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Exposição

As feridas de Adriana Varejão em diálogo com a obra de Paula Rego no CAM

10 abr, 2025 - 16:44 • Maria João Costa

“Paula Rego e Adriana Varejão: Entre os vossos dentes” abre sexta-feira ao público na Gulbenkian. A exposição reúne 80 obras das artistas que trabalharam durante 30 anos com um oceano pelo meio, mas onde as pontes entre as suas obras são múltiplas

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“Tentámos fazer uma exposição forte e política”, declara Adriana Varejão. A artista brasileira apresenta a sua terceira exposição em Portugal, mas desta vez em diálogo com a obra de Paula Rego.

No Centro de Arte Moderna (CAM), na Fundação Calouste Gulbenkian, abre sexta-feira ao público “Paula Rego e Adriana Varejão: Entre os vossos dentes”, uma mostra que reúne 80 obras das duas artistas que, embora pertençam a gerações diferentes, têm muito em comum nas temáticas que abordam.

“Há uma sinergia entre o sentido das obras”, explica na apresentação à imprensa, Adriana Varejão. Segundo a artista, a ideia para esta exposição no CAM surgiu ainda Paula Rego estava viva, quando em 2021 fizeram uma primeira exposição conjunta no Rio de Janeiro, Brasil.

Em Lisboa, nesta exposição com curadoria de Helena Freitas, Victor Gorgulho e Adriana Varejão surgem cruzados os trabalhos das duas criadoras. “Ambas cresceram em ditadura e em culturas patriarcais fortemente marcadas pelo catolicismo”, explicou na apresentação o diretor do CAM.

Benjamin Weill indicou que “ambas refletem sobre a complexidade das relações humanas e da violência”. Numa exposição com cenografia de Daniela Thomas, a mostra é distribuída por 13 grandes caixas onde, por temáticas, são colocadas em diálogo as obras de Varejão e Rego.

No painel de abertura da exposição surge um aviso ao público que adverte: “Informamos que alguns conteúdos podem não ser adequados para todos os visitantes”, o aviso prende-se sobretudo com temas como o abordo abordados na exposição.

Racismo, colonialismo, ditadura são outros dos temas em que os trabalhos das artistas se tocam. Adriana Varejão admite: “nunca vi uma afinidade estética entre a minha obra e a obra da Paula”. Contudo, embora se tratem de “obras bastante diferentes”, diz Varejão, “dialogam de uma maneira incrível”.

“Formamos grupos onde esses diálogos ficam muito potentes”, explica a artista sobre as diferentes caixas em que os trabalhos são agrupados. Adriana Varejão e Paula Rego trabalharam com um oceano pelo meio, mas estavam a criar, cada uma no seu continente, ao mesmo tempo.

“Apesar de sermos de gerações diferentes, muitas obras são contemporâneas”, indica a artista brasileira. “Algumas obras, em algumas salas, eu realizei antes da Paula. Nós estávamos produzindo ao mesmo tempo”.

“Existem várias coincidências, que não são coincidências”, explica Adriana Varejão aos jornalistas. “São trabalhos de curadoria muito lapidados”, diz a artista sobre as pontes de diálogo entre as obras das duas criadoras.

Nesta que se anuncia como a primeira grande exposição do CAM, depois da inauguração, só há um momento em que as obras saem das caixas idealizadas por Daniela Thomas.

Na galeria central do CAM surge em destaque o quadro “Anjo” que Paula Rego desenhou em 1998 para a série “Crime do Padre Amaro” inspirada na obra de Eça de Queirós. Ao seu lado surge o tríptico de Adriana Varejão “Parede com incisões à la Fontana” criado em 2002.

A violência está latente em alguns dos trabalhos. Em frente ao “Anjo”, peça que pertence ao acervo da Gulbenkian, está a obra “Esfolada”, um pastel de Rego que retrata uma cena psicótica de violência de género em que a figura de um Pierrot esfaqueia uma mulher.

Helena de Freitas, uma das curadoras refere que esta pintura “encarna o sentido intervencionista da obra de Rego”. Neste labirinto que é a exposição, Helena de Freitas refere que as caixas são uma espécie de “pele” que protege o que está dentro, onde estão as obras de cada uma das artistas lado-a-lado.

“Não é uma exposição em que poderia entrar qualquer obra da Paula ou qualquer obra minha”, explica Adriana Varejão. “São obras muito específicas para que esse diálogo aconteça. O CAM é um espaço muito aberto e amplo. Quisemos estabelecer essas salas, que são espaços com uma escala um pouco mais doméstica, onde existe uma certa intimidade, onde o público é convidado a entrar”.

Questionada pela Renascença, sobre o subtítulo da exposição, Adriana Varejão explica que “Entre os vossos dentes” é um verso de um poema da poetisa brasileira Hilda Hilst extraído de “Poemas aos homens do nosso tempo”.

Hilst é da mesma geração que Paula Rego, diz Varejão. “É um título de um poema que ela fez nos anos 70, num período da ditadura, falando justamente desse poder instituído por homens que trituram as vidas humanas. O poema termina nessa frase, ‘Entre os Vossos Dentes’”

A artista brasileira explica que há “ambiguidade” no título. “É um título muito forte que acho que sintetiza muito a nossa ideia da exposição, que é a Paula com um discurso contra o patriarcado, um discurso muito feminista. Essas questões do feminismo foram desembocar na questão do ‘decolonial’ que vem do questionamento do patriarcado”, explica Adriana Varejão.

A exposição pode ser visitada até dia 22 de setembro, entre as 10h e as 18h e aos sábados das 10h às 21h. Encerra à terça-feira.

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