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Primeira Encíclica de Leão XIV

Henrique Leitão: "O mundo quer ouvir o que o Papa tem a dizer sobre a Inteligência Artificial”

25 mai, 2026 - 06:00 • Henrique Cunha

Investigador Henrique Leitão, Prémio Pessoa 2014 e membro do Comité Pontifício de Ciências Históricas, destaca, em entrevista à Renascença, a autoridade do Papa. Esta segunda-feira é revelado o texto da primeira encíclica de Leão XIV, intitulada "Magnifica humanitas".

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O investigado Henrique Leitão, membro do Comité Pontifício de Ciências Históricas, diz, em entrevista à Renascença, que é elevada a expectativa que está a gerar a primeira encíclica do Papa Leão XIV.

A primeira carta encíclica do pontificado, com o título "Magnifica humanitas" — "Humanidade Magnífica", em português — sobre “a proteção da pessoa humana na era da inteligência artificial” é revelada esta segunda-feira, pela Santa Sé.

Henrique Leitão, que é especialista em IA e pró-reitor da Universidade de Lisboa, diz que “há um interesse generalizado na encíclica” porque ela “vai tratar de um fenómeno que perturba a humanidade” e, assim, com esta encíclica o Papa presta “um importante serviço”.

Para o também Prémio Pessoa 2014, é a “enorme autoridade moral que o Papa tem no mundo atual” que provoca a “generalizada atenção do mundo ao que a Igreja tem a dizer”.

"A dimensão ética da IA será central na encíclica”, antevê Henrique Leitão porque, se “não há futuro sem IA”, foram os seus próprios promotores a “alertar para as preocupações, para os perigos e riscos”.

Uma das dificuldades que o investigador destaca está relacionada com o facto de a IA “não se comportar alinhada com o que são os valores e comportamentos que a humanidade considera eticamente bons”.

Por outro lado, Henrique Leitão refere que o Papa também terá algo a dizer sobre a IA poder promover um super ser humano, algo “perigosíssimo”.

O investigador destaca também a importância de a encíclica analisar as questões relacionadas da IA com as condições do trabalho, sobretudo a possibilidade de criar mais desigualdade, ou mesmo a possibilidade de um controle sobre as pessoas nunca antes visto.


“Magnifica humanitas” é o título da primeira encíclica do Papa Leão XIV. Ela surge após anos de reflexão da Igreja sobre o desenvolvimento ético e os limites da Inteligência Artificial, da economia ao campo militar. Costuma-se dizer que a primeira encíclica deixa sinais e pistas sobre o pontificado. Também tem essa ideia?

Sim, acho que sim. Neste caso, até há um fator adicional: é que a perspetiva do aparecimento desta encíclica está a levantar enorme interesse,. Há um interesse generalizado, internacional, muito mais extenso que, digamos, só na Igreja Católica, porque o fenómeno de que a encíclica vai tratar, a inteligência artificial, é um fenómeno da ordem do dia, imensamente perturbador, cheio de esperança, mas também cheio de inquietação, que gera muita esperança, mas também gera muita inquietação.

Curiosamente, há aqui, de alguma maneira, uma uma espécie de consenso: o mundo quer ouvir o que é que o Papa tem para dizer sobre isto, sobre a Inteligência Artificial. Se formos às notícias e às notícias da especialidade, há uma espécie de um silêncio antecipatório: está toda a gente à espera, como que pensando "vamos agora calar porque o Papa vai dizer qualquer coisa sobre este assunto que tanto perturba a humanidade". E este é um serviço, digamos, importantíssimo do papado e, obviamente, as pessoas escutam com toda a atenção.

"Vamos agora calar porque o Papa vai dizer qualquer coisa sobre este assunto que tanto perturba a humanidade"

Por isso, ao efeito habitual das primeiras encíclicas de um Papa, toma-se claramente neste caso um interesse adicional provocado pelo tema e pelo desejo enorme que a humanidade em geral tem em ouvir o que o Papa Leão XIV tem para dizer sobre o assunto.

Num exercício especulativo, acredita que o Papa também deixe indicações sobre a forma como devemos disciplinar esta nova realidade do trabalho, marcada pela IA? Tal como, em 1891, o Papa Leão XIII, fez na Rerum Novarum...

Pois, é muito provável, e aqui entramos num campo completamente especulativo, como disse. Portanto, com todas as cautelas. Mas podemos especular um pouco e acho que podemos pensar um pouco. Penso que a dimensão ética será central nesta encíclica. Aliás, se as informações que eu vi estão mais ou menos corretas, a própria encíclica tem um subtítulo sobre a proteção da dignidade humana e, portanto, que aponta logo para uma dimensão ética. E a dimensão ética é, de facto, a que preocupa a humanidade, ou seja, não há futuro sem inteligência artificial, este é um ponto, portanto não há maneira de conceber o mundo nos próximos anos e no futuro sem esta nova tecnologia.

