R.D. Congo: Terror espalha-se no Norte do país e provoca êxodo de centenas de pessoas
12 jun, 2026 - 12:09 • Olímpia Mairos
Missionários denunciam ataques armados no Alto Uele, aldeias destruídas e uma crescente crise humanitária. Paróquias e famílias acolhem deslocados que fugiram apenas com a roupa que traziam vestida.
A ofensiva de grupos armados na província de Alto Uele, no Norte da República Democrática do Congo, está a provocar uma grave crise humanitária, com centenas de pessoas obrigadas a abandonar as suas casas e a procurar refúgio em missões católicas, paróquias e casas de familiares. O alerta é lançado por missionários combonianos no terreno, que descrevem um cenário de violência, medo e destruição.
Segundo o padre Claudino Gomes, missionário português que trabalha na região, a cidade de Isiro, capital provincial, foi surpreendida pela chegada massiva de deslocados vindos de dezenas de aldeias espalhadas pela floresta e pela savana.
“A cidade foi despertada pela chegada em massa de deslocados”, relata o sacerdote à Fundação AIS. Muitas destas pessoas percorreram mais de uma centena de quilómetros para escapar aos ataques dos grupos armados.
O missionário explica que numerosas povoações ficaram praticamente vazias. “Os guerrilheiros, quando chegam às aldeias desertas, queimam as casas e as lojas e, se encontram alguém que se recusou a fugir, matam-no”, denuncia.
A expansão da violência para Alto Uele apanhou a população de surpresa. Até agora, os conflitos armados concentravam-se sobretudo nas províncias de Kivu Norte e Kivu Sul, no leste do país.
“A estratégia da guerrilha põe a nu a desorganização e as fraquezas das forças do governo”, afirma o padre Claudino.
Famílias e paróquias abrem portas aos refugiados
Perante a vaga de deslocados, a população de Isiro mobilizou-se para ajudar. Muitas famílias acolheram dezenas de pessoas nas suas próprias casas, enquanto as autoridades improvisaram centros de abrigo. Ainda assim, a resposta revelou-se insuficiente para responder às necessidades crescentes.
A Igreja Católica assumiu um papel central na assistência às vítimas. Na Paróquia de Santa Ana, onde trabalha o padre Claudino Gomes, estão atualmente acolhidas mais de 100 pessoas, enquanto dezenas de famílias recebem apoio alimentar.
“Atualmente acolhemos 140 pessoas na nossa casa e apoiamos 40 famílias com arroz e feijão”, explica o missionário.
Além da distribuição de alimentos, a comunidade presta acompanhamento espiritual, assistência médica e atividades para as crianças. Os missionários também apoiam os deslocados instalados no complexo escolar de Ntumba, fornecendo alimentos, sabão e outros bens essenciais.
Aldeias destruídas e economia arrasada
A violência deixou marcas profundas nas comunidades locais. Segundo os relatos recebidos pela Fundação AIS, várias aldeias foram palco de ataques mortais e a população abandonou campos agrícolas prontos para a colheita.
“A frágil economia das famílias desmoronou-se. Os campos repletos de feijão e amendoim foram abandonados. Todo o gado foi perdido, as casas incendiadas… tudo se esfumou”, lamenta o sacerdote.
Além das perdas humanas e materiais, cresce agora o receio de uma crise alimentar de grandes proporções.
“O espectro da fome já se sente, ameaçador. Precisamos urgentemente de ajuda”, alerta o padre Claudino Gomes.
“O principal problema é como alimentar estas pessoas”
Também o padre Bienvenu Clemy, pároco em Mungbere, descreve uma situação de crescente insegurança. Apesar de a comunidade religiosa ter decidido permanecer junto dos mais vulneráveis, o missionário reconhece as enormes dificuldades para garantir alimentação a todos os deslocados.
“O principal problema é como alimentar estas pessoas”, afirma, explicando que muitos agricultores deixaram de poder trabalhar as suas terras devido aos confrontos.
O sacerdote garante que a comunidade continua a partilhar os poucos recursos disponíveis, enquanto aguarda que a situação estabilize.
“Deixaram tudo para salvar as suas vidas”
A partir de Kinshasa, o padre Marcelo Oliveira acompanha igualmente com preocupação os acontecimentos. O missionário português refere que os grupos armados continuam a espalhar o terror e que milhares de pessoas foram obrigadas a fugir.
“Quantidades imensas de pessoas abandonaram as suas próprias casas, abandonaram as aldeias para se poderem refugiar nas paróquias vizinhas. Atualmente, temos em Mungbere e em Isiro pessoas que deixaram tudo o que tinham para salvar as suas vidas”, sublinha.
Segundo o missionário, as comunidades combonianas transformaram-se em locais de refúgio para um número crescente de deslocados, enfrentando uma emergência humanitária que exige apoio urgente.
Missionários permanecem ao lado da população
Apesar das dificuldades e da escassez de recursos, os missionários garantem que continuarão a acompanhar as populações afetadas pela violência.
“Deus não abandona o seu povo, mas caminha com ele. Por isso, nós, missionários, continuamos a acompanhar o povo mesmo na perseguição, mesmo no sofrimento”, conclui o padre Marcelo Oliveira.
O apelo deixado pelos missionários é claro: a comunidade internacional não pode ignorar a situação que se vive em Alto Uele, onde milhares de pessoas enfrentam simultaneamente a ameaça da violência, da fome e do deslocamento forçado.
- Noticiário das 19h
- 19 jul, 2026





