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Entrevista

Leila Slimani quer "muito escrever sobre Portugal"

20 nov, 2024 - 23:45 • Maria João Costa

A viver há quatro anos em Lisboa, a autora franco-marroquina vai lançar, em breve, o terceiro volume da trilogia sobre a sua família. Em relação a Portugal, o país a que chama “fim do mundo da Europa”, diz ser-lhe muito familiar por encontrar semelhanças com Marrocos. A Prémio Goncourt, que precisa de silêncio para escrever, diz que “ler deve ser perigoso”.

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Leila Slimani quer "muito escrever sobre Portugal"

Apesar de viver há quatro anos em Portugal, Leila Slimani mostra alguma timidez em falar português. Depois de dizer “boa noite” e “obrigada” na língua de Pessoa, respondeu a esta entrevista na abertura do Festival Utopia, em Braga, em francês.

É na sua língua mãe que nos diz que poderá vir a colocar Portugal num dos seus próximos livros. “Quero muito escrever sobre Portugal. Mas a literatura leva tempo”, diz, explicando que “para escrever algo bonito” é preciso “deixá-lo amadurecer e a marinar dentro de nós. Nunca vale a pena precipitarmo-nos”.

Há muitas coisas bonitas para contar sobre Portugal. Até o clima em Portugal é extraordinário! É um país frio, onde o sol é quente, mas é um país frio! O Inverno em Portugal é muito interessante, porque o frio traz-nos para dentro de casa e ao mesmo tempo queremos estar ao sol. É como se os ossos derretessem de repente”.

Mas Leila Slimani não quer fazer um boletim meteorológico português. Para falar da “beleza” da luz portuguesa ou da “temperatura que muda durante o dia”, que compara com os portugueses com essa “mistura de frio e calor” de que gosta, diz que “levará algum tempo para transformar em poesia”.

Portugal assemelha-se a Marrocos no olhar de Leila Slimani

Quando se senta para escrever, Leila Smilani precisa de silêncio. Não tem telefone, internet ou redes sociais. Talvez por isso veio viver para aquele país a que chama “fim do mundo”, mas onde encontrou um sentido “muito familiar”

Não sei se os portugueses se apercebem o quanto Portugal, e muitas cidades portuguesas, se assemelham a Marrocos”, diz a escritora, contando que também considera que os “portugueses parecem-se muito com marroquinos”.

“A minha mãe, todas as vezes que vem, diz: “mas não é possível?! Todos os portugueses são árabes?!”. Eu digo que não, que não deve dizer isso, que eles não vão ficar muito contentes!”, diz arrancando uma gargalhada do público.

“A língua tem muitas palavras que vêm do árabe, as paisagens, a luz. Então, é muito emocionante para mim, porque é a Europa, mas, ao mesmo tempo, é uma Europa muito especial, porque Portugal é o fim do mundo da Europa. Já estamos em África! É também uma espécie de fim do mundo, de fim da terra”, sublinha.

Foi em Lisboa, onde vai a uma esplanada beber limonada e olhar o mar recordando quando em Tanger olhava o Oceano Atlântico, que Leila Slimani encontrou “uma qualidade de vida muito bonita”.

“As pessoas são muito cordiais, muito cívicas. Há muita educação nas relações humanas e muita delicadeza. Não são pessoas que gritem ou que se zanguem à toa. Não há brutalidade”, refere a autora de “Canção Doce” (ed. Alfaguara).

Mas a escritora voltou a arrancar a gargalhada do público que encheu o Espaço Vita, em Braga quando contou as suas peripécias quando chegou ao nosso país.

“No início, não percebia português. Tinha a impressão de que os portugueses eram sempre muito calmos e que falavam sempre de forma gentil. Um dia, comecei a entender português e percebi que, de facto, às vezes, as pessoas insultam-se, mas insultam-se com muita calma! Dizem coisas horríveis umas às outras, mas sem gritar! Eu vi duas pessoas no trânsito a insultarem-se, mas como se tivessem a dizer bom dia! Foi realmente muito surpreendente”, relatou.

Leila, ou um avatar seu, é protagonista do próximo livro

Enquanto está a marinar ideias sobre Portugal para um livro, Leila Slimani lançará em breve o terceiro volume da trilogia sobre a sua família. Depois de ter dedicado “O País dos Outros” (ed Alfaguara) à sua avó e “Vejam como Dançamos” à sua mãe, agora escreverá sobre si.

O livro será lançado em França em janeiro. diz a autora, que explica: “Criei uma espécie de ‘avatar’, um duplo meu. Não sou eu, mas permite-me dizer coisas que se podem ter passado comigo e que eu senti”.