"A dimensão ética é, de facto, a que preocupa a humanidade"

Esta nova tecnologia veio para ficar, mas esta nova tecnologia, logo desde o início, mostrou aspetos que levantam justas preocupações. Os próprios promotores, e isto é muito interessante, os próprios promotores, muitas vezes, foram eles a alertar para as preocupações, para os perigos, para os riscos. E são de ordem variadíssima. O que aqui causa interrogação, do que estamos todos à espera, de todas estas preocupações, quais são aquelas em que o Papa vai fixar mais a atenção ou a que vai dar mais peso? Porque, obviamente, num documento só não poderá tratar tudo, não é?

Na sua perspetiva em quais se vai fixar?

Há um problema geral tratado, que é o problema chamado do alinhamento ou do, digamos, desalinhamento, que é o facto da tecnologia não responder e não se comportar alinhada com que são os valores, os princípios, as normas, os comportamentos que a humanidade acha que são eticamente bons.

Portanto, a tecnologia não se comporta desse modo, necessariamente. E sobre isto, como se deve proceder, há uma grande discussão. Portanto, isto é um problema genérico, mas há muitas outras questões, não é?

"Esta nova tecnologia veio para ficar, mas esta nova tecnologia, logo desde o início, mostrou aspetos que levantam justas preocupações"

A IA levanta questões sobre a abertura da humanidade à verdade e à beleza, por exemplo e, logo na sua primeira entrevista, julgo que a 18 de setembro, Leão XIV alertou para os desafios levantados pelo desenvolvimento da IA. Na ocasião, o Papa lembrou também que “vai ser difícil descobrir a presença de Deus na IA”. Este é um alerta importante para a confiança ingenuamente acrítica na IA?

Sim, um dos tópicos, entre muitos, mas um dos tópicos e podemos, rapidamente, elencar vários, mas um dos tópicos é IA apresentar-se como a possibilidade da criação e da promoção de um super ser humano, uma promessa de uma humanidade que transcende a limitação da própria humanidade. Isto é tudo perigosíssimo, e nós sabemos que é tudo perigosíssimo e, provavelmente, o Papa terá coisas a dizer sobre isso.

Mas a IA tem, obviamente, um impacto enorme no mercado de trabalho e nas relações de trabalho, e o trabalho é absolutamente central no cristianismo, o trabalho é esta forma, digamos, de o humano adquirir dignidade na relação com a criação. Portanto, todas as questões da IA na relação com o trabalho são importantes para o Papa. A possibilidade da promoção, de criação de mais desigualdade ou a possibilidade de levar a transformações sociais muito negativas, de afastamento das pessoas, ou o que seja. Ou aquilo que também está no horizonte e é muitíssimo perturbador: a possibilidade de um controle sobre as pessoas, de um nível, de uma penetração e de uma sufocação que até aqui nunca tinha havido e que agora se aparece como possível.

Tudo isto são possibilidades e preocupações que merecem a atenção de todos nós e que, certamente, merecerão alguma atenção do Papa. E, depois, há questões mais teóricas. Por exemplo, qual é a relação entre a IA e a cognição humana e se a cognição humana terá afetado por esta tecnologia. Mas eu penso que estas são questões mais teóricas em que talvez o Papa não queira entrar. Penso que irá às mais éticas.

​"Preocupa a IA apresentar-se como a possibilidade da criação e da promoção de um super ser humano"

Esta Encíclica também nos deixa de certa forma a certeza de que a Igreja está preocupada e atenta ao mundo do trabalho, à justiça social?

Sim, sim, absolutamente. Isso sempre. E isso corresponde à história da Igreja e relaciona isto com a "Rerum Novarum" e o próprio Papa relaciona uma encíclica central da Constituição da Doutrina Social da Igreja. "A Rerum Novarum" e esta encíclica apresentam-se, digamos ,como tal, como um momento central. Mas, além desta contínua preocupação da Igreja com o mundo, há este fenómeno muito interessante que é, neste momento, a generalizada atenção do mundo por aquilo que a Igreja tem a dizer, por aquilo que o Papa tem a dizer. Eu penso que é um sinal muito importante desta enorme autoridade moral que o Papa tem no mundo atual e merecidíssima e que é um serviço, é um serviço à humanidade, não é?

​"A Rerum Novarum e esta encíclica apresentam-se como um momento central"

Essa autoridade moral foi reforçada pela polémica em que o Papa se viu envolvido com Donald Trump?

Pois, talvez isso é mais, digamos, política conjuntural. E com certeza estas intervenções são todos importantes, mas o Papa opera numa escala muito maior. Quando fala de paz, não está a falar de um conflito em particular e, agora, obviamente, quando falar de inteligência artificial não estará a falar apenas da situação no momento, o que nós temos hoje, estará a falar do problema em toda a sua grande escala.

É interessante que se as notícias que li se confirmarem, se estavam corretas, na apresentação da encíclica estará uma pessoa muito importante, um dos fundadores da Antropik, que é o Christopher Holla, um homem muito, muito conhecido no meio da inteligência artificial. Também será interessante ver o que é que uma destas pessoas tem a dizer.

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