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Cartas da Natureza. As respostas escondidas na correspondência do Jardim Botânico de Coimbra

17 dez, 2020 - 10:22 • Joana Gonçalves

Manuscritos dos séculos XIX e XX abrem portas a respostas escondidas no passado e a perguntas que podem guiar o futuro da investigação botânica em Portugal e além fronteiras.

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Doze de outubro de 1920. Erich Behnick, jardineiro-chefe do jardim botânico de Heidelberg, na Alemanha, pede “a amabilidade do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra de enviar sementes de Drosophyllum lusitanicum”, numa carta dirigida à instituição.

A planta carnívora, vulgarmente conhecida como pinheiro-baboso ou pinheiro-orvalhado, exclusiva da Península Ibérica e de Marrocos, desapareceu da coleção do jardim alemão, durante a primeira Grande Guerra. Sem sementes, o cultivo é tarefa impossível e a planta, de pétalas amarelas e caule revestido de pequenos grãos que se assemelham a gotas de orvalho, não voltará a crescer no jardim.

“É uma planta muito querida entre os colecionadores de plantas carnívoras”, explica, em entrevista à Renascença, António Carmo Gouveia, investigador no Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra (UC). “As plantas carnívoras são aquelas que mais interesse despertam nas pessoas, sobretudo nas crianças, por comerem insetos e apresentarem alguma mobilidade”, acrescenta.

A carta de Behnick foi enviada há precisamente 100 anos e é apenas uma de milhares de correspondências recebidas no Jardim Botânico da UC, entre 1870 e 1928. A maioria dirigidas a Júlio Henriques, botânico português, que durante 45 anos assumiu a direção da instituição.

Três anos antes, a 22 de setembro de 1917, o Jardim Botânico Real de Kew, em Inglaterra, informava que as begonia baccata, de São Tomé e Príncipe, “já floriram”, em agosto do ano anterior, e “estão de novo em flôr”. “A planta foi cultivada com as sementes que gentilmente nos enviaram”, lê-se na mesma carta.

Os manuscritos, também disponíveis na biblioteca digital de botânica da Universidade de Coimbra, foram partilhados, em 2019, na Zooniverse, a maior plataforma internacional de ciência cidadã. Através do projeto “Cartas da Natureza'', coordenado por António Gouveia, os cidadãos são convidados a participar na transcrição destes documentos.

A correspondência desempenhou um papel “absolutamente fundamental”, até ao século XX, para o avanço da ciência e partilha de conhecimento. Decifrar pormenores históricos de variadas espécies de plantas, como os seus locais de origem, e conhecer os cientistas que as estudaram é o grande objetivo desta iniciativa, realizada no âmbito da Cátedra UNESCO em Biodiversidade e Conservação para o Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Coimbra.

"A Universidade de Coimbra, que tem centenas de anos, foi registando a sua atividade científica e o desenvolvimento da botânica nestas cartas. E, por isso, elas são um manancial importantíssimo de informação, que nos pode dar desde nomes de espécies, científicos e vulgares, à sua localização geográfica”, defende o coordenador do projeto.

Da encomenda d’el rei D. Luís aos pedidos de curiosos

O processo de disponibilização destes manuscritos numa plataforma digital, de acesso livre, não começou em 2019. “Estamos a falar de alguns anos”, lembra o ex-diretor do Jardim Botânico.

“O passo que demorou mais tempo foi a organização e catalogação desse acervo. Esta questão dos arquivos científicos não é simples. Muitas vezes eram cartas pessoais dirigidas a alguns investigadores ou a professores”, conta. Com felicidade e com tristeza, é, também, possível acompanhar nestes documentos o nascimento de filhos e a morte de parentes.

São mais de 50 anos de troca de correspondência, disponibilizada no projeto “Cartas da Natureza”. De postais a cartas de visita, os correspondentes, nacionais e estrangeiros, académicos e entusiastas, superam um milhar.