Mas os livros são mais do que a história da família. “A trilogia conta a história de três gerações de mulheres, a minha avó, a minha mãe e eu, e conta a história de como as pessoas mudam ao longo da vida, mas os países também mudam”, lembra-nos.

“O Marrocos a que Mathilde chegou, não é o mesmo Marrocos em que nasceu a personagem que se inspira em mim. Temos de ser recetivos a essa transformação. E foi muito bonito escrever isso, e perceber até que ponto o mundo está a mudar e de uma forma muito mais rápida do que imaginamos.”

Mas há coisas onde há mudanças ainda por fazer e a condição da mulher continua a ser um tema que interessa à autora. Em “O País dos Outros”, Leila Slimani pega nos gestos diários das mulheres para mostrar as desigualdades que subsistem.

Através desses gestos quotidianos, vemos a extensão da desigualdade, da solidão, da dificuldade da vida de uma mulher que tem uma vida doméstica e uma vida onde tudo se repete todos os dias.”

“Todos os dias vamos às compras, colocamos as coisas no frigorifico, esvaziamos o frigorifico, vamos outra vez às compras, enchemos o frigorifico, esvaziamos o frigorifico, fazemos comida, a comida desaparece, depois começa tudo de novo”, diz a autora num ritmo acelerado.

“Ninguém diz 'obrigada', ninguém te dá uma medalha no final para te dizer que trabalhaste muito bem”, critica Leila Slimani. “Às vezes, penso na minha avó que tinha muitos filhos, muitas pessoas em casa. Fez todos os dias, durante 50 anos da sua vida, três refeições diárias para dez pessoas.”

Esta condição foi inspiradora para a sua escrita e com ela quis fazer justiça e dar a medalha que acha que a avó “merece”. Mas a autora admite já pertencer a outra geração.

Escreveu, de resto, num texto que aos 35 anos matou a Branca de Neve. Agora, com 43 perguntamos-lhe que liberdade sente. “Eu estrangulei a Branca de Neve e a Bela Adormecida, e aquela mulherzinha que é sempre simpática, que está sempre a sorrir e sempre a pensar nos outros antes dela”, explica-nos.

“Assumo uma forma de egoísmo, mas, ao mesmo tempo, não poderia fazer o trabalho que faço se não fosse um pouco egoísta. Porque eu preciso ter tempo para mim. Preciso de escrever. Preciso de ser capaz de ir em viagem quando preciso. Tenho a sorte de estar rodeada de pessoas que entendem isso.”

Mas nascida em Marrocos, tendo vivido em França, Leila Slimani identifica outro problema que também gosta de trazer para as páginas dos seus livros que é a discriminação.

“O problema é que eu venho de dois países onde, às vezes, tive a sensação de que não gostavam de mim. Tive a impressão de que era Marrocos que não gostava de mim, porque eu era demasiado ocidental, demasiado livre, porque vinha de uma família demasiado marginal e também tinha a impressão de que França não me amava, porque eu era árabe e muçulmana.”

A escritora de “O Perfume das Flores à Noite” (Ed. Alfaguara) confessa que ama os seus países. “São eles que, às vezes, não gostam de mim. E foi por isso, por vezes, que tive a sensação de que não pertencia”.

A leitura deve ser um lugar perigoso

Agora que chama casa a Lisboa, Leila Smilani diz que escreve sem dó nem piedade dos seus leitores. Nos dias que correm, sente mesmo que o exercício da leitura deve ser exigente.

Não quero que meu leitor se sinta confortável e leia o livro como entretenimento. Quero provocá-lo, quero deixá-lo desconfortável. Quero que ele seja ativo. É isso que eu gosto, como leitora, e é isso que eu gosto na literatura”, afirma.

“Vivemos numa sociedade, e numa época, em que somos muitas vezes passivos. Estamos sempre a olhar para algo, a receber informações, imagens e sons. A leitura é algo extraordinário, é totalmente diferente. Eu gosto disso, da ideia de que a leitura deve ser um lugar perigoso. Ler deve ser perigoso!”, sublinha.

E escrever um romance? Leila Slimani diz que é um trabalho de filigrana. “Acho que ser-se romancista é ser-se um verdadeiro artesão e acho que o trabalho do romancista aproxima-se muito da magia, porque é muito inconsciente. Não me sento à mesa com uma ideia, sabendo de onde vou começar e onde vou acabar”, indica.

“Não é algo controlado, ou algo completamente consciente. Há uma frase que diz que escrever é como conduzir à noite. Não se vê além da luz dos faróis, mas, ao mesmo tempo, sabes que podes conduzir assim por muito tempo”, explica a autora, que compara o processo de escrita à luz ao fundo do túnel.

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