Entrevista
A Assis chega muita gente ansiosa: "Vivemos num frenesim. É tudo para ontem"
09 mai, 2026 - 09:00 • Ana Catarina André em Assis, Itália
Perante a guerra e os problemas das sociedades contemporâneas, o franciscano Rafael Normando pede uma Igreja mais interventiva. "As conferências episcopais de cada país têm de ter voz. Não nos podemos esconder, não podemos dizer que não há nada a acontecer".
Rafael Normando é franciscano. Nasceu no Brasil, mas vive em Assis, Itália, há seis anos, onde diariamente recebe peregrinos de todo o mundo. “Muitas pessoas não têm fé, mas veem em São Francisco de Assis uma resposta. Querem encontrar a paz, a tranquilidade”, diz o frei que é um dos coordenadores da Basílica de São Francisco, naquela localidade italiana.
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Em entrevista à Renascença, a propósito do Ano Jubilar Franciscano decretado pelo Papa Leão, alerta para a ansiedade com que muitos peregrinos ali chegam. “As pessoas entram num ciclo de vida que muitas vezes não gera paz”. E acrescenta: “Não podemos esquecer a guerra que cada um de traz dentro de si, as nossas incertezas, lamentações e defeitos”.
A Igreja está a celebrar os 800 anos da morte de São Francisco. A esse propósito o Papa proclamou um ano jubilar. Como é que esta efeméride tem contribuído para chamar mais peregrinos a Assis e para que as pessoas olhem de uma maneira nova para a mensagem de São Francisco?
Estamos a receber muitos peregrinos que vêm pela devoção a São Francisco, para pedir as suas graças, as suas bênçãos. No início do ano, em fevereiro e março, tivemos a exposição do corpo de São Francisco e recebemos 370 mil pessoas num mês, o que foi uma graça muito grande, com muito trabalho e muitas bênçãos. Trata-se de uma oportunidade para conhecer o santo, aprofundar a sua espiritualidade.
Assis tem uma ligação forte ao Papa Francisco que, ao longo do pontificado, chamou a atenção do mundo para São Francisco e para a sua mensagem. Por causa do Papa Francisco houve uma redescoberta da espiritualidade franciscana?
Sim. O Papa Francisco escolheu esse nome por causa de São Francisco, de modo especial no que se refere aos pobres. A devoção de São Francisco cresceu com Papa Francisco. Muitos peregrinos vinham aqui visitar a tumba do santo.
O Papa Francisco chamou também a atenção para a questão ambiental, que é uma questão premente hoje. Como é que vê também o caminho que a própria Igreja tem feito nesta matéria em termos de constitucionalização, do cuidado da criação?
O cuidado da criação foi um tema muito caro a São João Paulo II. Foi ele que colocou São Francisco como patrono da ecologia. São Francisco quando chamava a criação de irmão, irmã, irmão-sol, irmã-lua, por exemplo, queria dizer que eu sou uma criação como o sol é uma criação, como a lua é uma criação, como as plantas, como os animais. Eu faço parte de um Deus que me criou e que criou tudo isso. Então cuidar da criação é cuidar de um presente que Deus nos deu. Ter essa consciência ambiental é muito importante, não somente para preservar a natureza, mas também porque preservar a natureza é preservar-nos a nós mesmos, a nossa estadia neste mundo.
A ecologia integral de que o Papa Francisco falou refere-se, também, a uma questão política, para que as pessoas tenham melhor qualidade de vida. São Francisco foi muito claro nisso também, cuidando da criação, louvando a Deus pela criação. O Canto das Criaturas [de São Francisco] é exatamente isso. O Papa Francisco na [encíclica] Laudato Si lembra que fazemos parte de um todo. Se a gente não compreende isso, a gente se vê como reis, como Deus, como proprietários.
Todo o mundo é doutor atrás de um computador, todo mundo tem opinião e isso muitas vezes também são guerras
Como é que olha para o atual contexto marcado por guerras, questões ambientais graves que acaba por ser um pouco contrário àquilo que dizia?
Exatamente. O Evangelho é uma voz muito forte que grita no deserto, que grita em todos os lugares do mundo, buscando passar essa mensagem de paz, de amor, essa passagem de Cristo que o mundo pode escutar ou não. É um convite, o Evangelho nunca é uma imposição. As guerras, sim, são imposições, o Evangelho não. É um convite, a participar, a estar junto com os outros, a amar uns aos outros como Deus nos amou.
