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Dia Mundial das Comunicações Sociais

D. Alexandre Palma: "A Igreja é comunicação"

15 mai, 2026 - 11:00 • Henrique Cunha

Presidente da Comissão Episcopal das Comunicações Sociais (CECS), D. Alexandre Palma, lembra importância da comunicação para a Igreja. Em entrevista à Renascença, o responsável comenta a mensagem do Papa para o 60º Dia das Comunicações Sociais, e desvaloriza a polémica à volta das críticas de Donald Trump a Leão XIV.

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O presidente da Comissão Episcopal das Comunicações Sociais (CECS), D. Alexandre Palma, lembra, em entrevista à Renascença, que a Igreja “nasce como comunicação do Evangelho”.

Nesta entrevista em que se assinala o Dia Mundial das Comunicações Sociais, o também bispo auxiliar de Lisboa e presidente da Fundação Jornada analisa a mensagem do Papa para o 60.º Dia das Comunicações Sociais – “Preservar vozes e rostos humanos” – e fala também da recente polémica à volta das críticas de Donald Trump a Leão XIV, desvalorizando o caso. D. Alexandre Palma sublinha, contudo, “a assertividade” do Papa “na defesa do direito internacional, na defesa dos mais pobres e daqueles que não têm voz”.

O presidente da CECS garante que, nesse plano, “a Igreja vai continuar a fazê-lo”, mas sublinhando que “a Igreja não faz política”.

“A Igreja participa no debate público num outro registo e é nesse registo que continuará a falar”, assegura.

"O momento primeiro da arte da comunicação é a boa escuta"

"Preservar vozes e rostos humanos", o tema da mensagem do Papa para esta celebração, permite perceber que o atual ambiente das tecnologias da comunicação é um desafio enorme para a humanidade?

Sem dúvida. Para a humanidade, para as nossas sociedades e até para a Igreja. Esse ponto que identifica parece-me, de facto, muito importante e tem a ver com a necessidade de humanizarmos sempre os nossos meios de interação, as nossas relações e também, por essa via, todas as ferramentas, os instrumentos e as plataformas de comunicação social ou outra.

E eu creio que esse é um ponto muito importante da mensagem do Papa: temos estas ferramentas, são extraordinárias, mas não podemos perder o humano que as constrói e devemos colocá-las ao serviço do aprofundamento da nossa humanidade. Essa acentuação muito bela, muito bíblica, de rosto, nome, voz parece-me muito sugestiva, sobretudo para não deixarmos que a nossa comunicação perca a sua dimensão de carne, de gente, de nome, de identidade, de rosto, que é muito importante conservarmos sempre.

O Papa, como disse, pretende evidenciar a centralidade da pessoa no processo da comunicação. Não estamos a dar a atenção devido aos riscos da inteligência artificial na comunicação?

Eu creio que estamos, mas estamos a aprender. Ou seja, creio que estamos a tentar perceber o que é a inteligência artificial, como ela se vai desenvolver. Estamos já no meio dela, ela já convive connosco e, de facto, tenho encontrado isso em muitos ambientes escolares, sociais, coletividades, também ambientes pastorais e outros, onde este tema tem sido refletido, discutido, partilhado, em registo mais de formação, em registo mais de ajuda. Este tema entrou definitivamente na nossa agenda pública, social, eclesial, nacional e internacional.

Agora, como também dizia, creio que estamos a aprender, a usar a ferramenta, até do ponto de vista técnico, mas sobretudo estamos a aprender a conviver com esta ferramenta que chamamos de inteligência artificial. Há aqui um processo de aprendizagem que tem vários níveis. Tem o nível individual – como é que cada um de nós usa, vive com esta ferramenta? –, mas também tem uma dimensão comunitária, social e eclesial – como é que nós, enquanto comunidade, vivemos, coexistimos, integramos esta ferramenta ao serviço das sociedades que queremos ser? Aqui, a Doutrina Social da Igreja tem sempre uma bússola, independentemente dos meios. O destino é sempre o bem comum, a solidariedade como princípios maiores desta nossa presença social.

Será, portanto, um grande desafio manter este sentido humano ou tornar mais humana a comunicação nesta era da inteligência artificial?

Sim, eu acho que esse é o enorme desafio, mas, reconheçamos, é o desafio de cada geração humana.

