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Entrevista

Lionel Richie. Se começasse a carreira hoje "não iria para o American Idol"

04 jun, 2025 - 11:54 • Marina Duarte , Teresa Oliveira , Samuel Valério

A menos de dois meses de atuar em Portugal, Lionel Richie foi entrevistado pela Renascença. O artista falou sobre as suas experiências em Portugal, ser músico nos dias de hoje, a música que ouve e o que o levou a escrever "Hello".

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"Ando à procura do amor todos os dias." | Entrevista a Lionel Richie (com Teresa Oliveira)
"Ando à procura do amor todos os dias." | Entrevista a Lionel Richie (com Teresa Oliveira)

Génio musical e autor de músicas icónicas como “Hello” ou “All Night Long”, Lionel Richie vem a Portugal apresentar a digressão “Say Hello To The Hits”, com o apoio da Renascença.

Dia 29 de julho, a Meo Arena recebe o cantor que afirma já estar em digressão desde 1971, época em que atuava com a sua banda “The Commodores”. Uma carreira com mais de 50 anos sem sinais de querer abrandar.

Um eterno romântico que se alimenta da energia do público, Lionel Richie é um artista que se entusiasma ao saber que vai estar perto dos fãs para poder vê-los a atuar e para ver o amor no ar.

Em entrevista à animadora Teresa Oliveira, Lionel confessa não conhecer a música portuguesa, mas, no que toca à comida a conversa já foi diferente.


A 29 de julho, Lionel Richie vai atuar na MEO Arena e é com muito entusiasmo que digo “Hello” a si, Lionel Richie. É uma honra tê-lo connosco, mesmo que seja por chamada Zoom. E antes de começarmos, gostaria de saber: como é que está?

Sabe como são os preparativos para uma digressão. Alguém me perguntou “Quanto tempo é que a tua digressão vai durar?” Eu respondi: "Eu estou em digressão desde ‘73, ‘71", portanto, 1971 foi quando começou e eu ainda continuo, e ainda me divirto tanto a fazê-lo.

Portanto, sim, Lisboa é simplesmente um destino a que eu mal posso esperar para chegar, porque não é um daqueles sítios que se visita apenas de passagem. É preciso ir mesmo a Lisboa. E por isso estou ansioso para ver o público. E claro, os gritos e cânticos. Cada vez que canto acho que vai ser uma canção de amor calma. E acaba por ser um cântico de futebol, o mais alto possível. Estou muito ansioso para ver toda a gente.

Já alguém não lhe cantou “Hello” nos últimos 40 anos? Ouve sequer um “Hello” normal?

Já tive pessoas a chegarem-se a mim e dizerem “Hello”, e logo a seguir “Ah, desculpe, não foi isso que quis dizer...”. É uma daquelas saudações em que eles não querem ser pirosos, mas é de facto a saudação mais comum. Portanto, quando dizem “Hello” e depois “Ó, Deus, porque é que eu disse aquilo?”… Mas eu adoro! Eu amo, e escrevi a música precisamente para isso, porque é uma frase comum, que toda a gente diz e é boa para quebrar o gelo, claro.

Mas mais do que isso, eu era o miúdo tímido e, por isso, escrevi a música a pensar na rapariga a quem queria dizer “Hello” a passar por mim, porque eu não tinha coragem de dizer: “Yo, sou eu, o Lionel.” Eu diria “Hello, is it me you’re looking for?” e ela passava. e eu nem diria nada. Mas depois percebi que há uns quantos biliões de pessoas no mundo que são igualmente tímidas, e é isso que a torna tão bonita

Todos o conhecemos, mas há coisas que não sabemos. Por isso, vamos começar com uma coisa que me chamou muito a atenção. Todos vimos “The Greatest Night in Pop” (documentário sobre a música “We are the world”), e vimos como alguns artistas, como Prince, por exemplo, escolhem não aparecer porque há uma certa mística ligada ao estar distante ou ser misterioso, especialmente quando se é uma lenda. Mas esse nunca foi o seu estilo. O Lionel é aberto, acessível. De talk shows ao American Idol, está constantemente em contacto com o público, foi uma decisão consciente, ou sempre foi natural?

Eu digo sempre aos meus concorrentes e nas minhas entrevistas que há duas coisas às quais têm de se habituar: antes de se querer ser famoso, tem de se gostar de pessoas. Se não gostares de pessoas, vais ser incomodado para o resto da tua vida, se alcançares o sucesso.
Eu adoro pessoas. Onde é que vais buscar as tuas histórias? Onde é que eu vou buscar as minhas histórias? Às pessoas vêm ter comigo e dizem-me “Lionel, não vais acreditar!”, “A minha mulher e eu, Lionel, não vais acreditar nisto”, “Divorciei-me, Lionel, não vais acreditar nisto”. E começam a contar-me histórias de vida. As partes mais íntimas das suas vidas.

