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PADRE JOÃO CANIÇO

"A música é um tempo de louvor a Deus". Padre João Caniço é maestro há 60 anos

07 jul, 2026 - 13:41 • Ângela Roque

Com 83 anos de idade e 53 de padre, acabados de celebrar, o sacerdote jesuíta João Caniço assinala no próximo sábado os 60 anos ininterruptos de maestro. O concerto está marcado para as 16 horas, na igreja do colégio de S. João de Brito. Ao Coro de Santo Inácio juntam-se vozes amigas de outros coros que já dirigiu, como os da rádio Renascença, que entre os anos 80/90 atuaram pelo país inteiro.

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Ouça aqui a entrevista

Quando, a 29 de junho de 1973, foi ordenado sacerdote na Companhia de Jesus, a música já fazia parte da sua vida. João Caniço formou-se em Direção de Canto Gregoriano e Direção Coral Polifónica no Instituto Gregoriano de Lisboa. O seu percurso como padre esteve sempre ligado à comunicação, mas a música ocupou sempre um lugar importante, mesmo quando esteve em missão em Timor-Leste, Roma ou Luanda.

Durante 60 anos ininterruptos dirigiu coros, incluindo os coros da rádio Renascença (infantil, juvenil e de adultos). Nesta entrevista, recorda os "anos felizes", em que se valorizava mais a música coral. Lamenta que a própria Igreja tenha descurado esta dimensão e defende que se devia apostar mais na formação em música litúrgica.

Com 83 anos de idade, irá celebrar os 60 de maestro a dirigir um concerto, que junta um grupo de cantores antigos com o coro de Santo Inácio, do qual ainda é o responsável. O concerto está marcado para sábado, 11 de julho, às 16h00, na igreja do colégio de S. João de Brito, no Lumiar. A entrada é livre.


Está a celebrar 60 anos de maestro ininterruptos. É uma vida dedicada à música e à música litúrgica.

Sim, desde os 23 anos. Agora tenho 83.

Celebrou há pouco tempo quantos anos de sacerdócio?

53, há poucos dias.

É maestro há mais tempo...

Maestro foi quando comecei na faculdade de filosofia, em Braga. Logo no primeiro ano, como já vinha de trás com alguns estudos de música, os meus superiores acharam que eu era a pessoa indicada para dirigir o coro. Desde aí - setembro de 1963 - que fiquei sempre, até sair da faculdade e ir para Timor, onde fui professor três anos. Aí é que expandi, digamos assim.

Foi para Timor já como jesuíta?

Sim, mas não sacerdote ainda. É o estágio do magistério. Tinha terminado os estudos de filosofia na faculdade e ia começar a ensinar.

Ali tinha os seminaristas, tudo o que era de seminário. Tinham missa diária, com cânticos, e ao domingo era sempre um dia de festa. Depois tinha as cerimónias da catedral, que era o coro do seminário que assegurava. Logo ali tive até missas novas, em terras de lá, e coisas assim. Os timorenses não são muito expansivos, mas gostam muito de cantar. Quando se puxa por eles, cantam com muita força.

A música fez sempre parte deste seu percurso como jesuíta?

Sim, sim.

Foi uma forma de exercer a pastoral.

Claro. A minha forma privilegiada, diria que foi o jornalismo. Porque eu estive 24 anos com a informação dos jesuítas em Portugal. Depois trabalhei também num jornal, algum tempo. Dei algum apoio na Rádio Renascença, em coisas laterais, e em outras ações, na minha vida. Quando havia qualquer coisa que era necessário publicitar, ou lançar a notícia, não havendo outro colega mais ligado, estava sempre a ser solicitado.

E na comunicação da Igreja, também esteve ligado à Agência Ecclesia.

Sim, a Agência Eclésia foi já no fim dos cinco ou seis anos em que fui diretor do Secretariado de Comunicação Social dos Bispos. Já quase a terminar, no último ano, houve um grande boom de informação religiosa, e tinha de se transformar o boletim do Secretariado s Bispos, transformá-lo em Agência Eclésia. Que foi uma alegria! Estive seis meses a dirigir, mas depois os meus superiores deram-me trabalho em Angola, e eu tive que ir.

"Os coros da Renascença tiveram muita vitalidade. Eu não sei quantos, mas nós fizemos mil concertos, em dois ou três anos, uma coisa espantosa!

Falou há pouco da Rádio Renascença, e esteve também ligado à rádio, porque dirigiu, durante 14 anos, os vários coros que a Renascença teve.

O Coro Adulto 14 anos, e o Coro Infantil 13 anos. O coro infantil tinha duas partes: uma de crianças, que estavam ainda no ensino, da primeira à quarta classe, como diziam naquela altura. E outros que estavam nos dois ciclos. Havia 40 mais 40, eram um coro de 80 vozes.

