Entrevista Renascença/Ecclesia
Embaixadora junto da Santa Sé: "Certamente, vai haver uma visita do Papa Leão a Portugal"
19 abr, 2026 - 09:30 • Henrique Cunha (Rádio Renascença) e Octávio Carmo (Agência Ecclesia)
A dois dias do primeiro aniversário da morte do Papa Francisco e num momento em que o mundo assiste às fortes críticas da administração Trump às posições do Papa Leão XIV na defesa da paz, é convidada da Renascença e da Agência Ecclesia a embaixadora de Portugal junto da Santa Sé, Maria Amélia Paiva.
A embaixadora de Portugal junto da Santa Sé, Maria Amélia Paiva, acredita que as críticas de Donald Trump ao Papa não vão conseguir demover Leão XIV dos apelos consecutivos à paz e à tolerância.
"Infelizmente, o mundo que temos obriga o Papa a continuar a fazer estes apelos à paz”, desabafa a diplomata, em entrevista à Renascença e à Agência Ecclesia.
Maria Amélia Paiva diz que as intervenções do Papa na defesa da paz provam "o testemunho de uma Igreja que continua a recusar a sacralização da força das armas".
A embaixadora afirma que o Papa tem demonstrado uma atitude de "grande prudência e clareza", perante "a gravidade considerável" dos conflitos, e por isso espera que não aumente a escalada das críticas norte americanas à figura de Leão XIV.
Noutro plano, a diplomata dá como certa uma visita do Papa a Portugal. De acordo com Maria Amélia Paiva, apenas "a complexidade da agenda papal não permitiu ainda obter uma resposta taxativa" aos vários convites formulados.
Em vésperas do primeiro aniversário da morte do Papa Francisco, a embaixadora de Portugal junto da Santa Sé analisa o legado “muito vasto de reformas” do Papa argentino e sublinha o “sinal de grande proximidade” que deixou “para com as periferias geográficas e sobretudo com os pobres, com os migrantes e refugiados”.
A embaixadora de Portugal junto da Santa Sé recorda o Papa argentino como alguém que deixou “marcas grandes” como um “pontificado marcante” que “muitos consideram tratar-se de um pontificado de revolução gentil ou suave”.
"A ‘Laudato Si’ é, talvez, um dos textos mais relevantes do pontificado do Papa Francisco"
Um ano após a partida de Francisco, que marca principal considera que este Papa deixou na ação do Vaticano e na forma como a Igreja se relaciona com o mundo?
O Papa Francisco deixou-nos, faz agora um ano, a 21 de abril, e as suas marcas são grandes. O legado do Papa Francisco é um legado muito importante, é um legado de um pontificado que foi muito marcante. Muitos consideram tratar-se de um pontificado de uma revolução gentil ou suave. Numa igreja de maior simplicidade ou numa igreja de saída, como também muitas vezes se descreve, há logo uma grande diferença. E, por exemplo, logo no início do seu papado, quando optou por viver na Domus Santa Marta. Isso contribuiu para humanizar a figura papal, tornando-a mais próxima e acessível. E também nas suas primeiras intervenções, e nas intervenções que marcaram todo o pontificado, há um sinal de grande proximidade com as periferias geográficas e, sobretudo, com os pobres, com os migrantes, com os refugiados.
Mas o Papa Francisco deixa um legado muito vasto de reforma, por exemplo, da Cúria, uma reforma estrutural de transparência, uma nova constituição apostólica que permite, por exemplo, que mulheres assumam e tenham assumido, pela primeira vez, cargos de liderança no Vaticano. Implementou mudanças estruturais para uma maior transparência financeira, controlos rigorosos contra a corrupção, enfim, uma reforma estrutural e muito relevante. Mas há mais do que isso: há um combate claro à impunidade. Adotou a política da tolerância zero em relação aos casos de abuso sexual, que é uma política muito relevante, apesar de muitas acusações de alguns que acham que devia ter sido feito ainda mais. Certamente, fez um caminho muito importante ao sinalizar isto.
Mas há uma outra área de muita relevância, que é a da ecologia integral, nomeadamente com as mensagens muito fortes sobre o cuidado a ter com a casa comum como pilar central, criticando, de forma muito clara e muito taxativa, a destruição da natureza e o sistema económico excludente. Por isso, tantas vezes foi chamado de "Papa Verde". A "Laudato Si", a encíclica que celebrou 10 anos no ano passado, cristaliza esta forma de olhar para a criação e para o cuidado da casa comum, é, talvez, um dos textos mais relevantes do pontificado do Papa.
