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Carta de Porto Santo propõe repensar a democratização da cultura

28 abr, 2021 - 06:50 • Maria João Costa

Termina esta quarta-feira, em Porto Santo, a conferência internacional organizada pelo Plano Nacional das Artes, no âmbito da presidência portuguesa do Conselho de União Europeia. Do encontro sairá um documento com princípios que repensa os paradigmas da cultura.

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Se há coisa que a pandemia e os confinamentos trouxeram foi maiores barreiras no acesso à cultura. Isso está a ser repensado na conferência internacional que hoje termina na Madeira. Durante dois dias, diversos especialistas participaram num encontro promovido pelo Plano Nacional das Artes, no âmbito da presidência portuguesa do Conselho da União Europeia. Hoje assinam a “Carta de Porto Santo”.

O documento que sai desta conferência que tem como subtítulo “Da democratização à democracia cultural: repensar instituições e práticas”, quer “repensar o que têm sido os modelos e paradigmas que têm orientado as políticas culturais e as relações entre as instituições culturais e os públicos”, explica à Renascença Paulo Pires do Vale – o comissário do Plano Nacional das Artes.

Para este responsável, “durante o confinamento houve a consciência da importância do trabalho dos artistas”, mas os tempos da pandemia trouxeram também o “erguer de barreiras” no acesso à cultura.

“Confinados percebemos como eram importantes os filmes, os livros, a música, o acesso que antes tínhamos e que de repente deixamos de ter às experiências culturais. Se esse reconhecimento, a pandemia, também o trouxe, fugindo da ideia elitista da cultura, na verdade, a pandemia trouxe também o erguer de muitas barreiras entre instituições e pessoas”, aponta Pires do Vale.

“As instituições tiveram de impor barreira no acesso e fecharam-se em si. O que é fundamental é quebrar essas barreiras. O Plano Nacional das Artes que promove esta conferência tem como propósito quebrar essas barreiras entre as escolas, as instituições culturais e a comunidade e sentimos que a pandemia também levantava esses muros”.

Repensar o acesso à cultura no digital

“O grande objetivo desta conferência é repensar o que têm sido os modelos e paradigmas que têm orientado as políticas culturais, as relações entre as instituições culturais e os públicos”, refere Paulo Pires do Vale que aponta um novo caminho.

O comissário do Plano Nacional das Artes explica que há “outras oportunidades, por exemplo no digital”. Na opinião deste responsável “o digital não serve apenas para comunicar atividades. Isso é ainda pensar nos públicos como se eles fossem só consumidores”, indica.

“Temos de pensar nos cidadãos como produtores culturais e participantes da vida cultural”, afirma Pires do Vale que considera que as instituições têm cada vez mais de olhar para os cidadãos, não como meros consumidores de cultura, mas sim, como “colaboradores”.

A ideia “implica que o digital também seja repensado como meio”, diz Pires do Vale. Este novo paradigma para a cultura defende que o digital seja mais do que um mero “meio de divulgar informação, ou as propostas de uma determinada instituição”, deve ser antes “um meio de escuta dos públicos, de receção da crítica, propostas, comentários desses públicos”, explica o comissário do Plano Nacional das Artes. “Pensar essas potencialidades do meio digital como lugar criativo, onde se pode participar democraticamente é um dos objetivos desta conferencia”, conclui o responsável

A cultura não é das elites e deve ajudar a pensar a Democracia

“Tantas vezes pensou-se que a cultura era feita só por uma elite, uma parte da sociedade”, lembra Paulo Pires do Vale. Formado em filosofia, este ensaísta sublinha que é também preciso pensar “quem faz a cultura”.

“Pensar essa reformulação quer do conceito de cultura, quer de quem a faz é fundamental para pensarmos como cada um democraticamente pode participar na vida cultural” afirma Paulo Pires do Vale.

A Carta de Porto Santo que sairá da conferência “apresenta um conjunto de princípios que fazem repensar esse princípio de democratização que durante muito tempo utilizamos, essa noção de que havia uma hierarquia cultural que estigmatizava as expressões culturais que eram desvalorizadas”, indica Pires do Vale. O comissário fala no “repensar da participação de cada um, com a sua voz e a sua capacidade para a cultura de todos”.

Recordando algumas das intervenções feitas durante os dois dias de conferência, Pires do Vale diz: “Se continuarmos a programar, a pensar políticas culturais e a cultura do ponto de vista da desigualdade, essa desigualdade vai continuar. Temos de partir da noção da igualdade”.

“Num tempo em que a Democracia está a ser posta em causa, e os perigos se voltam a levantar, não podemos deixar a Democracia só para o setor da política e muito menos para o ato eleitoral”, afirma Paulo Pires do Vale. O comissário do Plano Nacional das Artes alerta que “todos os setores sociais têm de pensar como podem ser democráticos e como respeitam as necessidades dos cidadãos”, entre esses setores, conclui Pires do Vale está “o setor cultural”.

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