrem torturas e penas injustas, os desesperados que perderam o sentido da vida e aqueles que morrem sozinhos".

Na 6ª estação sobre a atitude de Verónica que limpa o rosto desfigurado de Cristo, surge um pedido: “Tornai-nos capazes de enxugar, ainda hoje, o vosso rosto coberto de pó e sangue, desfigurado por cada ato que espezinha a dignidade de qualquer pessoa humana. Ajudai-nos a reconhecer-vos, Senhor, em cada pessoa condenada por preconceitos, no pobre privado da sua dignidade, nas mulheres vítimas de tráfico humano e reduzidas à escravidão, nas crianças a quem foi roubada a infância e comprometido o futuro”.

Neste percurso, valorizam-se também as mulheres (8.ª estação) que “há séculos choram por si mesmas e pelos seus filhos, sequestrados e encarcerados durante uma manifestação, deportados por políticas desprovidas de compaixão, naufragados em desesperadas viagens de esperança, dizimados em zonas de guerra, aniquilados nos campos de extermínio”.

E pede-se “o dom das lágrimas para chorarmos os desastres das guerras, os massacres e genocídios, para chorarmos o cinismo dos tiranos e a nossa indiferença”.

No momento em que Jesus é despojado das suas vestes (10.ª estação), o texto reconhece que esta ação também se repete nos nossos dias: “É praticada pelos regimes autoritários quando obrigam os prisioneiros a permanecer seminus numa cela vazia ou num pátio. É praticada pelos torturadores que não se limitam a arrancar as vestes, mas arrancam também a pele e a carne. É praticada por aqueles que autorizam e utilizam formas de investigação e controlo que não respeitam a dignidade da pessoa. É praticada pelos estupradores e abusadores, que tratam as vítimas como objetos. É praticada pela indústria do espetáculo, quando ostenta a nudez para ganhar mais alguns espectadores e pelo mundo da informação, quando expõe as pessoas perante a opinião pública”.

A reflexão desta noite sublinha também (11.ª estação) que “o verdadeiro poder não é o daquele que pensa poder dispor da vida alheia ao infligir a morte, mas o daquele que realmente pode vencer a morte dando a vida e dar a vida mesmo aceitando a morte”.

E acrescenta: “Cristo revela que o poder autêntico não é o de quem usa a força e a violência para se impor, mas o de quem é capaz de tomar sobre si o mal da humanidade, o nosso, o meu, e anulá-lo com a potência do amor que se manifesta no perdão. A vitória não está no amar a força, mas na força de amar”.

Quando Jesus é descido da cruz (13.ª estação), o texto iniste que “nunca deveria haver cadáveres não devolvidos e sem sepultura, que as mães, os parentes e os amigos dos condenados nunca deveriam ser obrigados a humilhar-se perante as autoridades para verem devolvidos os restos mutilados dum seu ente querido” e que “o corpo de um morto também conserva a dignidade da pessoa e não pode ser vilipendiado, ocultado, destruído, não devolvido ou privado de uma regular sepultura”.

Numa oração dirigida a Jesus, além do respeito pelos mortos, implora-se a compaixão “para sentirmos o sofrimento dos encarcerados, para sermos solidários com os prisioneiros políticos, para compreendermos os familiares dos reféns, para chorarmos pelos mortos sob os escombros, para termos respeito por todos os falecidos”.

Na última etapa da Via Sacra, Leão XIV convida a rezar uma oração de São Francisco e profere a bênção final.

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