Festival Utopia na Colômbia
Valter Hugo Mãe não crê que a Humanidade se queira salvar
25 jul, 2025 - 06:34 • Maria João Costa , enviada da Renascença à Colômbia
O autor de “Deus na Escuridão” participou esta quinta-feira, em Bogotá, numa conversa com a escritora colombiana Pilar Quintana. Valter Hugo Mãe explicou que escreve “para descobrir” o que não sabe.
O tema para a conversa era “o lento cancelamento do futuro”. Os escritores Valter Hugo Mãe e a colombiana Pilar Quintana fizeram as despesas da conversa e nem sempre estiveram em acordo.
No auditório da Biblioteca Luis Ángel Arango, em Bogotá, no âmbito do Festival Utopia que iniciou este ano a sua internacionalização, Valter Hugo Mãe abriu as hostilidades afirmando que hoje se está perante um desafio.
“Não é só dar um teto, um emprego e ter dinheiro e comida, mas é ter a certeza de que vamos continuar a dignificar esta ideologia que é a Humanidade. Tenho dúvidas que o queiramos fazer coletivamente neste tempo, com o que se passa, e a mentalidade que se está a instalar. Se a humanidade vai optar pela humanidade? Creio que não”, alertou.
Para o autor de “Deus na Escuridão” (ed. Porto Editora) interessa-lhe “esta ideia de podermos ser melhor”. Contudo, diz Valter Hugo Mãe, “desculpamo-nos por sermos pior, porque somos um bicho”.
Na sala do auditório com a presença de muitos colombianos, o autor português "arranhou" o seu espanhol para deixar uma declaração de amor à Colômbia. “Poderia ser daqui. Se aqui ficasse, não estaria fora do meu mundo, estaria numa intimidade muito gratificante para mim”, explicou
Para Mãe, “a pertença é aonde vamos chegar. É esse o sentido da vida”.
“Não interessa onde nascemos, o que interessa é onde nos esperam”, rematou Valter Hugo Mãe.
Pilar Quintana, que tem um novo livro que sairá em breve na Colômbia, ao falar do tema do futuro proposto para a sessão, considerou que “o futuro é uma fonte de angústias, com aquecimento global, a destruição das selvas, é preciso pensar nele, mas às vezes o mais são, é viver o presente, não ver televisão e não ler redes sociais”.
Antes, Valter Hugo Mãe tinha falado da experiência dos povos originários do Brasil, para os quais a palavra e o conceito de futuro não existia. “Vivemos com o futuro e com os créditos e temos uma cultura que vive em função de algo que ninguém viu. Os indígenas viviam para a plenitude do presente”, refere.
Pilar Quintana, que tem um novo livro sobre uma mulher que vive sozinha numa floresta numa casa sem janelas nem portas, referiu que utilizou a literatura para se conhecer. "Há quem diga que a infância é um lugar feliz, e eu acho que não, e por isso escrevo um livro sobre isso. É o lugar onde nos podemos pensar em profundidade”, disse a autora do sucesso “A Cadela” e de “Abismos”, ambos editados em Portugal pela D. Quixote, em resposta a uma pergunta do público.
O Festival Utopia que nasceu em Braga há dois anos, está com estas conversas que cruzam escritores portugueses e colombianos a realizar a sua primeira internacionalização. Depois de Bogotá, o festival segue para Medellín esta sexta-feira.
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