Depois, o acolhimento e a misericórdia, o diálogo inter-religioso e a geopolítica da paz. A paz foi uma constante nos apelos do Papa Francisco. Lembro um livro que saiu, no final de 2022, início de 2023, reunindo um conjunto de apelos que ele fez para pôr termo à guerra na Ucrânia. E diálogo com as outras religiões... É todo um conjunto de linhas de atuação que mostram de facto um pontificado muito, muito relevante e, por isso, é tão importante falar dele e tão importante esta vossa iniciativa de recordar o legado do Papa Francisco.
"A JMJ é, claramente, um marco muito importante neste revigorar do relacionamento entre Portugal, a Igreja Portuguesa e a Santa Sé"
O Papa Francisco, como já referiu, fez vários apelos à paz. Aliás, falou por diversas vezes da Terceira Guerra Mundial aos pedaços. Por que motivo os apelos que ele fez pareceram tantas vezes incomodar certos centros de poder económico e político? Hoje, com o seu sucessor, por exemplo, está a acontecer o mesmo?
Pois, o significado e a importância dessas mensagens são fundamentais e os apelos, infelizmente, nem sempre parecem ser ouvidos, mas, no fundo, acabam por ser ouvidos e espero que façam o seu caminho e que possamos encontrar soluções através do diálogo, através da diplomacia e através da capacidade de nos reconciliarmos uns com os outros. E este diálogo é muito importante, nomeadamente porque quer o Papa Francisco quer, como disse, o Papa Leão XIV têm marcado muito as suas intervenções pela reconciliação e pelo diálogo com os outros. E os outros são todos os outros.
Quando o Papa Francisco usa, durante a JMJ, em Lisboa, a expressão "todos, todos, todos", ele está mesmo a falar de todos: das outras religiões, dos outros credos religiosos, de todos os outros que, muitas vezes, não estão na mesa das conversas sobre os temas mais relevantes e, por isso, é importante falar com todos e os todos não são apenas aqueles que têm o poder político, são também todos os outros que podem ter um papel nesta aproximação, neste diálogo, nesta reconciliação que é tão importante fazermos e, sobretudo, optarmos sempre e sempre pela via da diplomacia e não pela via das armas.
A JMJ, juntamente com as passagens por Fátima, são seguramente marcas que Portugal deixou no pontificado de Francisco. Do contacto que mantém com a diplomacia do Vaticano, esses momentos, que foram importantes para nós, também moldam a visão que se tem, em Roma, de Portugal e da Igreja em Portugal?
Certamente. Dos contactos que tive aqui em Roma, não querendo cometer nenhuma inconfidência, porque não posso nem o devo fazer, a JMJ é, claramente, um marco muito importante neste revigorar do relacionamento entre Portugal, a Igreja Portuguesa e a Santa Sé.
Claramente é um marco muito importante. A JMJ foi um grande sucesso, foi um grande sucesso de uma colaboração muito vasta, de muitos que contribuíram para isso, e de uma relação muito próxima que houve entre a Igreja Portuguesa e o Vaticano, que permitiu o sucesso. A vários títulos, já me foi referido exatamente esse marco tão importante no relacionamento recente, mais recente, entre Portugal e a Santa Sé.
"Infelizmente, o mundo que temos obriga o Papa a continuar a fazer estes apelos à paz"
O mundo não parou e a Igreja também não. Que marca própria já se nota na ação do Papa norte-americano?
Acho que a marca está a ser construída, como é natural e como é normal. O Papa tem menos de um ano de pontificado, mas eu acho que há dois ou três temas que são muito recorrentes e, de alguma forma, são de continuidade entre o Papa Francisco e o Papa Leão XIV.
Antes de mais, eu diria a defesa da paz e da mensagem do Evangelho nesse sentido. E também o papel que a Igreja Católica deve ter: continuar a ser uma voz profética de paz e não um agente de poder político. Por isso, eu acho que o Papa Leão XIV, de alguma forma, é eleito num contexto que se pode dizer, simplificando certamente, de continuidade e de aprofundamento daquilo que vinham a ser as linhas de força dos pontificados anteriores e sobretudo do pontificado do Papa Francisco.
E, claramente, o conclave, ao escolher o cardeal Robert Prevost, continua nesta linha de um deslocamento do centro de gravidade do catolicismo para o sul global, onde o número de fiéis aumenta, onde há uma expressão cada vez maior da atenção às periferias. Quando se fala de periferias, quer com o Papa Francisco quer com o Papa Leão XIV, não estamos apenas a falar de periferias geográficas, estamos a falar de periferias de atenção: dos migrantes, dos refugiados, daqueles que, de facto, enfrentam mais dificuldades num mundo muito complexo. Por isso, não creio que haja uma interrupção do discurso geopolítico.