Em segundo lugar, e a parte que eu gosto mais: se não gostas de andar em digressão, que implica sair e conhecer o mundo... Eu vou a concertos. E a verdade é que toda a gente me diz “Vim ver-te a atuar, Lionel”. Não, não. Eu é que venho vê-los atuar. Eu quero chegar e vê-los fazer uma festa nunca antes vista. Isso é muito especial para mim. Eu tenho o melhor lugar quando venho a Lisboa. Vai ser espetacular. Porque o espetáculo que as pessoas fazem é tal, e eu sou o recetor, o pai das canções. Sou o pai das canções, mas depois eles conseguem exibir os meus filhos de uma forma que eu não esperava. É algo que me dá muito prazer. Eu adoro viajar, adoro pessoas e partilhar amor. É a isso que tudo se resume.

Depois de tantos anos na ribalta, como é que mantém o ritmo? Como é que o Lionel se mantém criativo e energizado?

Honestamente, sou uma daquelas pessoas hiperativas. Quando era miúdo, diziam-me “Lionel, fica sentado”, “Lionel, para de conversar”, “Lionel, senta-te no teu lugar”, “Lionel, está calado”. Eu sou essa pessoa. 100 anos depois e continuam a dizer “Ainda tens mais energia?”. E eu “Sim, sim”. Ainda tenho coisas para fazer. Ainda tenho pessoas para conhecer, sítios para visitar. E também sou curioso. Eu quero saber… Estamos em 2025, nunca estive em Lisboa em digressão em 2025. Portanto, estou curioso para ver como é que é 2025 nesta altura da minha vida e como é que vai ser. Aquela inquietação de “o que vem a seguir?”. Lá vamos nós outra vez.

Antes de falarmos de Portugal e do concerto, vamos falar de amor porque... Quem escreve melhor sobre ele do que o Lionel?Continua a ser fácil pensar e escrever sobre amor da mesma forma que fazia há uns anos? A sua perspetiva mudou?

Eu vou sempre ser um eterno romântico. É como eu sou. Sou o tipo que se apaixona. Por isso, sinto… Acho que a palavra que usam hoje em dia é “hipersensível”. Mas, na verdade, sou apenas um eterno romântico. E encontro formas de chegar ao amor, aconteça o que acontecer.

“Eu amo-te, eu quero-te.” “Preciso de ti para sempre.” Estas são as minhas palavras. E, por isso, se conseguir encontrar isso numa interação diária, eu ando à procura do amor todos os dias, esteja onde estiver. E quer seja no universo, na natureza, nas pessoas, numa cidade ou aldeia, na arquitetura, ou comida, ou o que seja, partilhamo-las num mundo de amor. E por isso, esse vou ser eu até ao fim. Sou esse tipo.

A sua geração escrevia cartas de amor, esperava dias por uma chamada, nem se sabia se a outra pessoa partilhava os mesmos sentimentos. E agora temos agora temos mensagens e é tudo é tão instantâneo.

Muita informação!

Que conselho daria a alguém que vá ter o seu primeiro encontro hoje?

Bem, eu gosto da palavra “místico”. Gosto de palavras que digam: “Eu não sei tudo sobre ti.” E a palavra que gosto de usar é “descoberta”. Se eu puder descobrir uma coisa, só mais uma coisa... Quanto tempo demorarei a descobrir tudo? Uma vida.

Por outras palavras, estamos sempre a crescer enquanto pessoas. Se souberes tudo sobre uma pessoa da primeira vez que a conheces, ou à quinta vez, é aborrecido. Mas se puderes descobrir, tirar uma pétala da flor, uma pétala de cada vez, a coisa torna-se interessante. Eu gosto da ideia de descobrir com quem estou a falar. É incrível quando consegues encontrar algo novo numa pessoa que já conheces há muito tempo. É magia.


Se o Lionel tivesse de começar a sua carreira do zero, em 2025, que tipo de músico acha que seria?

Eu claramente não iria para o American Idol. E digo-lhe isto já, porque estes miúdos são tão corajosos. Eles expõem as suas almas.

Eu tive sorte, tive uma banda, tivemos os Commodores. Tínhamo-nos aos seis, aos cinco. Tive esse apoio. E estes miúdos vêm e cantam a capella na televisão nacional. Como assim!? Eu já teria desmaiado muitas vezes.

Outra coisa é que tínhamos as estações de rádio em vez do streaming. O DJ podia dizer “Esta é a nova canção dos Commodores”, “Esta é a nova canção do Lionel Richie”. E de certa forma vendiam-te esta música nova.

Agora com esta coisa do streaming, é um formato diferente, não é tão íntimo, como era com um DJ a anunciar-te: “Este é o meu amigo próximo, Lionel Richie”, “Estes são os meus amigos próximos, os Commodores”.

Era uma altura diferente. Não tínhamos telemóveis ou a internet. E a descoberta era: “Oh, meu Deus, os Commodores vêm a Portugal!”, “Oh, meu Deus, o Lionel Richie vem a Portugal!” Tornava-se num evento.

