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Leão XIV desafia Europa a refletir sobre a herança que deixa às futuras gerações

07 jun, 2026 - 18:25 • Olímpia Mairos , com Aura Miguel, enviada especial a Espanha

No encontro “Criar Redes com o Mundo da Cultura, da Arte, da Economia e do Desporto”, em Madrid, o Papa apelou ao diálogo, à dignidade humana e à redescoberta das raízes espirituais da Europa.

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O Papa Leão XIV lançou este domingo um forte apelo à Europa para refletir sobre o seu futuro coletivo, questionando “que herança estamos a deixar para o futuro e que tipo de comunidade estamos a construir”, durante a sua intervenção no encontro “Criar Redes com o Mundo da Cultura, da Arte, da Economia e do Desporto”, realizado na Movistar Arena, em Madrid.

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Perante representantes dos setores da cultura, arte, economia, educação e desporto, o Santo Padre sublinhou que a sociedade contemporânea dispõe de uma enorme capacidade de inovação e produção, mas alertou para o risco de perder o sentido mais profundo da sua ação.

“A nossa sociedade possui, de facto, uma extraordinária capacidade de produzir, inovar e comunicar; contudo, parece que ainda precisamos de aprender a salvaguardar a alma daquilo que geramos”, afirmou. “Corremos o risco de nos tornarmos especialistas nos meios e eficientes na produção, mas incertos quanto ao porquê, com quem e para quem produzimos”.

O Pontífice defendeu que a Igreja pretende manter um diálogo permanente com o mundo contemporâneo, sustentado no desejo humano de “bondade, beleza e verdade”, propondo caminhos que promovam “uma vida digna e o bem comum”.

Ao abordar os desafios sociais e culturais do continente europeu, Leão XIV insistiu na necessidade de preservar valores fundamentais e fomentar uma cultura de encontro. “Que valores estamos a preservar e quais estamos a deixar morrer? São questões profundas e necessárias que não podem ser ignoradas”, afirmou.

A comunicação pode “ferir ou curar”

O Papa comparou o diálogo social à arte de “tecer redes”, um processo que exige encontro, escuta, respeito e cooperação. Nesse sentido, alertou para a responsabilidade da comunicação em todas as suas formas, lembrando que “a comunicação nunca é neutra” e que as palavras e imagens podem “ferir ou curar, destruir expectativas ou abrir horizontes”.

Na sua intervenção, o Santo Padre destacou ainda a importância de colocar a dignidade humana no centro das instituições. Defendeu que as universidades não devem afastar-se da verdade nem do mundo do trabalho, que as empresas devem valorizar os trabalhadores para além dos interesses económicos e que a tecnologia deve ter em conta “os idosos, os pobres e aqueles que não têm voz”.

O Papa lançou também uma reflexão sobre a identidade europeia e as suas raízes cristãs. “Vale a pena perguntar honestamente se o mundo — e a Europa em particular — teria forjado a sua identidade sem a marca espiritual que permeou a sua história”, afirmou.

Recordando palavras de São João Paulo II, acrescentou: “Não tenhais medo! Abri de par em par as portas a Cristo!”, questionando ainda quem continua a ser excluído da sociedade “apesar das suas virtudes e capacidades”.

A situação dos mais pobres mereceu igualmente destaque no discurso. Leão XIV afirmou que a pobreza continua a ser “um grito” que interpela constantemente as sociedades, os sistemas políticos e económicos e a própria Igreja.

Num dos momentos mais pessoais da intervenção, o Papa abordou o papel do desporto na formação humana e na promoção da convivência. Destacou que o desporto ensina a respeitar os adversários, a aceitar a derrota sem ressentimento e a vencer com humildade.

Citando São João Paulo II, recordou que os atletas podem oferecer “um testemunho luminoso de coesão, de paz, de unidade”, num tempo em que a violência e o ódio ameaçam a solidariedade social.

O encontro “Criar Redes com o Mundo da Cultura, da Arte, da Economia e do Desporto”, em que participara cerca de 15 mil pessoas, reuniu diversas personalidades da sociedade civil espanhola e internacional, promovendo o diálogo entre diferentes setores sobre os desafios éticos, sociais e culturais do mundo atual.

António Banderas e uma exibição de flamenco marcam encontro

Antes do discurso do Santo Padre, António Banderas deu o seu testemunho. O ator sublinhou a relação decisiva entre a Igreja Católica e a arte, cujo impulso criativo tem no centro “aquele que transcende séculos, estilos e culturas e que foi, sem dúvida, a figura mais representada na história da arte: Jesus Cristo, o grande protagonista da história da vida”.

Banderas defendeu ainda que a arte deve ser “uma alternativa à violência, a todas as formas de violência”.

Leão XIV ouviu também outras intervenções ligadas à universidade e ao mundo do trabalho, relacionadas com a educação, as novas tecnologias, a inteligência artificial e a consolidação responsável do bem comum, bem como os testemunhos de duas atletas sobre o valor do desporto: uma nadadora paralímpica e uma campeã olímpica de badminton, que, no final da sua intervenção, ofereceu uma raquete ao Papa.

Neste encontro não faltou uma animada exibição de flamenco, cheia de “salero” e muito apreciada pelo Papa, que, no final da atuação, tirou uma fotografia com os artistas.

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