Falou na questão de o Papa Leão e a Santa Sé se assumirem como porta-vozes do discurso da paz e não como agentes políticos. É incontornável a polémica que tem colocado frente a frente o Presidente norte-americano e o Papa, ainda que colocar as coisas nestes termos seja excessivamente simplista. O que eu pergunto é: enquanto diplomata como olha para esta situação? Teme algum tipo de escalada nas críticas norte-americanas à figura de Leão XIV?
Espero, sinceramente, que não aconteça. O Papa Leão tem mostrado, nestes primeiros tempos de pontificado, uma atitude de grande prudência. O que fez agora de diferente? A situação internacional, com este aumento de conflitos — temos dezenas de conflitos no mundo —, é de uma gravidade considerável e eu acho que o Papa falou com uma enorme clareza. E a clareza dele é ter o Evangelho como bússola. É daí que vem a clareza das intervenções do Papa.
"As palavras do Papa e a sua postura são testemunho de uma igreja que continua a recusar a sacralização da força das armas"
As palavras do Papa e a sua postura são testemunho de uma igreja que continua a recusar, na minha leitura, a sacralização da força das armas. De facto, isto tem sido de uma enorme clareza. Mas o Papa tem feito várias mensagens e vários apelos à paz em relação aos vários conflitos internacionais: à Ucrânia, ao Líbano, ao Médio Oriente, em particular, ao Irão, ao Sudão, entre tantos outros. São insistentes apelos à paz que têm sido feitos, como foram com o Papa Francisco. Certamente que nesta viagem que o Papa, mais uma vez, vai ser possível continuar a fazer esses apelos, porque infelizmente também no continente africano há variadíssimas situações de enorme gravidade, de enormes atropelos do direito humanitário, gerando e criando números muito impressionantes, não só de violações de direitos humanos, mas de refugiados e deslocados internos. Infelizmente, o mundo que temos obriga o Papa a continuar a fazer estes apelos à paz.
Do seu ponto de vista, é expectável, então, um aumento desta tensão com o poder político, dado que do Papa não podemos esperar outro comportamento que não seja o que referiu?
Eu espero que não, espero que os apelos possam ajudar também a uma reflexão da parte desses poderes políticos, no sentido de também fazer uma reflexão que os encaminhe para o caminho justo e para o caminho da paz.
"O conclave, ao escolher o cardeal Robert Prevost, continua na linha de um deslocamento do centro de gravidade do catolicismo para o sul global"
A ligação de Portugal à Santa Sé é histórica e o Estado português já formulou um convite oficial para que Leão XIV visite o nosso país. Nas conversas que tem mantido com o Santo Padre ou com a Secretaria do Estado, essa possibilidade já foi de alguma forma abordada?
É evidente, já fomos os interlocutores desse convite, mas a complexidade da agenda papal não nos permitiu ainda obter uma resposta taxativa à aceitação desse convite. Vamos ter de aguardar, vamos ter de esperar mais um pouco.
Mas o Papa já disse que gostava de vir a Portugal, não é?...
Sim, o gostar de vir é claríssimo, o gostar de poder ir é claríssimo. Ele é também um Papa muito mariano, como foi o Papa Francisco. Agora, o poder dizê-lo de uma forma já muito conclusiva que irá no ano Y, no mês Y ou Z... Ainda não temos essa resposta, mas acho que temos também de dosear, ter alguma calma, alguma paciência porque, certamente, vai haver uma visita do Papa Leão a Portugal. Temos é de aguardar pelo calendário.
E será de esperar uma deslocação oficial do novo Presidente da República, António José Seguro, ao Vaticano, como aconteceu, por exemplo, com o Marcelo Rebelo de Sousa?
Não tenho, de momento, nenhuma indicação nesse sentido, mas, enfim, melhor do que eu, a assessoria diplomática ou o gabinete do senhor Presidente poderá responder.
Que matérias são prioritárias para o Estado português, neste momento, na relação com a Santa Sé?
Acho que não vale a pena eu entrar muito por aí. Elas são muito intensas, temos uma concordata que, como sabe, celebrou 20 anos em 2024, e que é, de facto, o instrumento que rege a nossa relação. Mas temos, obviamente, muitos temas de interesse comum, nomeadamente, na esfera da diplomacia e na esfera internacional, onde a defesa dos nossos valores, a defesa dos nossos princípios, coincide, basicamente, com aquilo que é também a postura da Santa Sé em relação a essas mesmas prioridades.
Por isso, estou em crer que elas vão continuar a ser, como têm sido até aqui, relações de grande profundidade, havendo, claramente, a intenção de continuar a aprofundá-las das formas mais diversas. Há vários mecanismos para o fazer e vamos continuar a trabalhar com eles.
- Noticiário das 13h
- 12 mai, 2026