"Estamos a aprender a conviver com esta ferramenta que chamamos de inteligência artificial"

Dá-se o caso de que a nossa se encontra com este grande desafio. É curioso porque todo este desenvolvimento começou muito com a ideia do jogo da imitação, portanto, a máquina, seja algorítmica seja outra, estaria superiormente desenvolvida quando ela imitasse plenamente o humano e, de alguma maneira, pudesse reproduzir perfeitamente o comportamento humano. Nós hoje sentimos um pouco a sombra do risco contrário, que é nós imitarmos a máquina e é muito interessante que o Papa Leão, na mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, desenvolva um tema muito, muito, muito importante que é esta ideia da simulação, do simulacro. O que estávamos aqui a conversar sobre humanizar estes meios de comunicação significa trazê-los à realidade. No fundo, é isto: não permitir que eles nos façam viver numa simulação de vida, num simulacro da realidade, que seria sempre muito empobrecedor do humano. Compreenderá que, como cristão, como bispo diga: esta humanização supõe também a sua abertura ao transcendente. Não apenas um transcendente mecânico, algorítmico, mas um real transcendente que é também um Deus, que é a relação, que é esse o Deus de Jesus.

Também é importante refletir como se comunica atualmente, em particular, como se comunicam as grandes potências, os grandes líderes. A influência das novas tecnologias leva-nos para aquilo a que muitos designam de pós-verdade?

Talvez, embora eu creio que não seja uma fatalidade. Mas talvez haja alguma correlação entre uma coisa e outra. Não por acaso, o Papa, como há pouco citava, alertava para os perigos da manipulação...

"Temos estas ferramentas, são extraordinárias, mas não podemos perder o humano que as constrói"

Manipulação que se torna muito mais fácil com a inteligência artificial, não é?

Exatamente. E não só. Pode manter-se as pessoas sempre ligadas, engajadas e, de alguma maneira, manipular, até mercantilizar o desejo, porque o que estas ferramentas manobram muito bem é o nosso querer, o nosso desejar. O famoso algoritmo... Há aqui todo um cuidado a ter. Como é que o algoritmo nos conhece? E como nos conhece também no sentido do bem, para o bem, porque há muitos algoritmos que é bom que conheçam as nossas patologias para ajudar a curá-las, mas também nos conhecem, às vezes, nas nossas fragilidades de personalidade. Portanto, também vão, de alguma maneira, canibalizar essas próprias vulnerabilidades e isso é um risco. Agora, eu creio que há aqui uma enorme convocatória para a responsabilidade de todos.

Gostava de acentuar isto porque é isto que o Papa também acentua na mensagem. Há uma visão não apenas de diagnóstico do presente, mas também de prognóstico de um futuro que, como o Papa Leão refere, quer ser de aliança entre todos os intervenientes. Temos de chamar todos à responsabilidade. sejam aqueles que desenvolvem estas ferramentas sejam aqueles que têm alguma função de governo das sociedades e que podem ponderar qual é a medida justa da sua regulamentação. Mas também de cada um de nós, como usuários destas ferramentas. Nós não podemos negar que também temos uma responsabilidade ética no uso destas ferramentas. Trabalhando ou comentando esta intuição do Papa, todos nós temos de assumir cooperativamente, em aliança, esta nossa responsabilidade.

E na Igreja há espaço para melhorar a comunicação? Que ideias nos traz o novo presidente da Comissão Episcopal das Comunicações Sociais?

Sabe que o momento primeiro da arte da comunicação é a boa escuta e eu nem sempre – reconheço publicamente este pecado, outros deixarei para outros contextos – sou um ótimo escutador. Publicamente e mediaticamente me penitencio.

"O que estas ferramentas manobram muito bem é o nosso querer, o nosso desejar"

O trabalho da Comissão não começa agora, começou há muito tempo, com nomes enormes, de um enorme serviço à comunicação em Portugal e à Igreja na área da comunicação. A Comissão herda este trabalho, temos profissionais a trabalhar nesta área para a Igreja, queremos dialogar com todos os profissionais da comunicação e, portanto, há uma atitude muito de diálogo, até de saída, de ir ao encontro, escutar outras racionalidades, outros discursos, outros pontos de vista, que não têm que ser necessariamente os nossos, ou sequer os meus, mas uma grande disponibilidade para escutar. Mas também uma disponibilidade para conversar e para sairmos dos nossos espaços, irmos ao encontro dos públicos, dos profissionais de comunicação, na sua diversidade, na sua riqueza, às vezes irmos, se calhar, a outros lugares, como escolas, como universidades, como espaços por todo o nosso território.

Também é preciso dizer que a Comissão tem feito, nestes últimos anos, um enorme esforço de marcar a sua presença em todo o território nacional, promovendo órgãos de comunicação local, da Igreja e outros, numa lógica de subsidiariedade. Este é outro princípio da Doutrina Social da Igreja que creio que se nos aplica também como Comissão Episcopal. Não estamos para ser protagonistas, estamos para dar protagonismo aos atores no terreno, aos atores da comunicação, também por via da comunicação social, que queremos também ajudar, reforçar, encorajar, animar.

Portanto, há campo para melhorar a comunicação na Igreja...

Há sempre campo para comunicar melhor. Desde logo, eu próprio.

"Não podemos negar que também temos uma responsabilidade ética no uso destas ferramentas"

Quão importante foi, do seu ponto de vista, a CEP separar ou autonomizar a comunicação social dos bens culturais?

