Mário Martins, o produtor com "humor assassino" que "ouvia tudo o que lhe enviavam"
14 ago, 2025 - 19:07 • Rita Vila Real
O produtor musical morreu aos 90 anos e foi o responsável pelo lançamento de nomes como Carlos Paião, António Variações, José Cid e Rui Veloso.
O produtor Mário Martins, que morreu esta quinta-feira, era inteligente, cuidadoso e tinha um sentido de humor apurado, recorda David Ferreira, em declarações à Renascença.
O produtor musical morreu aos 90 anos e foi o responsável por lançar nomes como Carlos Paião, António Variações, José Cid e Rui Veloso.
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A inteligência e o cuidado fizeram de Mário Martins o olheiro e caçador de talentos da música portuguesa, conta o colega David Ferreira, que lembra um produtor que ouvia praticamente todo à procura de um talento.
“Tinha uma atitude muito cuidadosa. O Mário fazia questão de ouvir tudo o que lhe enviavam e ao ouvir tudo interessava-se por artistas que considerava especiais, e que valia a pena contratar, outros que já estavam contratados e que ele sentia que podiam ir mais longe, mas também por coisas estrangeiras, algumas das quais o Mário imaginava que fazia sentido no repertório de artistas portugueses.”
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David Ferreira lembra também outro traço da personalidade do produtor musical: “podia ter um humor assassino. A esta hora já estão pessoas na risota, no céu, a ouvir as histórias do Mário”.
Nascido em Lisboa, em 1934, Mário Martins incentivou também artistas como Lara Li, Paco Bandeira e José Alberto Reis, de quem se tornou amigo.
O produtor discográfico privilegiou sempre "o lado profissional, mas houve casos em que se construiu uma amizade", como disse numa entrevista à agência Lusa na década passada, dando como exemplo a declamadora Maria Germana Tânger, o músico José Cid, que sempre o convidava para assistir aos seus espetáculos, e o cantor José Alberto Reis.
Com Maria Germana Tangêr (1920-2018), Mário Martins iniciou uma série de gravações discográficas de poesia portuguesa, numa coleção que inclui álbuns com poemas ditos pelos seus autores, como David Mourão-Ferreira (1927-1996) ou Mário Cesariny (1923-2006).
"[No caso do] Rui Veloso foi a mãe que marcou comigo e veio de comboio do Porto até Lisboa, e deu-me a ouvir uma "cassette" do filho, para dizer se achava se tinha ou não futuro". A resposta foi "sem sombra de dúvida que sim, e a carreira dele fala por si", contou.
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Mário Martins referiu "o seu dedo" direto em êxitos como "Somos Livres", de Ermelinda Duarte, que "insistia em não gravar e depois foi um sucesso retumbante", "Vinte Anos", pelo grupo Green Windows, do qual faziam parte José Cid, Vítor Mamede e Mike Sergeant, entre outros, ou no álbum "O Nazareno", de Frei Hermano da Câmara, que contou as participações de Amália Rodrigues e Mara Abrantes, entre outros, e ao qual se referiu como a sua "mais complexa produção, mas que valeu a pena".
Mário Martins foi durante cerca de 30 anos responsável pelo departamento de Artistas e Reportório (A&R) da editora discográfica Valentim de Carvalho, onde começou a trabalhar em 1966, a convite de João Belchior Viegas, agente artístico de Amália Rodrigues.
Graças à sua intervenção, Amália Rodrigues -- a quem Mário Martins se referia como "o verdadeiro milagre português" - gravou, em 1982, "O Senhor Extraterrestre", de Carlos Paião (1957-1988), artista que passou a constar do catálogo da Valentim de Carvalho.
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