Mais tarde, já em 1993, quase dez anos depois, formou-se o Coro Juvenil, com alguns dos que tinham estado no Coro Infantil e amigos deles. Chegaram a fazer alguns concertos, inclusivé foram a Bruxelas fazer um espetáculo!

Entretanto, quando os meus superiores (jesuítas) me mandaram para Angola, as pessoas que ficaram a dirigir os coros não aguentaram mais do que um ano ou dois, e os coros naufragaram, com imensa pena minha. Depois, quando voltei de Angola, passados quatro anos, a Direcção da Renascença não achou oportuno continuar, e lancei-me para outros lados.

Na Renascença, os colegas mais velhos, lembramo-nos perfeitamente dos ensaios, que decorriam habitualmente à noite, e o padre João tinha de parar sempre que íamos fazer os noticiários, porque entrava o som em fundo (risos).

Era uma convivência obrigatória...

Foram anos especiais?

Muito felizes para nós todos (entre 1984 /1998). Até porque os coros da Renascença tiveram muita vitalidade. Eu não sei quantos, mas nós fizemos mil concertos, em dois ou três anos, uma coisa espantosa! Quase todos os fins de semana tínhamos concertos em algum lado. Ou missas na televisão, ou missas na rádio, ou missas numa paróquia. Qualquer coisa que acontecia era muito interessante.

Uma das coisas que fizemos muito foi a gravação de discos, que vinham muito sobre mim, porque eu é que ficava a fazer as montagens com os técnicos e com os músicos, primeiro a gravar o piano, depois os violinos, depois os instrumentos de sopro, etc. E depois de tudo gravado, gravar o coro, e no fim de tudo gravar os solistas. Isto significava noitadas, até às três da manhã, no meio de dias de trabalho. Eram duas ou três semanas de gravação, que para mim eram terríveis, mas que eu fazia com muito gosto. E, naquela idade, à volta dos 40 anos, em que a energia dá para tudo e para mais alguma coisa.

Estes 60 anos, como maestro, vão ser comemorados de uma forma especial. O que é que está previsto?

Um concerto me que eu juntei - porque se ofereceram, foi ideia de muitos deles - cantores antigos, do Coro da Estrela, do Coro Novos Tempos, e até do coro da Renascença. De todos os coros que eu fui tendo, vieram pessoas voluntárias cantar idades diferentes.

Tenho pena, porque há uns 10 que tiveram de desistir, porque não aguentaram os dois meses de ensaios - uma vez por semana no primeiro mês, e depois duas vezes por semana no segundo. Não aguentaram e não vão estar presentes. Mas, os que vão estar, um grupo de 30, 32, é muito bom o ensaio geral.

Portanto, é um concerto que vai reunir elementos de vários coros que dirigiu?

De vários coros. Do coro que tenho atualmente, o Coro de Santo Inácio, que são 18 pessoas, e outros tantos, ou ainda mais, de antigos cantores.

Vamos, sobretudo, fazer a oratória Jefté, de Giácomo Caríssimi (para coro de seis vozes, quatro solistas e órgão). É uma obra que escolhemos, que eu só tenho visto executada pelo Coro Gulbenkian. É uma espécie de arrojo fazer uma coisa destas, mas felizmente temos feito já o ensaio geral com o órgão e com os solistas e, graças a Deus, tem ação! Tenho confiança de que vai sair bem, e os cantores estão entusiasmados, isso é muito bom!

Onde é que vai decorrer o concerto?

Vai ser na Igreja do Colégio de São João de Brito, no Lumiar (Lisboa), com o órgão da Igreja, que é muito bom, e com o organista António Duarte, o organista da Sé, de grande renome; com solistas orientados pela Ana Paula Russo, uma cantora de nomeada (na música clássica), que com muito gosto e com muita amizade se ofereceu para escolher os solistas e os orientar. Será um concerto aberto a toda a gente.

Tenho muito gosto nesta obra, porque Giácomo Caríssimi é um grande mestre, foi o maior músico da Europa, na sua altura, teve alunos como Antoine Charpentier. Trabalhou no Colégio Germânico dos Jesuítas - para as pessoas que conhecem Roma: a Igreja de Santo Apolinário, que fica bastante central, era a Igreja do Colégio Germânico, e foi aí que ele fez as obras todas dele, que são a transição da Idade Média para o Barroco, onde está obra já se insere. É uma das suas obras mais célebres.

"(Hoje) entra pelos olhos dentro, o esforço que as pessoas fazem, mas o pouco que conseguem nos coros que há atualmente nas paróquias, comparando com há 20 ou 30 anos"

Cantar é uma forma especial de rezar?

É evidente, não fosse o canto sempre na igreja o elemento preferido do grande louvor.

