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O "outro pulmão de Fátima" respira com mais de 140 mil peregrinos por ano

11 mai, 2026 - 17:04 • Liliana Carona

O Santuário de Fátima entra num novo ciclo pastoral até 2027, dedicado ao “Coração de Maria”, mas a verdadeira pulsação da peregrinação também se desloca para fora da Cova da Iria. Entre Aljustrel e Valinhos, há um território mais íntimo cuja dimensão excede qualquer contagem. Em 2025, quase 500 grupos, somando mais de 43 mil peregrinos, percorreram estes caminhos, enquanto o posto local registou 140 mil atendimentos. Ainda assim, o alcance real revela-se nas mais de 400 mil visitas às casas dos videntes.

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O "outro pulmão de Fátima" respira com mais de 140 mil peregrinos por ano
Reportagem de Liliana Carona

Caminhando pelas azinheiras, são vários os monumentos que surgem entre Valinhos e Aljustrel, a aldeia onde nasceram os três pastorinhos das aparições de 1917, em Fátima. O calvário húngaro, a capela de Santo Estevão, o monumento de Nossa Senhora, a Loca do Anjo onde, apareceu o Anjo de Portugal aos pastorinhos antes das aparições de 1917.

Cruzam-se idiomas, abafados pelo silêncio que o espaço impõe por si só. Para André Pereira, diretor do Departamento de Acolhimento e Pastoral do Santuário de Fátima, trata-se de uma geografia distinta, mas intimamente ligada ao Santuário, sendo que a leitura institucional recusa qualquer divisão simbólica entre os diferentes núcleos do santuário.

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André Pereira descreve uma unidade profunda que atravessa geografias distintas. “Quando contemplamos a Cova da Iria, percebemos uma escala monumental, marcada por grandes assembleias e por uma projeção universal. Já em Aljustrel e Valinhos encontramos outra dimensão, feita de silêncio, natureza e proximidade. Ainda assim, não falamos de realidades separadas. É o mesmo santuário, com duas expressões que se completam”, começa por relevar.

“Quando contemplamos os lugares de Aljustrel e Valinhos, quer as casas dos videntes, quer os lugares das Aparições do Anjo e da Aparição Mariana de Agosto, quer o caminho que a todos estes lugares liga com essas marcas, vemos precisamente o silêncio, a natureza, a intimidade e é, de facto, uma outra a escala que temos por diante”, observa André Pereira.

Os trilhos rurais e os espaços domésticos dos videntes oferecem uma experiência recolhida, quase táctil, onde a espiritualidade se faz caminho. “Não é um complemento, nem um anexo”, insiste o diretor. “Aljustrel e Valinhos são santuário em pleno. Dois pulmões de um mesmo corpo, responsáveis por uma só respiração”.

“Estes números são apenas uma amostra”

O biénio pastoral propõe um itinerário concreto que atravessa estes lugares, convidando os peregrinos a revisitar os acontecimentos fundadores de 1917.

A narrativa começa nas aparições do anjo e conduz à experiência mariana, numa pedagogia espiritual centrada na transformação interior.

“Há aqui um convite claro a configurar o coração humano com o coração de Deus, tomando Maria como referência”, explica André Pereira. “Os peregrinos percorrem estes caminhos não apenas como turistas, mas como participantes de um processo espiritual.”

 Fotos: Liliana Carona/Renascença
Fotos: Liliana Carona/Renascença
Pastorinhos de Fátima - Itinerário do peregrino Aljustrel e Valinhos. Foto: Liliana Carona/Renascença
Pastorinhos de Fátima - Itinerário do peregrino Aljustrel e Valinhos. Foto: Liliana Carona/Renascença
Pastorinhos de Fátima - Itinerário do peregrino Aljustrel e Valinhos. Foto: Liliana Carona/Renascença
Casa onde viveu a irmã Lúcia em Aljustrel. Foto: Liliana Carona/Renascença
Pastorinhos de Fátima - Itinerário do peregrino Aljustrel e Valinhos. Foto: Liliana Carona/Renascença
Pastorinhos de Fátima - Itinerário do peregrino Aljustrel e Valinhos. Foto: Liliana Carona/Renascença
Pastorinhos de Fátima - Itinerário do peregrino Aljustrel e Valinhos. Foto: Liliana Carona/Renascença
Pastorinhos de Fátima - Itinerário do peregrino Aljustrel e Valinhos. Foto: Liliana Carona/Renascença
Pastorinhos de Fátima - Itinerário do peregrino Aljustrel e Valinhos. Foto: Liliana Carona/Renascença

A Via Sacra continua a ser uma das práticas mais procuradas. Em 2025, quase 500 grupos, somando mais de 43 mil participantes, registaram oficialmente esse percurso.

