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“Os Lusíadas” contados em 13 horas no Mosteiro dos Jerónimos

03 mai, 2025 - 09:55 • Maria João Costa

Sábado, o ator António Fonseca vai ao longo do dia recitar todos os cantos de “Os Lusíadas” no local onde Camões está sepultado. A assinalar os 500 anos do poeta, o ator promete explorar a “musicalidade” da epopeia camoniana.

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É uma verdadeira maratona. O ator António Fonseca vai durante 13 horas recitar de memória “Os Lusíadas”. Este projeto que começou há 17 anos, assinala este sábado no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, os 500 anos de Luís Vaz de Camões.

Em entrevista ao Ensaio Geral, o ator explica que cada vez que diz de cor a epopeia de Camões “é sempre diferente”.

“Há bastante tempo que não faço esta versão integral. Já não a faço há três anos. Entretanto, passou-se muita coisa, o mundo mudou e eu também mudei. A minha relação com a obra está muito mais mastigada”.

É aqui que depois de anos e anos a levar a lírica camoniana dentro de si e a memorizá-la que António Fonseca diz agora ter descoberto uma novidade. “Quando comecei a trabalhar isto para o fazer agora, comecei a perceber que a musicalidade da obra é mais interessante, se calhar, do que tudo o resto. Isso é uma novidade”.

“É a poesia, é a técnica dele, é o uso que ele faz das palavras e a maneira como ele junta as palavras”, refere o ator para quem “é evidente” que isso “não apaga a musicalidade”. “Para mim foi uma descoberta maior. A musicalidade é uma coisa que só se descobre, penso eu, depois de já ter feito tudo”, explica.

Surfar a onda de Camões

António Fonseca compara esta recitação com um mergulho na obra de Camões. “Já não interessa nada, deixo-me surfar esta onda”, diz-nos e acrescenta, “a onda não é só o sentido, não é só o que ele diz, é o artifício, porque a poesia de Camões é sobretudo um artifício, uma brincadeira”.

“É muito engraçado. Quanto mais domino ‘Os Lusíadas’, quanto mais leio e os trabalho mais percebo que é uma brincadeira muito séria e muito provocadora”. É neste texto clássico que António Fonseca diz encontrar, tal como em Shakespeare, pontes com os dias de hoje.

“Os chamados clássicos, só me interessam na medida que falam comigo hoje. E ao fazer Os Lusíadas desde há 17 anos percebo como o mundo era completamente diferente do de hoje”, explica.

“A maneira como eu reagia, sentia e lia o mundo, e os acontecimentos eram completamente diferentes” no olhar do ator. “Podem-me dizer, e é verdade, a essência é a mesma. É a vida humana, é o ser humano, é o ser histórico, é isso tudo. Mas os acontecimentos concretos, aqueles que mais nos batem no dia-a-dia, como o apagão destes dias, se calhar daqui a 10 anos já ninguém se lembra”

Na opinião de Fonseca, a interpretação que fará sábado nos Jerónimos “é completamente diferente” da que fez há 3 anos. Questionado sobre qual a parte preferida de “Os Lusíadas”, o ator admite ter dificuldade em nomear uma.

“Tenho muita dificuldade em dizer. Já me fizeram essa pergunta. Há coisas que eu adoro, e há coisas que eu não gosto muito. Não gosto muito por causa de umas razões e gosto muito por causa de outras. Mas se me perguntassem, se me apontassem uma arma, eu diria... pronto, ok, é o Canto VI, porque é só imaginação. Parece uma história, não é infantil, mas quase”.

O espetáculo “Os Lusíadas como nunca os ouviu”, criado no âmbito da programação do Teatro Nacional D. Maria II acontece ao longo do dia de sábado em três momentos. O primeiro a partir das 10 horas, depois, o segundo a partir das 15 horas e a parte final a partir das 21 horas.

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