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'Misericórdias de Futuro'. Alinhar uma missão de séculos com a Agenda 2030

30 abr, 2026 - 15:01 • Ângela Roque

A celebrar 50 anos, a União das Misericórdias Portuguesas lançou um livro e um jogo para dar a conhecer o bem que fazem e a importância que têm as 388 Santas Casas que há no país, e como os valores em que se baseiam estão diretamente relacionados com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, definidos pelas Nações Unidas.

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A União das Misericórdias Portuguesas (UMP) foi criada em 1976 para "orientar, coordenar, dinamizar e representar" estas instituições do setor social. Atualmente estão ativas 388 Misericórdias por todo o país, apoiando diariamente cerca de 158 mil pessoas, entre crianças, idosos, doentes e famílias vulneráveis.

Para assinalar os seus 50 anos de existência, a UMP lançou o projeto 'Misericórdias de Futuro', que surge de uma "reflexão profunda" sobre o papel histórico destas instituições e a resposta que têm dado aos desafios que cada tempo vai colocando. A iniciativa permitiu identificar "pontos de convergência entre valores com mais de cinco séculos e prioridades globais contemporâneas", nomeadamente os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) definidos pelas Nações Unidas.

À Renascença, Nuno Reis, do Secretariado Nacional da União das Misericórdias, explica que o projeto - que inclui um livro 'Comprometidos com o Futuro', e um jogo para os mais novos, 'A Descoberta das Misericórdias com os ODS' - pretende mostrar que este trabalho de séculos, inspirado nas 14 Obras de Misericórdia, longe de perder atualidade, pode ajudar a concretizar as metas definidas pela ONU até 2030.

"Quando, por exemplo, recordamos o Evangelho segundo São Mateus, 'porque tive fome e me deste de comer', 'porque tive sede e me deste de beber', 'porque fui peregrino e me recolheste', quando nós olhamos hoje para aqueles que são os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável apontados na Agenda 2030, da ONU, encontramos pontos muito concretos de convergência".

"O que se pretende com este projeto é que, tendo em conta o que estava plasmado no compromisso inicial da Misericórdia de Lisboa, de 15 de Agosto de 1498, impulsionado pela Rainha Dona Leonor, vemos que esse programa está ainda tão atual quanto as 14 Obras de Misericórdia, e é o que permite que, em todo o país, 388 Santas Casas, todos os dias façam a diferença na vida de tantas pessoas".

"O que se pretende é cruzar, interligar, articular aquilo que é a corporalidade e espiritualidade das Obras de Misericórdia com os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, porque a via da prosperidade e a via da paz continuam a ser atuais, por muito que, infelizmente, nos últimos tempos, os conflitos armados se tenham multiplicado e se estejam a tornar mais banais, infelizmente", sublinha aquele responsável.

Hoje, como no passado, as Santas Casas dão resposta a necessidades básicas, e estão atentas às necessidades que vão surgindo. Nuno Reis dá como exemplo o que está a acontecer em Barcelos, onde a construção de uma residência para estudantes corresponde, em simultâneo, a uma obra de misericórdia, e a um objetivo de desenvolvimento.

"A Misericórdia de BaRcelos está a reabilitar um edifício devoluto no centro da cidade, para o transformar numa pousada para garantir alojamento de estudantes carenciados, que, inclusivé, integra o Plano Nacional do Alojamento do Ensino Superior. Com isto está a 'dar pousada' aos atuais peregrinos. Ora, essa obra de misericórdia, que continua tão atual, é também um dos 17 ODS - salvo erro é o 11º. Há, de facto, essa interligação, essa comunhão entre os objetivos e aquilo que são as Obras de Misericórdia que continuam a ser perfeitamente atuais, mais de 500 anos volvidos sobre a criação da primeira Instituição".

A primeira Misericórdia em Portugal foi a de Lisboa (SCML). Foi fundada pela rainha D. Leonor, viúva de D. João II, que inspirou a criação de outras misericórdias em Portugal e na diáspora portuguesa. Atualmente, sendo um instituto público, a SCML é a única que não integra a União das Misericórdias, que são instituições privadas de solidariedade social que asseguram uma rede de equipamentos que dão resposta em várias áreas, com destaque para o apoio social e os cuidados de saúde.

Detentoras de uma vasto património, incluindo museus e imóveis de interesse arquitetónico, são também responsáveis por iniciativas litúrgicas como a Semana Santa e o Dia da Visitação, entre outros.

A missão mantém-se inspirada nas 14 Obras de Misericórdia (Obras Corporais: dar de comer a quem tem fome; dar de beber a quem tem sede; vestir os nus; dar pousada aos peregrinos; cuidar dos doentes; visitar os presos; enterrar os mortos; e Obras espirituais: dar bons conselhos; ensinar os simples; corrigir os que erram; consolar os tristes; perdoar as injúrias; sofrer com paciência as fraquezas do próximo; rezar a Deus por vivos e defuntos).

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