No entanto, os dados ficam aquém da realidade. “Muitos fazem o caminho de forma espontânea, sem qualquer registo. Sabemos que são muitos, mesmo que não consigamos quantificá-los”.

Os dados disponíveis oferecem apenas uma aproximação. O posto de informações de Aljustrel contabilizou mais de 140 mil atendimentos em 2025, um indicador relevante do fluxo de visitantes interessados na história dos pastorinhos e nas aparições angélicas.

Ao mesmo tempo, as casas de Casa de Francisco e Jacinta Marto e da Casa da Irmã Lúcia ultrapassaram os 400 mil visitantes. “Não temos ilusões. Estes números são apenas uma amostra”, admite o responsável, acrescentando ainda: “a realidade é sempre maior do que aquilo que conseguimos medir”.

A diversidade dos peregrinos reforça essa ideia de amplitude. Chegam de todos os continentes, cruzam línguas, culturas e gerações, num fluxo contínuo que confirma o crescimento do interesse por esta dimensão mais discreta de Fátima.

Pressão turística levanta desafios

Marco Daniel Duarte, diretor do Museu do Santuário de Fátima e coordenador do projeto museológico, reconhece que o equilíbrio entre autenticidade e atividade económica nem sempre foi conseguido.

“O espaço entre as casas dos videntes não é apenas atravessado por comércio. É, sobretudo, um lugar de peregrinação desde 1917. No entanto, como acontece em todos os destinos muito procurados, surgem tensões”.

Ao longo das décadas, algumas intervenções urbanísticas e práticas comerciais afastaram-se da identidade original da aldeia. “Houve momentos em que a paisagem perdeu coerência, quer pela construção desajustada, quer pela oferta de produtos pouco alinhados com o espírito do lugar”, assume.

A resposta do santuário assenta numa política de longa duração. Desde meados do século XX que se investe na aquisição e valorização das casas dos videntes, transformadas em espaços museológicos. “O objetivo sempre foi preservar a memória e permitir que os visitantes compreendam o contexto em que tudo aconteceu”, esclarece Marco Daniel Duarte.

A recente requalificação da casa de Lúcia em Aljustrel demonstra uma museografia renovada, centrada na infância da vidente e o trabalho continua, avança Marco Daniel Duarte, diretor do Museu do Santuário de Fátima.

Reaberta no verão de 2024, apresenta-se agora como um novo espaço, mas mantendo a autenticidade. “Não mostramos a religiosa que veio depois. Aqui encontramos a criança, o ambiente familiar, a vida rural. Procurámos uma museologia do silêncio, que respeite o espaço e permita ao visitante interpretá-lo”, afirma. A intervenção manteve a estrutura original da casa, com os seus quartos, cozinha, sala do tear e forno, mas introduziu uma leitura mais exigente do ponto de vista científico e sensorial.

O trabalho continua e a casa de Francisco e Jacinta encontra-se em fase de projeto para uma reabilitação que seguirá critérios contemporâneos de museologia.

“Não existe uma oposição entre a monumentalidade da Cova da Iria e este ambiente doméstico”, sublinha o diretor do museu. “Há, sim, uma complementaridade que o santuário procura cuidar com igual rigor e é isso que estamos a fazer, precisamente, com a casa dos Santos Francisco e Jacinta Marto, que neste momento se encontra a ser avaliada já em fase de projeto, para também poder ser reabilitada com as mais modernas técnicas, critérios e ferramentas da museologia”.

O chamado “outro pulmão” não é apenas uma metáfora feliz. É uma chave de leitura que obriga a repensar o próprio conceito de peregrinação, deslocando-o do espetáculo para a interioridade, do número para a experiência, da multidão para o encontro. E os números falam por si. Em 2025, quase 500 grupos e mais de 43 mil peregrinos registados, além de 140 mil atendimentos em Aljustrel e mais de 400 mil visitantes nas casas dos pastorinhos.

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