04 jun, 2025 - 13:51 • Maria João Costa
Julião Sarmento dizia que “uma obra de arte deve sobretudo interrogar, mais do que fazer afirmações”. Foi com este princípio que, ao longo da sua vida, o artista plástico criou a sua obra, e uma coleção de arte com mais de mil peças. Esse acervo é agora revelado ao público, quatro anos após a sua morte, no novo Pavilhão Julião Sarmento.
Situado na Avenida da Índia, em Lisboa, num antigo pavilhão que foi agora recuperado pelo arquiteto João Luís Carrilho da Graça, este novo espaço expositivo nasce de uma parceria entre a EGEAC – Lisboa Cultura e a Associação Amigos de Julião Sarmento. O protocolo visa a mostra desta coleção durante 5 anos, prolongáveis.
O Pavilhão Julião Sarmento que tem entrada gratuita até domingo, situa-se no eixo entre o Centro Cultural de Belém e a Torre de Belém e com isso espera atrair visitantes para um acervo construído ao longo da vida pelo artista.
Isabel Carlos – a diretora do pavilhão - explica que “logo no início da sua vida artística” Julião Armento criou “um carimbo a dizer Julião Sarmento Colector”, ou seja desde sempre o artista teve “como desígnio ser um colecionador”.
“Uma boa parte da coleção foram trocas com os seus pares, com os artistas de que ele mais gostava. Há imensas obras na coleção que são da ordem da ‘memorabilia’” refere Isabel Carlos que recorda as icónicas festas de aniversário do artista a 4 de novembro que ficaram “celebres” e onde alguns artistas davam como presente algumas obras como algumas das fotografias expostas.
“Os artistas levavam o que tinham em casa e, portanto, ofereciam pequenas fotografias ou um desenho”, indica. Mas no Pavilhão há “também obras que claramente o Julião Sarmento comprou, nomeadamente o Robert Morris, que é uma obra-prima, não só desta coleção, como é uma obra-prima do percurso do Robert Morris”, refere a responsável.
Nos três andares de exposição estão muitas “afinidades eletivas” do artista reconhece Isabel Carlos. Há nomes internacionais como Marina Abramovic, Robert Morris, Andy Warhol ou Lawrence Weiner, mas também muitos amigos artistas portugueses como Fernando Calhau, Ângela Ferreira, Rui Chafes ou Didier Fiúza Faustino, entre muitos outros.
A primeira exposição intitulada “Take 1” é inspirada no universo do cinema que Sarmento tanto gostava. “É a ideia do primeiro Take que o realizador filma e que depois é muito importante para a montagem. É a ideia de que esta é só a primeira exposição, o primeiro take, de um longo filme que vai ser o mostrar esta coleção”, explica Isabel Carlos.
A primeira exposição de longa duração que pode ser visitada de terça a domingo, das 11h às 19h, ficará até abril do próximo ano. “Na Galeria -1 vai haver muita rotatividade”, diz a diretora que indica que este piso será ocupado por eventos “mais experimentais”.
“Já em setembro, outubro, haverá um dia inteiro dedicado aos filmes e vídeos de João Onofre, aqueles ‘one screen’” aponta a responsável pela programação. “O João Onofre está muito representado na coleção. São quatro ou cinco vídeos. Vamos começar às 11h e acabar às seis da tarde”, destaca Isabel Carlos.
A ideia da diretora é que este Pavilhão Julião Sarmento crie não só uma “uma grande proximidade entre o público e os artistas”, mas também que este novo espaço seja “uma casa” para os artistas.
No exterior estará a única obra de Julião Sarmento. É uma das peças que a família do artista cedeu à cidade de Lisboa. É a “peça que ele fez para a Bienal de Veneza. É um cinzeiro que está ao lado do pavilhão”.
Haverá também outra peça da coleção, uma escultura de Rui Chafes que ficará também no exterior num jardim cujo projeto é assinado por João Gomes da Silva. “É das primeiras esculturas em ferro do Rui Chafes. Tem mais de cinco metros de altura. Será assim uma espécie de farol torre a anunciar o pavilhão”, refere Isabel Carlos aos jornalistas na visita de imprensa.