O Papa Leão é muito forte nisso, é muito claro ao falar dos problemas das guerras que não são a busca de uma igualdade entre países, como alguns defendem. A questão é muito mais profunda. Quantas crianças, quanto famílias, quanto destruição para alcançar essa unidade que os poderosos do mundo buscam!
Às vezes, a voz do Evangelho parece uma voz muito baixa em relação à voz dessas guerras, dessas individualidades de alguns países. Também pessoalmente a gente vê tanta violência nas redes sociais, pessoas que falam como se tivessem total autoridade para falar daquele tema. Todo o mundo é doutor atrás de um computador, todo mundo sabe dizer, todo mundo tem opinião, todo mundo tem isso e aquilo, e isso muitas vezes também são guerras: em vez de unir, separam. A voz do Evangelho é uma voz serena, é uma voz firme, mas precisamos de estar atentos para escutá-la.
Para que seja mais interventiva, até do ponto de vista a político?
Acredito que a maior voz que podemos dar é o nosso exemplo de vida, de honestidade. Dou um exemplo muito claro: hoje muitas vezes fazem-se reportagens, por exemplo, sobre uma pessoa que achou uma mala com 150 mil euros e devolveu essa mala ao proprietário. Isso vira notícia! Não deveria, porque isso é que é normal. Muitas vezes, as notícias de guerra, de violência tornam-se tão comuns que podemos estar a almoçar a ouvi-las. Muitas incomodam-nos e devem incomodar, mas para muitas pessoas torna-se quase uma coisa [comum]. O nosso mundo tem uma mentalidade muito ao contrário, não?
Calar-se diante de uma violência, de um massacre, de uma guerra é totalmente contrário ao Evangelho
O que é que explica isso, esse mundo ao contrário?
Podem ser muitas coisas. Muita gente cansada de lutar, de buscar o bem, de buscar a paz. Às vezes, as pessoas cansam-se de gritar e de não serem ouvidas, de não serem respeitadas. O poder dos grandes é muito centralizado no egoísmo, no autorreferencialismo, na questão das lutas. O Evangelho incomoda, a palavra de Jesus incomoda porque nos tira de uma zona de conforto, de uma zona que nos coloca naquilo que eu penso que seja o melhor.
Muitas vezes a Igreja também se fecha e não tem voz…
Tem de ter! As conferências episcopais de cada país têm de ter voz. Não nos podemos esconder, não podemos dizer que não há nada a acontecer. Ainda falando de São Francisco, Francisco não tinha medo de chegar diante do Papa e falar das coisas que não estavam bem na igreja. Mas falava com caridade. Obedecia à Igreja, mas permitia-se dizer as verdades. Calar-se diante de uma violência, de um massacre, de uma guerra é totalmente contrário ao Evangelho.
Neste contexto, o que é Assis grita ao mundo? O que é que as pessoas procuram aqui? Que perguntas querem ver respondidas aqui?
Temos dois grandes grupos de pessoas que visitam a igreja: os peregrinos que vêm pela devoção e os turistas que vêm pela arte, também para conhecer Francisco. São Francisco no final das contas não é só dos cristãos, não é só dos católicos. É do mundo. Muitas pessoas não têm fé, mas veem em São Francisco um sinal, uma resposta. As pessoas buscam harmonia em si mesmas. Querem encontrar a paz, a tranquilidade. Quanta ansiedade, quantas pessoas recebemos aqui com uma enorme ânsia!
Às vezes fazem uma pergunta e antes que a gente termine, já fazem a segunda. Vê-se agitação e pedimos: “Assis é conhecida como a cidade da paz. Assis tem de se fazer com calma. Baixa esse nível de adrenalina. Calma. Faz uma coisa de cada vez”. Alguns peregrinos buscam essa paz, não essa paz somente dos países, mas uma paz interior, uma harmonia seja na família, seja com elas mesmas, seja no trabalho. Não podemos esquecer a guerra que cada um traz dentro de si, as nossas incertezas, lamentações e defeitos.
