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Abusos na Igreja

Grupo Vita. Vítimas continuam a ter “percepção de respostas insuficientes” e “exigem uma Igreja transparente”

23 mai, 2026 - 17:42 • Jaime Dantas

A coordenadora do Grupo Vita, Rute Agulhas, define como “ideia central do relatório a de que as vítimas querem e exigem uma igreja transparente e que não se fique pelas palavras, pelas boas intenções, que as concretize, com medidas e com estratégias concretas e palpáveis”.

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Rute Agulhas, coordenadora do grupo VITA Foto: Nuno Ferreira Santos/Público
Rute Agulhas, coordenadora do grupo VITA Foto: Nuno Ferreira Santos/Público
Rute Agulhas durante a apresentação do relatório do projeto "Sobre.VIVER". Foto: Jaime Dantas/Renascença
Rute Agulhas durante a apresentação do relatório do projeto "Sobre.VIVER". Foto: Jaime Dantas/Renascença

A “maior fonte de frustração” das vítimas de abusos na Igreja Católica “não é apenas o passado abusivo, mas também a perceção de respostas presentes insuficientes”, conclui um relatório apresentado este sábado pelo projeto “Sobre.VIVER”, do Grupo Vita.

O documento, que conta com os contributos de um total de 25 sobreviventes, 12 deles ouvidos em sessões regulares, define quatro eixos de ação: prevenção, formação, cultura institucional e reparação.

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À Renascença, durante a cerimónia de apresentação, no Pavilhão Centro de Portugal, em Coimbra, a coordenadora do Grupo Vita, Rute Agulhas, define como “ideia central do relatório” a de que as vítimas “querem e exigem uma Igreja transparente, uma Igreja mais acessível e uma Igreja que não se fique pelas palavras, pelas boas intenções, que as concretize com medidas e estratégias concretas e palpáveis”.

Quanto à prevenção, os participantes apontam como prioridade a transparência nos espaços físicos, através da colocação de portas de vidro e da eliminação de zonas isoladas, defendendo ainda que sejam evitadas interações a sós entre adultos e menores ou pessoas vulneráveis.

Neste campo, as vítimas defendem também a criação de códigos de conduta e de canais de denúncia funcionais e credíveis em cada diocese e congregação religiosa.

No que toca à formação, destaca-se a recomendação de um recrutamento mais exigente, que priorize a verificação de antecedentes, entrevistas estruturadas, compromisso explícito com os códigos de conduta a criar e formação contínua, não só do clero, mas também de leigos, voluntários e agentes pastorais.

Os conteúdos sugeridos são “ética e responsabilidade, limites relacionais, noções fundamentais sobre trauma e impacto da violência, princípios de recrutamento seguro, sinais de alerta, formas adequadas de escuta, protocolos de denúncia e procedimentos de atuação perante suspeitas ou revelações”, pode ler-se no documento.

Em relação à cultura institucional, retira-se a conclusão de que “a estrutura hierárquica vertical, a solenidade excessiva, o distanciamento entre clero e fiéis, a opacidade nos processos internos e a sacralização da autoridade” criam condições “para que o abuso ocorra e permaneça oculto”.

Por isso, os participantes pedem a redução das distâncias hierárquicas, o reconhecimento explícito do abuso de poder, maior presença de mulheres na Igreja e a rejeição absoluta de qualquer cultura de ocultação ou adiamento de decisões.

Já no que toca à reparação, “descrita pelas vítimas e sobreviventes como uma realidade muito mais ampla do que a compensação financeira”, é pedido o reconhecimento claro do dano, escuta e pedidos de perdão genuínos, além de encontros preparados com rigor, em locais neutros, com mediação externa qualificada por profissionais com formação em trauma. As vítimas rejeitam que estes eventos sejam usados como ferramenta de instrumentalização para proteger a imagem institucional da Igreja Católica.

De resto, o testemunho de uma vítima ouvida pela Renascença e pela Agência Ecclesia antes da apresentação do documento vai no mesmo sentido: afirma ser necessária uma transformação na cultura da Igreja e lamenta a lentidão do processo.

“Existe uma desconfiança nos testemunhos, fala-se sempre em falta de provas”, lamenta a vítima.

Relatório defende continuidade do projeto “sobre.viver”

O relatório recomenda ainda que o projeto “Sobre.VIVER”, criado há cinco meses, seja fortalecido, mantendo as sessões de grupo e a modalidade de contributo individual, criando mecanismos de devolução aos participantes sobre o destino dos seus contributos e avaliando periodicamente temas prioritários, como prevenção, reparação, apoio a familiares e formação.

“O projeto Sobre.VIVER demonstra que a participação de vítimas e sobreviventes gera conhecimento de elevada utilidade institucional”, pode ler-se no relatório.

Também na sessão de apresentação do relatório, Rute Agulhas defendeu a continuidade do Grupo Vita, três anos após a sua criação pela Conferência Episcopal Portuguesa.

“O Grupo Vita não sabe ainda de que modo irá continuar, mas acreditamos que vai continuar, é isso que nos tem sido transmitido”, afirmou Rute Agulhas.

“De qualquer das maneiras, a resposta final tê-la-emos em breve por parte da CEP”, rematou.

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