Se eu entrasse na indústria musical atualmente, seria muito estranho para mim porque eu ia tentar perceber que ângulo escolher para ser diferente. O mesmo processo que tive no passado. Todos andavam a tocar funk, então decidi que ia tocar baladas. Ia fazer músicas de amor, que era totalmente contra a corrente de funk e R&B.

Descobri um novo ângulo de como entrar no mercado e ser reconhecido. Mas hoje em dia seria, provavelmente, o mesmo. Acho que seria o mesmo. Eu gosto da forma como fiz as coisas, porque era um pouco mais íntimo. Tínhamos oportunidade de conhecer os DJ, de conhecer os diretores de programa, de conhecer os distribuidores na área. Parávamos nas lojas de discos de vinil. Éramos mais próximos.

Que tipo de música ouve hoje em dia?

Tudo o que possas imaginar. A música está toda misturada. Vejamos a América, a música pop agora é música country. É o que está a acontecer. E os artistas costumavam ser canta-autores.

Antes perguntava-se a um artista: “Então, porque é que escreveste aquela canção?”, “Qual o significado daquela canção?”. Agora tens 14 pessoas a escrever uma canção e o artista nem sequer escreveu nada. São só cantores. É uma perspetiva... diferente.

Com toda a honestidade, digo-lhe que não há um rock, pop ou R&B. É tudo uma mistura. Estou um pouco por todo o lado. Adoro Bruno Mars e o que ele faz. Continuo a achar que é um grande compositor, grande cantor deste estilo. Ouço um pouco de tudo.

Conhece algum cantor português ou alguma música portuguesa? E se não souber, não faz mal, que vai ter tempo agora.

Acabou de me fazer uma pergunta e tive mesmo de parar para pensar nela. Não, não conheço.

Talvez, em julho possa passar uns dias aqui, e talvez possa ir a um bar e ouvir música portuguesa. E fado, por exemplo? É a nossa música tradicional. Canta-se de uma forma muito melancólica, superemocional, e é dramático até.

Acabas de levantar uma questão sobre a qual nunca tinha pensado, qual é a música de Portugal? Nunca pensei nisso. Ok, estou interessado agora.

Tem de ir a uma casa de fados.

Sim, acabou de me apresentar, depois de tantos anos, um novo género musical.

Os seus concertos aproximam-se mais de uma celebração, mais do que um concerto. Que tipo de energia é que espera trazer a Lisboa em julho?

Acho que usou a palavra ideal, agora: energia.

Acho que não há nada mais deprimente do que ir ouvir alguém cantar sem estares emocionalmente ligado àquilo.

Eu gosto de uma festa gigante de karaoke. E sei que isto soa estranho, mas gosto da batalha de: “Ok, vou cantar.” E será que o público vai cantar mais alto? E depois vou cantar e será que o público vai cantar ainda mais alto? E finalmente, se o fizer corretamente, o público vai ganhar. O público vai tomar as rédeas e, de repente, cada canção torna-se num: “Mal posso esperar que ele cante esta canção, porque eu vou cantar com ele.” É assim o meu espetáculo. É o espetáculo da energia. É disso que eu gosto. Para mim é uma grande, grande festa de amor, e eu sou só o líder da claque. Sou só o tipo que lhes dá energia. E depois disso o público é que controla. Mal podemos esperar.

Há alguma música que quando cantada ao vivo fá-lo pensar “nunca me vou fartar desta”?

Bem, o “Easy (Like Sunday Morning)”, “Easy”, “Hello”, “All Night Long”. Desculpa dizer uma a uma, mas o que acontece é que nunca me farto delas, porque já fazem parte do meu ADN. E adoro quando a música arranca, mesmo antes de a cantar, só a introdução, e ouço o público: “Ok, cá vamos nós!” É aí que se torna entusiasmante. Nunca me vou fartar disso. Estas músicas não envelhecem.

Estou aqui a tentar pensar noutra… A “Se La”, “Endless Love”, são incríveis. Anseio por cada canção. Está a pôr-me numa posição difícil aqui, está a perguntar-me de qual dos meus filhos é que eu gosto mais. Mas eu gosto de todos.

Já lhe perguntei sobre música portuguesa, e sobre comida portuguesa? Tem uma boa memória disso em Portugal?

Sim, da última vez que estive aí, descobri Portugal e a comida portuguesa. Da última vez levaram-me a um sítio fabuloso e tentaram ensinar-me. O marisco é bom, o bacalhau também é muito bom. Mas sim, onde quer que fôssemos era simplesmente o melhor. Eu até acho que estava a ir bem até chegar aos doces. Assim que cheguei aos doces fiquei encantado para sempre. Eram muito bons.

Eu sou um foodie, portanto, ir sair depois do concerto é o ponto alto. Estou curioso para descobrir novos sítios.

Estamos quase a acabar. Se pudesse sussurrar uma coisa nos ouvidos de todos os fãs portugueses antes do concerto começar em Lisboa algo curto, mas pessoal, o que diria?

Seria: “Tive saudades vossas e mal posso esperar para vos ver, a 29 de julho, vou procurar por vocês.”

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