Há um contexto que favorece essa guerra interior, digamos assim, desde logo as redes sociais, as exigências do mundo laboral…
Exatamente. Quando faço a visita guiada aqui na basílica [de São Francisco], explico os frescos e as pinturas que falam da vida de São Francisco e da graça de Deus na vida dele. Conto que em 1300, 1400, quando os peregrinos entravam na Basílica, estavam diante de um único fresco 15, 20, 30 minutos para rezar, para compreender. Hoje, de modo geral, quando uma pessoa visita uma igreja ou um museu tira foto, foto, foto, mas não tem um momento para olhar para aquela personagem na pintura, para observar a posição das mãos. Isso precisa de tempo. Eles [no passado] tinham uma coisa que não temos mais e que se chama tempo.
Vivemos num frenesim. É tudo para ontem. Tudo tem de ser rápido, automático. Tenho de trabalhar, produzir, fazer isso e aquilo e as pessoas entram num ciclo de vida que muitas vezes não gera paz, essa sensibilidade, essa tranquilidade interior. Acordam, tomam café, levam os filhos ao colégio, trabalham, almoçam, vão buscar os filhos e levam-nos para casa. O dia é todo assim. Quando chega o fim de semana, as pessoas querem descansar, dormir. Que tempo resta para rezar, para se conhecer a si mesmo, para dar a oportunidade de fazer um curso sobre o matrimónio, para quem é casado, ou sobre a vida religiosa, se for esse o caso?
A pobreza é não ter as coisas
Muitas vezes está subjacente a esse próprio ritmo a ideia de que o valor de cada pessoa assenta no que faz e no que tem. Parece-lhe que é assim?
Exato. Nas visitas guiadas também falo disso, porque quando a gente fala da pobreza de São Francisco, muitos pensam que a pobreza é não ter as coisas. Isso não é a pobreza de Francisco.
Pode explicar?
Uma pessoa não é alguém porque tem alguma coisa, e não digo coisas materiais somente. Falo também de quem tem um cargo alto no seu trabalho – pode usar o poder como opressão, humilhação do outro. Na regra dos frades não está escrito que os frades têm de ser pobres. O que está escrito é que não tenham nada de próprio. Esse nada de próprio significa não se apropriar das coisas. É liberdade. É nos concedido usar as coisas, foram-nos dadas como um dom, seja a natureza, o trabalho, o dinheiro. Quem não precisa de dinheiro hoje? Mas qual é a minha relação com esse dinheiro? É uma relação de poder? É uma relação de necessidade? É uma relação de caridade, de misericórdia? Temos de colocar estas questões com tudo aquilo que possuímos. Os nossos filhos são nossas propriedades? O meu marido, a minha esposa é minha propriedade? A pobreza de Francisco é para todo o mundo, cada um na sua realidade, cada um na sua missão. Ao compreender isso, tornamo-nos livres, sem máscaras, sem medo de dizer quem somos e o que queremos da vida.
Como é que isso de faz? Como é que se pode contrariar essa sofreguidão, essa velocidade que o mundo impõe?
A primeira coisa é ter consciência disso, que se está nesse círculo vicioso e que é preciso sair dele. Depois é ter consciência, mas com aprendizagem. Existem livros, cursos, direção espiritual. As pessoas quando começam a separar um tempo para si, começam a perceber o bem-estar e isso torna-se quase vicioso. Querem estar mais assim, ter mais tempo. Qual foi a última vez que levaste a tua mulher ou o teu marido para jantar? Qual foi a última vez que fizeram uma viagem juntos?
Também nós frades, vivemos aqui em Assis, e temos que também ter o nosso tempo. Às vezes uma pessoa pede-me para conversar. É uma pessoa da cidade. E eu digo: “olha, agora não posso, porque tenho de descansar.” Parece estranho responder assim, parece que não estou a dar atenção àquela pessoa. “Podemos marcar para amanhã? Se não temos tempo para nós, os outros não terão. Se não me amo, ninguém me vai amar e aqui trago de novo o Evangelho. Jesus diz: “Quem ama mais pai, mãe, irmãos do que a mim, não é digno de mim” Como compreender isso? Se não amas o amor em primeiro, que é Deus, não podes amar os outros. Amando a Deus, permitindo que Deus habite em nós, conseguimos amar-nos e amando-nos, conseguimos amar os outros.
- Noticiário das 3h
- 08 jun, 2026