Eu estudei seis anos de canto gregoriano. Nos tempos de hoje, as pessoas nem querem imaginar, mas graças a Deus estudei desde toda a história, à minúcia da paleografia , como é que se escrevia nos manuscritos (medievais), como é que se interpretam os grupos melódicos, etc. E depois, a direção de Canto Gregoriano, que tem uma especialidade própria. E ao fim de seis anos fiz o exame de direção, maestro de Canto Gregoriano.

Depois, quando já me estabeleci em Lisboa, quando estudava Teologia, tudo o que tinha aprendido de direção polifónica veio para o Instituto, que agora é o Instituto Gregoriano, e estudei os três anos de Direção Polifónica, Direção de Coro, e um pouco de composição clássica também.

A partir daí, a minha vida não dava para mais, porque fui para Timor, e outros lados...

Teve de responder a outras missões.

Nunca me podia sentar a estudar semanalmente música num sítio em que me pudessem ensinar, porque também não é em todos os sítios que há escolas superiores de música. E a vida também era muito ativa, não dava para estar a partir muita coisa.

Mas continuou como maestro seis décadas.

Sempre.

É um marco. Devia dar-se mais atenção à música litúrgica? Era importante haver mais formação?

Essa pergunta eu não devia responder, porque é tão claro! É tão triste onde descemos atualmente, entra pelos olhos dentro, o esforço que as pessoas fazem, mas o pouco que conseguem nos coros que há atualmente nas paróquias, comparando com há 20 ou 30 anos.

Acha que se regrediu?

Regrediu-se muito por culpa da própria igreja, por culpa dos superiores dos seminários, por culpa dos bispos. Porque o Papa São João Paulo II, por exemplo, no tempo dele, ainda escreveu coisas muito sérias para que esta decadência não avançasse.

Hoje em dia faz-se um esforço mínimo nos seminários, mas não é nada do que se devia fazer. Eu falo assim claramente porque sinto que é uma pena o que existe. Honra seja f eita ao Santuário de Fátima, que faz um bom trabalho, e honra seja feita a algumas dioceses, como Braga, Porto, alguma diocese do interior.

Mesmo a nossa rádio, as nossas televisões que transmitem as missas, não estão a dar um exemplo. Merecem parabéns todos os que atuam, mas quem quiser fazer um exame crítico, vai notar que o que eles fazem é muito digno de louvor, mas - não por culpa deles, evidente, é a estrutura, é o mundo em que vivemos - o que fazem é muito pouco em relação ao que se fazia há poucos anos atrás, e aquilo que a Igreja está a mandar.

Devia haver mais formação (em música litúrgica), a começar pelos próprios sacerdotes?

Por aqueles que são responsáveis pela pastoral. Hoje em dia há maestros nas igrejas que nem têm fé. Há uma boa vontade muito grande da parte desses maestros, talvez porque ganham dinheiro, coisa que antigamente nós não ganhávamos, nunca. Mas, também não é por aí que me bato, acho que devem ganhar quando é justo que ganhem. Mas, não têm formação... têm uma formação de boa vontade, talvez, mas não têm uma formação de fé profunda que os leva a cantar o som da Igreja.

Isso faz diferença na forma como se interpreta?

Faz uma diferença muito grande. Porque uma coisa é um maestro que vem ali fazer aquelas horas porque lhe pagam, ou coisa parecida, outra coisa é aquela pessoa que de manhã até à noite, em toda a sua vida, se dedica de alma e coração a um serviço que para ela é um tempo de oração, é um tempo de louvor a Deus, é um tempo de união com Deus, é um tempo da sua vida espiritual muito importante. Isso é tudo.

Melhorar as Eucaristias desta forma também ajudaria, eventualmente, a atrair mais as pessoas?

Evidente. Sei que estamos a precisar de ter uma solução e precisar de fazer um caminho, mas eu não sei dar a solução. Agora, com 83 anos, podem-me pedir o que eu posso fazer de boa vontade, porque graças a Deus ainda tenho um coro, e ainda continuo a cantar com frequência.

O Coro de Santo Inácio. A música continua a fazer parte da sua vida diariamente?

Sem dúvida. Não é só para agora, porque o Coro de Santo Inácio tem uma missa por mês numa igreja, e uma vez por mês, às vezes duas, canta em lares de terceira idade que nos convidam, a que nós nos propomos a cantar, a animar um serão, geralmente sempre àquela hora a seguir à sexta e antes do lanche, entre as três e meia/quatro e meia, ou entre as quatro e as cinco, conforme os tempos do ano, e que é uma hora que é muito prática para eles. Às vezes, ao domingo ou sábado, quando têm os familiares a visitar também aproveitam este tempo de convívio.

Padre João Caniço, muito obrigada por ter vindo à Renascença e muitos parabéns por estes 60 anos como maestro e 53 como sacerdote.

Muito obrigada.

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