30 set, 2025 - 15:10 • Maria João Costa
Depois da agressão em junho, à porta do teatro da Barraca, em Lisboa, ao ator Adérito Lopes por um jovem de um grupo neonazi, a companhia volta a pôr em cena o espetáculo “O Príncipe de Spandau”.
A obra escrita por Hélder Mateus da Costa em 1987 retrata a vida de Rudolph Hess, braço direito de Adolf Hitler. Desta vez o papel será interpretado pelo ator Gil Filipe que fala numa peça de denúncia e revela não ter receio de subir ao palco.
Em entrevista ao Ensaio Geral, da Renascença, o ator lembra que o texto que levará à cena “foi escrito pelo Hélder Mateus da Costa logo após a morte do Rodolph Hess que era o último dos condenados de Nuremberg”.
A peça passa-se na prisão de Spandau, onde Rudolph Hess “dentro da cela, imagina que está num palácio”. “Ele comanda todas as forças nazis do mundo a partir do seu palácio”, explica o ator.
“O que é incrível para mim, como intérprete deste espetáculo, e é um privilégio, é de certa forma colocar alguma militância na minha atividade artística, porque este é um espetáculo de denúncia”.
Gil Filipe que recorda a agressão ao seu colega de profissão Adérito Lopes como algo que atingiu toda a classe artística, diz que não tem receio de subir ao palco vestindo estes personagem.
“Não tenho receio absolutamente nenhum. Aliás, no primeiro dia da estreia, a direção, a Maria de Céu Guerra pediu policiamento à porta. Eu fui um bocado opositor. Isso é exatamente o que eles pretendem, é que a gente tenha medo", aponta.
"Eu não tenho medo, porque o medo é o alimento desses movimentos. É uma das táticas”
Desde que estrearam, a 10 de julho, têm tido várias manifestações de apoio a partir da plateia, lembra Gil Filipe que diz que por vezes no final o público aplaude e grita “Fascismo nunca mais!”.
Para o ator, o teatro tem um papel crucial na reflexão crítica. “Desde os Gregos que assim acontece. O teatro sempre elogiou os méritos e denunciou os defeitos da humanidade. O que nós estamos a fazer, no fundo, é denunciarmos os defeitos e tentarmos contribuir um pouco para a reflexão sobre estes fenómenos”, sublinha.
Contudo, quando há quase 40 anos a peça foi feira, Gil Filipe recorda-se de pensar que a temática poderia já não fazer sentido. “Na década de 90 estava numa companhia do Porto, e estávamos a projetar fazer este texto. Na altura, havia a sensação de que estamos a fazer um espetáculo datado, que já não fazia sentido, a democracia não corria perigo”, recorda.
No entanto, hoje e no atual contexto mundial e em particular no português, Gil Filipe considera que a peça é “assombrosamente atual”. “Quem diria que mais de 30 anos depois, tudo isto fosse tão perigoso e tão atual”, reflete o ator.
“O Príncipe de Spandau” foi assim um texto que se revelou premonitório – antecipando o regresso dos extremismos políticos e tendências racistas e de ódio. A peça pode ser vista na casa da companha A Barraca, no Teatro Cinearte, em Lisboa de 1 a 19 de Outubro, de quarta a sexta às 19h30, sábados às 21h30 e domingo às 17h