Entrevista Renascença
"Os populismos também existem dentro da Igreja", admite presidente da CEP
27 mai, 2026 - 07:00 • Henrique Cunha , Ângela Roque
D. Virgílio Antunes afirma que na Igreja também existem grupos que "usam linguagens e modos de ser que não têm suporte sério e seguro".
Estamos a viver tempo e um contexto político e social que exige à Igreja que seja mais interventiva, corajosa e até frontal? Dou o exemplo dos populismos — como, de resto, tem feito o Papa Leão, em várias intervenções mais recentes. Considera que estamos num período da nossa história em que a Igreja tem, de facto, de ser mais interventiva?
O ser interventivo não significa que vamos ser os juízes de tudo aquilo que se passa num país ou numa nação. Algumas pessoas gostavam que a Conferência Episcopal dissesse quais são os partidos que aprova e quais são os partidos que reprova. A Igreja não se vai meter numa coisa dessas, evidentemente. Agora, tem de apontar princípios, e os princípios fundamentais são o Evangelho, é a doutrina social da Igreja, que por vezes é esquecida - ou quando não é esquecida, não é tida muito em conta naquilo que são as nossas práticas.
Ser interventivo significa não ter de comentar cada acontecimento, cada caso, cada lei, cada reação, mas apresentar, com certeza, os princípios importantes e, em alguns casos, porventura, ter que dizer por aí não vamos, esse não é o nosso modo de ver, esse não é o nosso modo de pensar, essa não é a doutrina da Igreja a que pertencemos.
"A Igreja tem de apontar princípios, e os princípios fundamentais são o Evangelho"
É uma preocupação o crescente do populismo em Portugal?
Os populismos todos são um fenómeno da era moderna, que também existe dentro da Igreja, também existem grupos radicais na sociedade. Concretamente, a Europa e as Américas estão cheias de grupos radicais, tanto de direita como de esquerda, e na Igreja também existem grupos que nós, às vezes, dizemos que são progressistas, outros que são conservadores, mas que usam linguagens e modos de ser e de estar que não têm suporte sério e seguro no que diz respeito à possibilidade ou à capacidade de resolver os problemas.
Populismos? Nós não queremos ir por aí, não vamos por aí. Procuramos que haja pessoas sérias na política, na ação social, no trabalho e que, tanto quanto possível, possam agir de acordo com uma consciência bem formada. Se forem cristãos que tenham em conta os princípios da doutrina da Igreja e da doutrina social da Igreja e, portanto, não defendemos o intervencionismo. Não podemos querer ser juiz de todas as causas.
Mas reagir quando há um aproveitamento da religião?
Evidentemente, nem a religião se pode aproveitar das forças nem políticas nem sociais para realizar a sua missão, nem as outras forças políticas, sociais, ou sejam elas quais forem, se devem aproveitar da religião. Esse tempo já lá vai. Nós agora estamos separados, o Estado e a Igreja, a sociedade também tem a sua autonomia. Nós queremos é ser influenciadores pelo lado positivo de tudo aquilo que se vive e que se passa na sociedade.
Nessa perspetiva, o Papa Leão separou bem as águas na recente polémica com Donald Trump?
Claro. O Papa Leão não se meteu em questões políticas, mas falou das questões fundamentais que afetam a humanidade e a pessoa humana: falar contra a guerra, isso é a doutrina do Evangelho; falar da justiça e do respeito pelos outros, pelas pessoas, sociedades ou nações, é a mesma coisa; e falar contra o sofrimento de populações indefesas que são atacadas, isso é o que de mais elementar se pode pedir à voz do Papa, e que este fez de uma forma absolutamente única, quando se temia que ele fosse um pouco receoso diante das circunstâncias.
"O Papa Leão não se meteu em questões políticas, mas falou das questões fundamentais que afetam a humanidade e a pessoa humana"
E foi importante não se calar?
Foi importantíssimo. Podia pensar-se que um Papa, por ter uma determinada nacionalidade, iria ser mais complacente, e não foi. Felizmente não foi, porque é um testemunho, um exemplo não só para a Igreja, mas para todas as forças vivas.
Isto pode ter sido até um volte-face, no sentido de uma mudança na forma até como o mundo olha, não só para o Papa, mas também para Trump?
Acho que foi um enormíssimo contributo. Aliás, o Papa Francisco tinha sido muito contundente em circunstâncias muito variadas, agora nós temos mais fresca esta memória das palavras e da atitude do Papa Leão XIV, mas o Papa Francisco, e outros (anteriores papas), lembremo-nos da importância do Papa João Paulo II na transição dos regimes do leste europeu para os regimes democráticos. Tem havido vozes, neste caso esta está muito mais atual, mas é um separar das águas e o manifestar que a Igreja não faz parte de nenhuma das partes, desculpem a repetição. A Igreja procura ser uma luz que aqueles que puderem e quiserem poderão ver.
- Noticiário das 17h
- 22 jul, 2026







