500 anos depois, comunidades ciganas pedem mudança estrutural e reconhecimento em Portugal
07 abr, 2026 - 10:24 • Olímpia Mairos
Efeméride do Dia Internacional dos Ciganos assinala meio milénio de perseguição e reforça apelo urgente a políticas públicas de inclusão e combate ao anticiganismo.
O Dia Internacional dos Ciganos, assinalado a 8 de abril, é este ano marcado por um simbolismo particular: passam 500 anos sobre o primeiro alvará de expulsão e perseguição contra os ciganos em Portugal, decretado por D. João III, em 1526.
Mais do que evocar um passado de exclusão, a data surge como um apelo a uma mudança efetiva.
Já segue a Informação da Renascença no WhatsApp? É só clicar aqui
Para o diretor nacional da Pastoral dos Ciganos, Hélder Afonso, este momento histórico deve ser entendido como uma oportunidade de transformação.
O responsável sublinha que “o marco deste meio milénio não deve ser apenas uma memória de sofrimento (…) mas sim um ponto de viragem”, defendendo o reconhecimento pleno do contributo cigano na sociedade portuguesa.
Esse contributo é hoje visível em novas gerações. Hélder Afonso destaca “os inspiradores exemplos” de jovens que estão a quebrar barreiras, explicando que “vemos cada vez mais jovens a frequentar o ensino superior, a assumir cargos de representação política e a destacar-se nas artes”, sinais concretos de mudança que devem servir para “construir um país verdadeiramente inclusivo”.
Falta de estratégia mantém desigualdades
Apesar destes avanços, o diagnóstico mantém-se exigente. O diretor da Pastoral dos Ciganos considera “inadmissível” que Portugal não tenha uma Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas, alertando que “a ausência deste instrumento perpetua desigualdades históricas, a segregação habitacional e escolar e o estigma”. Por isso, insiste que “a verdadeira inclusão exige políticas públicas estruturadas, compromisso institucional e uma estratégia clara”.
A reflexão é também iluminada pelas palavras do Papa Leão XIV, no Jubileu dos Ciganos e Povos Itinerantes, em 2025. O Pontífice desafiou estas comunidades a serem “protagonistas da mudança de época em curso”, dando a conhecer “a beleza da sua cultura” e partilhando “a fé, a oração e o pão fruto do trabalho honesto”.
Num tom de encorajamento, apelou ainda a seguir em frente “com um coração maior, ainda mais amplo: sem ressentimentos”, sustentado na “dignidade da família, do trabalho e da oração”, sublinhando que essa dignidade pode ser “força para derrubar os muros da desconfiança e do medo”.
Apelo à dignidade, à fraternidade e ao diálogo
Neste contexto, Hélder Afonso destaca a figura do Beato Zeferino Giménez Malla como referência ética e espiritual, lembrando que “a verdadeira amizade social e a integração passam pelo reconhecimento incondicional do valor de cada ser humano”, sendo as comunidades ciganas “verdadeiras peritas na fraternidade e na solidariedade”.
“A Igreja e a sociedade civil são chamadas a imitar a pureza das crianças, que não conhecem o preconceito e procuram apenas brincar e conviver em paz, superando as distinções que os adultos tantas vezes impõem”, aponta Hélder Afonso.
Neste Dia Internacional dos Ciganos, fica um apelo claro: transformar a memória em ação, com compromisso político, políticas públicas eficazes e combate firme à discriminação, para que o passado de perseguição dê lugar a um futuro de dignidade, justiça e inclusão real.
“Que saibamos olhar para o futuro com a mesma esperança inabalável que tem guiado o povo cigano, construindo pontes de diálogo e promovendo uma convivência pacífica e justa para todos”, conclui o diretor nacional da Pastoral dos Ciganos.
- Noticiário das 9h
- 19 abr, 2026