Ao Jardim Botânico da Universidade de Coimbra chegaram centenas de cartas com as mais variadas intenções. Desde pedidos de esclarecimento de curiosos, que se cruzaram com certa planta sobre a qual querem obter mais informação, a solicitações de monarcas, como a que chegou ao jardim a 12 de Março de 1876, escrita por José Maria da Cunha.

"El rei o Senhor D. Luís tem muito empenho em obter um exemplar de cada uma das plantas aquaticas mencionadas no papel incluso (...) Se tambem poder dispensar algumas Orchydias - El rei aceita, do milhor grado possivel, as que se poderem ceder (...)", lê-se no documento.

Mas se o processo de digitalização foi demorado, o mesmo não se pode dizer da transcrição dos manuscritos, realizada por centenas de voluntários. “Foi surpreendente. As primeiras cartas que desapareceram, no decurso de algumas horas ou alguns dias, foram aquelas escritas em inglês, alemão ou francês. As cartas portuguesas demoraram um bocadinho mais, mas na realidade o primeiro grupo de cartas que submetemos - mais de mil - já está praticamente completo”, conta António Carmo Gouveia.

O ex-diretor do Parque da Fundação de Serralves reconhece a importância estratégica de envolver os cidadãos no processo científico, uma aposta cada vez mais presente por todo o mundo e especialmente notória na Europa. “Esta questão da ciência "para" e "com" a sociedade é cada vez mais importante”, defende o investigador.

Para o doutorado em ecologia, a vontade expressa pelos cidadãos em participar no processo científico, aliada ao livre acesso destes documentos, "foi o casamento perfeito”, que ditou o sucesso do único projeto português presente na Zooniverse.

“Ao trabalhar neste contexto de ciência cidadã, onde temos as pessoas connosco, a ajudar-nos na disponibilização desta informação, estamos também a sensibilizar as pessoas para o conhecimento científico, para o trabalho científico, para todas estas questões ligadas à ciência”, explica.

Até ao momento, o projeto conta com a participação de mais de 900 voluntários que transcreveram 1.007 manuscritos, “muitos deles com letras terríveis, escritas um pouco à pressa, e, por vezes, de acordo com alguns preceitos estéticos e formais da própria época”.

Respostas do passado ditam perguntas para o futuro

Escondidas no Arquivo de Botânica da Universidade de Coimbra, à guarda do Departamento de Ciências da Vida, estão respostas a importantes perguntas sobre a história da biodiversidade do território nacional, mas também de muitos outros países com relações históricas com Portugal, principalmente da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Durante mais de quatro décadas, Júlio Henriques, botânico português que dirigiu o Jardim Botânico da UC, organizou expedições às ex-colónias para estudar, também, a flora destes territórios, com especial interesse em São Tomé e Príncipe. Deste seu trabalho resultou a primeira monografia florística do país.

“Muita da informação que consta nestas cartas ou nas coleções, que dizem respeito à diversidade biológica de outros países, no caso colheitas feitas durante o período colonial, dizem respeito a países que hoje se encontram congregados na CPLP”, adianta António Carmo Gouveia.

Esta informação é especialmente importante para estes países, porque estão ainda a estabelecer os seus planos de conservação de espécies. “É importante que nós trabalhemos nessa disponibilização. A riqueza destes acervos não pode ficar fechada em gavetas e armários de universidades. Todos os países que participaram nestes processos coloniais têm, também, o dever de disponibilizar esta informação”, defende o investigador.

Esta informação, que começa agora a ser descoberta, pode guiar o futuro da investigação botânica em Portugal e além fronteiras. “Se uma determinada planta encontrada em Sintra, por exemplo, por um naturalista no final do séc. XIX hoje já lá não existe, importa perceber o que lhe aconteceu. O habitat onde ela existia está ameaçado, foi destruído? Culpa das alterações climáticas?”, questiona o coordenador deste projeto.

Enquanto se procuram explicações para estes fenómenos, o grupo de investigação d’As Cartas da Natureza prepara-se para partilhar, “em breve”, um novo conjunto de cartas. Uma vez mais, o convite para a transcrição destes documentos históricos fica lançado, a todos quantos queiram participar. O projeto está disponível neste endereço.


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