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Papa em Lampedusa

Imigração: Portugal precisa de "falar e de agir de uma outra maneira"

04 jul, 2026 - 08:30 • Henrique Cunha

No dia em que o Papa Leão XIV se desloca a Lampedusa para confortar os migrantes e homenagear o Papa Francisco, que simbolicamente escolheu aquela ilha para realizar a primeira viagem apostólica do seu pontificado, a Obra Católica Portuguesa das Migrações insiste na denúncia do discurso anti-imigração em Portugal.

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Foi a 8 de julho de 2013 que o Papa Francisco colocou na agenda o tema dos migrantes. Este sábado, o Papa Leão XIV repete o gesto com a sua deslocação à ilha de Lampedusa, no mar Mediterrâneo, uma das principais portas de entrada marítima na Europa.

Eugénia Quaresma, diretora da Obra Católica Portuguesa das Migrações (OCPM), diz à Renascença que estamos perante uma “data memorável em que o Papa Francisco pôs na agenda a questão dos migrantes que faleciam e falecem no Mediterrâneo”, e que Leão XIV e a Igreja não querem deixar cair no esquecimento.

“Agora com o Papa Leão nós vemos não só esta continuidade, mas também o reforço desta ideia que já ficou bem evidente nas mensagens que lhe escutamos em Tenerife”, refere.

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Eugénia Quaresma sublinha que, já durante a visita a Tenerife, Leão XIV fez questão de realçar “a dignidade dos migrantes”, agradecendo “todo o bem que é feito pela população, pelas autoridades civis, pelo município, no resgate destas vítimas e no seu cuidado”.

A responsável diz que Leão XIV colocou “o dedo na ferida; a tal denúncia profética que é tão importante, não só nos países de origem, mas também nestes países de trânsito e de destino que não tratam com a dignidade estas pessoas, tendendo a penalizá-las em vez de as socorrer e de as cuidar”.

Neste contexto, a diretora da OCPM diz que a mensagem do Papa Leão se traduz "numa responsabilidade acrescida para os cristãos", cujo exemplo “deve ser mais forte do que qualquer voz anti-imigração".

“A Igreja não pode desinteressar-se destas águas, nem de qualquer lugar, onde a fome, a sede, a violência, o medo ou o exílio continuem a ferir a dignidade humana. Os discípulos de Jesus não podem considerar alheio o clamor de quem grita no meio da noite. O Papa Leão, como os outros Papas anteriores, vão nos recordando e vão atualizando o Evangelho face aos dramas de hoje. E, portanto, é uma responsabilidade acrescida para os cristãos, mas também para os homens e mulheres de boa vontade, porque há muita gente de boa vontade que está pronta a socorrer quem está ferido na sua dignidade. E, portanto, estes exemplos têm de ser mais fortes do que qualquer voz anti-imigração, do que qualquer gesto criminoso, porque é importante também realçar, e o Papa Leão recorda, que não há lucro, não se ganha com as questões do tráfico ou da exploração humana”, adianta.

Os migrantes são necessários

Sem querer comentar as recentes iniciativas legislativas relacionadas com a Lei da Nacionalidade e a Lei do Retorno, Eugénia Quaresma classifica de "fenómeno estranho" o discurso anti-imigrantes que se vai generalizando em Portugal e na Europa.

“É um fenómeno estranho porque este tipo de discurso está na Europa, está em Portugal e noutros países da Europa e também noutros locais do mundo. É um mistério porque nós precisamos das pessoas e o movimento migratório é mesmo isto. Não podemos penalizar o migrante, temos é que garantir que os direitos e deveres são salvaguardados”, sublinha.

A responsável insiste que em Portugal “precisamos de uma política melhor e de não instrumentalizar tanto os números relativamente às migrações, que estão continuamente a ser instrumentalizados, assim como não podemos continuar a partidarizar a questão”.

E "porque os migrantes são necessários", em Portugal é preciso "falar de uma outra forma e agir de uma outra maneira", conclui.

Papa em Lampedusa para dar "conforto e encorajamento"

O Papa Leão XIV visita a ilha italiana de Lampedusa a 4 de julho, numa viagem centrada no drama migratório no Mar Mediterrâneo.

De acordo com o Vaticano, a deslocação de Leão XIV pretende dar “conforto e encorajamento” às populações resgatadas e às equipas que prestam assistência humanitária na ilha.

O programa oficial prevê uma paragem no Cais Favaloro para a bênção de uma placa que intitula o local de desembarque com o nome do Papa Francisco.

A iniciativa recorda a denúncia feita pelo Papa argentino a 8 de julho de 2013, naquela que foi a primeira viagem do seu pontificado.

O diretor do centro de acolhimento de Lampedusa, Imad Dalil, explica que os sobreviventes das travessias marítimas chegam ao local “muitas vezes sem saber sequer onde estão”.

“Aqui procuramos dar a cada um a melhor assistência, especialmente de caráter psicológico, porque as histórias de viagem e de permanência na Líbia que nos contam são histórias de sofrimento”, refere o responsável da instituição, em declarações ao portal Vatican News.

A agenda do Papa Leão XIV na ilha italiana inclui uma paragem no cemitério local, a passagem pela “Porta d’Europa”, a bênção da placa no Cais Favaloro e saudação a um grupo de migrantes, antes da celebração da Missa (10h30 locais, menos uma em Lisboa).

O polo de acolhimento de Lampedusa foi criado no início dos anos 2000, tendo registado picos de sobrelotação ao longo da sua história, particularmente durante as crises de 2011, 2020 e 2023.

O centro de acolhimento de Contrada Imbriacola é gerido pela Cruz Vermelha italiana desde o dia 1 de junho de 2023, registando a passagem de mais de 182 mil pessoas.

A estrutura conta com equipas multidisciplinares compostas por mediadores culturais, integrando esforços de organizações humanitárias como a ‘Save the Children’, o ACNUR e a Organização Internacional para as Migrações (OIM).

As estatísticas oficiais indicam que a ilha italiana chegou a registar o desembarque de 12 500 pessoas num único dia no mês de setembro de 2023, altura em que o centro operou com uma média diária de 3000 migrantes.

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