Glaciares levarão séculos a recuperar mesmo que aquecimento global seja revertido
20 mai, 2025 - 00:33 • Lusa
O aumento das temperaturas globais indica que os limites do Acordo de Paris adotado há uma década têm uma grande probabilidade de serem ultrapassados.
Os glaciares das montanhas não vão recuperar do degelo durante séculos, mesmo que a intervenção humana consiga arrefecer o planeta, de acordo com um estudo publicado na segunda-feira na Nature Climate Change.
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A investigação, liderada pela Universidade de Bristol (Reino Unido) e pela Universidade de Innsbruck (Áustria), faz parte do "Provide", um projeto da União Europeia (UE) que estuda o impacto dos "excessos" climáticos, quando o aquecimento do planeta ultrapassar os 1,5°C antes de começar a diminuir, um período que deverá ocorrer em meados do século ou até antes.
O estudo avaliou a evolução dos glaciares num cenário de ultrapassagem severa, em que as temperaturas globais continuam a subir, atingindo os 3°C por volta dos 2150, antes de descerem para os 1,5°C por volta dos 2300 e estabilizarem.
Os resultados mostram que a situação dos glaciares seria muito pior do que num mundo onde as temperaturas estabilizassem nos 1,5°C sem o ultrapassar, uma vez que se perderiam mais 16% de massa glaciar até 2200 e mais 11% até 2500, além dos 35% que já derreteriam mesmo a 1,5°C.
Além disso, esta água derretida adicional acabaria por atingir a superfície dos glaciares, de acordo com o estudo citado pela agência Efe.
"As políticas climáticas atuais estão a colocar a Terra numa trajetória próxima dos 3°C. É claro que um mundo assim é muito pior para os glaciares do que um em que se mantém o limite de 1,5°C", explicou Fabien Maussion, professor associado da Universidade de Bristol.
O objetivo era descobrir se os glaciares podem recuperar caso o planeta volte a arrefecer: "É uma pergunta que muitas pessoas fazem, se os glaciares voltarão a crescer durante a nossa vida ou durante a vida dos nossos filhos? As nossas descobertas indicam que, infelizmente, não", alertou o investigador.
O aumento das temperaturas globais indica que os limites do Acordo de Paris adotado há uma década têm uma grande probabilidade de serem ultrapassados. Por exemplo, o ano passado foi o mais quente alguma vez registado na Terra e o primeiro ano civil a ultrapassar a marca dos 1,5°C.
A investigação utilizou um modelo pioneiro desenvolvido na Universidade de Bristol, que simula as alterações passadas e futuras em todos os glaciares do mundo --- excluindo as duas camadas de gelo polares --- e combinou-o com projeções climáticas globais feitas pela Universidade de Berna (Suíça).
"Os nossos modelos mostram que os grandes glaciares polares levariam muitos séculos, senão milénios, a recuperar de um excesso de 3°C. Para glaciares mais pequenos, como os dos Alpes, Himalaias e Andes tropicais, a recuperação não será observada nas próximas gerações, mas é possível até ao ano 2500", sublinhou Lilian Schuster, principal autora do estudo e investigadora da Universidade de Innsbruck.
A água do degelo dos glaciares nestas regiões montanhosas é vital para as comunidades a jusante, especialmente durante as estações secas. Quando os glaciares derretem, libertam temporariamente mais água, um fenómeno conhecido como "pico de água" glaciar.
"Se os glaciares voltarem a crescer, começarão a armazenar água novamente sob a forma de gelo, o que significa que menos água flui para jusante. Chamamos a este efeito "água de vale", em oposição a "água de pico"", detalhou o investigador.
Para Maussion, "ultrapassar os 1,5°C, mesmo que temporariamente, provoca a perda de glaciares durante séculos".
"O nosso estudo mostra que grande parte destes danos não pode ser simplesmente revertido, mesmo que as temperaturas regressem a níveis mais seguros mais tarde. Quanto mais adiarmos a redução das emissões, mais sobrecarregaremos as gerações futuras com alterações irreversíveis", concluiu.
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