Ouvir
  • Noticiário das 13h
  • 14 mai, 2026
A+ / A-

PAPA VISITA CAMARÕES

Leão XIV fala dos “senhores da guerra": "O mundo está a ser destruído por alguns tiranos"

16 abr, 2026 - 12:27 • Ângela Roque

Papa recebido em festa em Bamenda, região anglófona dos Camarões marcada pela violência separatista. Na catedral, agradeceu os esforços de paz, lamentando que ali, e noutros “lugares da terra”, haja quem faça guerra em nome de Deus, “arrastando o que é santo para o que há de mais sujo e tenebroso”.

A+ / A-
Vídeo. Leão XIV fala dos “senhores da guerra": "O mundo está a ser destruído por alguns tiranos"
Papa Leão XIV nos Camarões. Foto: Alberto Pizzoli / Pool/EPA

Nos Camarões, mas com uma mensagem para o mundo, o Papa dirigiu-se esta quinta-feira aos responsáveis pelas espirais de “desestabilização e morte sem fim”, considerando que subvertem tudo, ao justificar as suas ações militares com a fé.

Ai daqueles que submetem as religiões e o próprio nome de Deus aos seus objetivos militares, económicos e políticos, arrastando o que é santo para o que há de mais sujo e tenebroso”, afirmou o Papa num encontro pela paz com a comunidade de Bamenda, onde foi recebido em festa por inúmeros populares da região anglófona dos Camarões, que desde 2017 tem sido marcada pela violência separatista pelos que ambicionam a independência.

Já segue a Informação da Renascença no WhatsApp? É só clicar aqui

No interior da catedral de São José, onde decorreu o encontro, o Papa alertou para as consequências devastadoras de todos os conflitos, e para a indiferença daqueles que os provocam.

Os senhores da guerra fingem não saber que basta um instante para destruir, mas muitas vezes não basta uma vida inteira para reconstruir. Fingem não ver que são necessários milhares de milhões de dólares para matar e devastar, mas não se encontram os recursos necessários para curar, educar e reerguer”, afirmou.

Leão XIV lamentou, ainda, que a exploração dos recursos naturais – nos Camarões, e por todo o continente africano – contribua para alimentar a guerra. “Quem saqueia os recursos da vossa terra, geralmente investe grande parte dos lucros em armas, numa espiral de desestabilização e morte sem fim. É um mundo ao contrário, uma subversão da criação de Deus que toda a consciência honesta deve denunciar e repudiar”.

No encontro, que decorreu na catedral de São José, Leão XIV agradeceu o exemplo que esta comunidade dá ao mundo, na luta pela paz e pela reconciliação, mantendo-se no “caminho do bem”.

"O meu agradecimento vai para todos aqueles - em particular para as mulheres leigas e religiosas - que cuidam das pessoas traumatizadas pela violência. É um trabalho imenso, invisível, quotidiano e exposto a perigos", referiu, lembrando que "o mundo está a ser destruído por alguns tiranos, e é mantido por uma multidão de irmãos e irmãs solidários".

"Agradeço-vos, porque – sim, é verdade! – estou aqui para anunciar a paz, mas constato de imediato que sois vós que a anunciais a mim e ao mundo inteiro”.

A crise que abalou estes territórios dos Camarões aproximou mais do que nunca as comunidades cristãs e muçulmanas, a tal ponto que os vossos líderes religiosos se uniram e fundaram um Movimento pela Paz, através do qual procuram mediar entre as partes adversárias. Gostava que isto acontecesse noutros lugares. O vosso trabalho pela paz é um modelo para todo o mundo! Bem-aventurados os construtores da paz!”.

“A tua humildade inspira-nos”

Milhares de pessoas aguardavam o Papa esta quinta-feira em Bamenda. Entre os cartazes visíveis à passagem da comitiva do Vaticano estava um do Apostolado de Fátima (dos Camarões).

Bem vindo mensageiro da paz” e “A tua humildade inspira-nos” foram algumas das frases de saudação a Leão XIV, como testemunham as fotos tiradas pela enviada especial da Renascença, Aura Miguel.

No encontro pela paz, na catedral de São José, o discurso de acolhimento foi feito pelo arcebispo de Bamenda e presidente da Conferência Episcopal dos Camarões. Andrew Fuanya Nkea começou por lembrar as inúmeras vítimas do conflito separatista na região, saudando o Papa como “mensageiro da paz”, "embaixador da reconciliação e promotor da justiça”.

“Vemos em si a presença de Deus entre nós. Mesmo que não nos diga nada, a sua presença é consoladora. Acreditamos que a vossa visita incentivará a que não nos combatamos, mas amemos uns aos outros”, afirmou.

Seguiram-se vários testemunhos de responsáveis locais. O rei Fon Fruu Asaah Angwafor IV, Chefe Supremo Tradicional de Mankon, começou por lembrar que o cristianismo chegou à região com os primeiros missionários, em 1890, e se consolidou graças à colaboração com os chefes tradicionais locais. Atualmente a Igreja Católica é responsável pelas melhores escolas, assim como hospitais, orfanatos e a Universidade, sendo desejável que “continue a melhorar a vida das pessoas”.

Este responsável lembrou que o Papa Francisco, durante o Sínodo sobre a Sinodalidade, pediu um estudo aos bispos africanos sobre a poligamia, e que estão nesta altura a procurar encontrar a melhor forma destas pessoas, onde se incluem os chefes tradicionais “possam prestar culto a Deus na Igreja sem serem julgados ou rejeitados”.

Pela Igreja Presbiteriana dos Camarões interveio Fonki Samuel Fiorba. Falou dos contactos que, em conjunto com a Igreja católica, conseguiram manter com os dirigentes do movimento separatista, convencendo-os de que “a paz é melhor que a guerra, que nada resolve. E apelou ao Papa para que ajude a “encontrar uma solução duradoura para este conflito, que destruiu esta bela região anglófona”, onde a violência deixou marcas e traumas.

O Imã Mohammad Abubakar, da Mesquita Central de Buea, lembrou que também os muçulmanos sofreram neste conflito, destacando o massacre de Ngabur, em 2020, que matou 23 civis. Agradeceu, por isso, a Deus que “esta crise não tenha degenerado numa guerra religiosa”, e pediu igualmente o apoio do Papa: "ajude-nos a ter de novo paz”.

A irmã Carine Tangiri Mangu, das religiosas de Sant’Ana – a quem o Papa agradeceu o apoio que asseguram às pessoas traumatizadas pela violência – falou da insegurança que têm vivido, que em novembro conduziu ao rapto de umas das irmãs, e de como a oração do Terço as ajudou a manter viva a esperança até à sua libertação.

Denis Salo, acompanhado da mulher e dos 3 filhos, falou da experiência da família como deslocados internos. Por causa da guerra perderam tudo o que tinham e tiveram de abandonar Mbiane para se instalarem em Bamenda.

No final do encontro foram lançadas pombas brancas, como símbolo da paz.

(Notícia atualizada às 13h05 com os testemunhos ouvidos no encontro)

Ouvir
  • Noticiário das 13h
  • 14 mai, 2026
Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

Vídeos em destaque