Isso tem a ver um bocadinho com a organização e distribuição da carga de trabalho que caía sobre a Comissão Episcopal, que tinha cultura, bens culturais e comunicação social. Dá-se esta distinção, mas, obviamente, percebemos que a cultura tem que comunicar e a comunicação tem que ter alguma coisa de cultura e, portanto, não se trata de criar compartimentos estanques. Trata-se apenas de uma nova arrumação da forma do episcopado português acompanhar estas áreas, sempre em trabalho de comunhão entre todos os bispos e entre as diversas comissões.

Gostaria que deixasse uma mensagem para os profissionais deste sector...

Aos profissionais de comunicação, gostava, por um lado, de deixar uma enorme gratidão. Eu sou um consumidor, há muitos anos, do vosso trabalho e sei que é um lugar difícil de mediação entre várias instâncias da sociedade, da Igreja, mas muito importante exatamente por causa disso. Portanto, tenho uma enorme gratidão, muito obrigado pela vossa dedicação.

Em segundo lugar, como o Papa Leão fez recentemente, também quero desejar que sejam contextos de trabalho mais qualificados, com mais capacidade de intervenção, com mais ferramentas, com mais suporte profissional, financeiro, também, simbólico de formação. E quero dizer, em último lugar, que a Igreja, desde a sua origem, é comunidade e, como qualquer comunidade, a Igreja é comunicação. Ela nasce como comunicação do Evangelho e, por isso, a tarefa de comunicar em todas as plataformas, em todos os meios, a todas as pessoas, para a Igreja não é um extra, mas está no coração da sua própria identidade. Por isso, também a relação com a sociedade com quem quer comunicar, através dos órgãos de comunicação. Para a Igreja, é um lugar privilegiado da sua ação e, por isso, a todos os profissionais digo: nós, Igreja, contamos convosco e vós também contai com a Igreja.

"A Igreja não faz política num nível em que qualquer administração norte-americana ou outra faz. Participa no debate público num outro registo"

Falou da importância da mediação na comunicação. Isso ganhou maior importância neste tempo em que, como disse, se pode confundir o real com o artificial?

Sim. Ou seja, precisamos de formas de comunicação que nos desvelem e que nos façam encontrar, habitar a realidade e, de facto, a comunicação social faz isto. Muitas vezes, abre-nos o mundo da realidade para lá do que eu individualmente posso conhecer no meu lugar. Esse é um bem que a comunicação social há tempos e tempos faz e vai continuar a fazer com as novas ferramentas, sejam de inteligência artificial, sejam de comunicação digital, de redes sociais, seja o que for.

Temos de estar alerta para os riscos que neste mundo também existem. Mas também não vale a pena estar sempre a falar dos riscos. É preciso também falar, porque é verdade, como o mundo de cada um de nós se alarga quando podemos comunicar através destes meios. Tem riscos? Tem. Toda a comunicação tem riscos. Temos de estar alerta, não sermos ingênuos perante estes riscos, mas também temos de ter – e nós viemos do ano jubilar da esperança – aquilo que nos move, que é a esperança e a confiança de que, no fundo, Deus, que é o bem, triunfa sempre.

Estamos a falar de comunicação. Como é que olha para a forma como Donald Trump comunica e como tem tentado interagir com o Papa Leão XIV?

Se calhar, eu aqui saio um bocadinho do guião público. Eu não dou demasiada importância a alguma troca de comentários ou afirmações em público.

Ela é o que é. Sabe tão bem, ou melhor que eu, que a espuma mediática é muito rápida. Daqui a um mês, se calhar, ou daqui a um pouco mais, pouco restará do que quer que tenha sido essa interação mais ou menos acontecida em público. Por isso, não dou a isto demasiada importância.

Claro, que há aqui uma diferença de perspetivas e, nomeadamente da parte do Papa Leão, muita assertividade, muita clareza. Assim nos vamos habituando à forma de comunicar do Papa Leão, acerca de coisas muito fundamentais, como seja a paz ou o direito internacional, como seja a defesa dos mais pobres e daqueles que não têm voz. Aí, a Igreja não terá hesitações na sua voz. E o que o Papa Leão disse foi isso. E continuará a dizê-lo. A Igreja já o fazia antes, continuará a fazê-lo hoje e amanhã. Incomoda quem incomodar, seja apreciado por quem for, a Igreja continuará a dizer isto.

Agora, a Igreja não faz política num nível em que qualquer administração norte-americana ou outra faz. Participa no debate público num outro registo e é nesse registo que continuará a falar. Eu creio que não há vantagem para ninguém, nem para a política nem para a Igreja, confundir os planos. Eles interagem, claro que sim, mas é preciso fazer alguma distinção para não cairmos numa confusão que, no final do dia, só aumenta o ruído e não a clareza no nosso discurso público.

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