leão xiv nas canárias
“Parai. Convertei-vos!”. Papa lança apelo “a quem se aproveita do desespero” dos migrantes
12 jun, 2026 - 11:34 • Raul Santos , Aura Miguel , enviada da Renascença
"O dinheiro arrancado da vulnerabilidade dos pobres não trará paz, nem honra, nem futuro”, advertiu Leão XIV perante migrantes num centro de acolhimento em Tenerife.
O Papa defendeu esta sexta-feira, em Tenerife, que é urgente humanizar as rotas migratórias e apelou a travessias marítimas mais humanas.
“Uma consciência humana, e ainda mais uma consciência cristã, não pode permanecer indiferente diante das vítimas dos naufrágios e da falta de ajuda, diante desses cemitérios do mar. Cada vida perdida nestas rotas é um fracasso para a família humana”, disse Leão XIV, durante um encontro com organizações de integração, onde pôde conviver com muitas pessoas já integradas na realidade canária e espanhola.
Nesta organização de Tenerife, nas Canárias, o Papa sublinhou que existe também “um naufrágio silencioso após a chegada” dos migrantes, uma vez que estes se encontram sós, “sem língua, sem laços, sem trabalho, sem confiança” e expostos “àqueles que se aproveitam dessa vulnerabilidade”.
“Integrar é impedir esse segundo naufrágio. É ajudar quem chegou ferido a não ficar preso para sempre na sua dor, mas a poder voltar a levantar-se, reconhecer os seus dons e oferecê-los à comunidade”, referiu o Santo Padre
“Quero dirigir uma palavra clara a quem se aproveita do desespero; a quem organiza rotas da morte, trafica pessoas, retém documentos, explora trabalhadores, ameaça mulheres, engana famílias e transforma o sofrimento alheio num negócio. Parai. Convertei-vos!”
De seguida, Leão XIV advertiu que “o dinheiro arrancado da vulnerabilidade dos pobres não trará paz, nem honra, nem futuro”.
“Por cada vida perdida, cada família enganada, cada corpo subjugado, cada mulher ameaçada, cada trabalhador explorado, tereis de comparecer perante a justiça divina”, prosseguiu.
“Quebrai essas correntes e libertai aqueles que tendes sob o vosso domínio. Restituí o que foi roubado e reparai o que puderdes. Voltai enquanto ainda há tempo, porque a misericórdia de Deus pode alcançar até mesmo o pecador mais endurecido, mas só é possível entrar pela porta estreita da verdade, da justiça e da conversão”, rematou o Papa
“A integração exige que aprendamos a ler de outra forma"
Antes, num encontro com migrantes no centro de acolhimento “Las Raíces”, Leão XIV recordou os exemplos de São Pedro de São José Betancur e São José de Anchieta que “partiram destas terras canárias para anunciar o Evangelho na América, abrindo novos horizontes missionários”.
“Também eles foram migrantes que se dirigiram para o desconhecido, levando como principal bagagem a fé, a esperança e a caridade”, acrescentou.
“Convido-vos também a oferecer o tesouro de humanidade, sonhos e cultura que trouxestes para estas ilhas, e a estar abertos para receber tudo com o qual sois brindados. Devemos viver esta permuta também com responsabilidade, pensando no futuro das gerações vindouras, a quem queremos legar o património duma civilização do amor, na qual as migrações têm uma palavra importante a dizer”, prosseguiu o Santo Padre, numa alusão à “Magnifica Humanitas”, a encíclica onde pode ler-se que as migrações “podem tornar-se uma oportunidade de encontro e enriquecimento mútuo entre povos”.
“Ajudemo-nos uns aos outros a fazer desta travessia um lugar mais humano para todos, contribuindo com o que estiver ao alcance de cada um. Neste sentido, agradeço a colaboração por parte do Governo, das diversas instituições e de tantos homens e mulheres de boa vontade que tornam possível esta ajuda humanitária concreta, que devolve esperança e dignidade a tantas pessoas”, disse, ainda.
Lembrando que “a integração exige que aprendamos a ler de outra forma”, o Papa
Recorreu ao Evangelho que nos “educa para uma leitura mais profunda da realidade: aquela que nasce da proximidade, da paciência e de mãos capazes de socorrer, acompanhar, orientar, ensinar e abrir caminhos”.
“Integrar não significa apagar a história de quem chega, nem exigir que se deixe para trás tudo o que faz parte da sua memória. Tampouco significa criar mundos paralelos, fechados uns aos outros, onde as pessoas convivem sem se encontrarem realmente”, alertou, passando a explicar que “integrar é um caminho recíproco: quem chega aprende a habitar uma nova terra, e quem acolhe aprende a abrir a sua própria casa sem diluir a sua identidade nem fechar o coração ao encontro”.
“A vós, queridos irmãos migrantes, cabe uma parte nobre e necessária deste caminho: abrir-vos com confiança à comunidade que vos acolhe, aprender a sua língua, respeitar as suas leis, conhecer os seus costumes, participar na vida comum e oferecer com gratidão os vossos dons”, apelou Leão XIV.
Aos católicos, o Papa pediu que “a integração não se reduza a uma tarefa social, por mais necessária que seja”.
“Quem chega às nossas paróquias precisa de pão, abrigo, língua, trabalho e proteção; e deve também encontrar uma comunidade capaz de oferecer, através do testemunho da vida e da palavra, caminhos para conhecer Jesus Cristo, respeitando sempre a consciência e a liberdade de cada pessoa”, referiu o Santo Padre, rematando: “Uma Igreja que acolhe é também uma Igreja que anuncia, oferecendo Cristo sem o impor e que, ao mesmo tempo, recebe o Evangelho das mãos dos pobres.”
- Noticiário das 5h
- 17 jul, 2026







