02 out, 2025 - 14:14 • Maria João Costa
Depois de já ter pensado sobre agricultura e a Terra, este ano a Trienal de Arquitetura de Lisboa propõe uma reflexão sobre as cidades. “Quão Pesada é uma cidade?” é a pergunta que a Trienal faz este ano aos visitantes. Uma reflexão que coincide com o período da campanha para as autárquicas em que o país pensa o seu território.
Em entrevista à Renascença, José Mateus, arquiteto e presidente da Trienal fala das cidades como um “complexo organismo” e explica que vão ter na Trienal três exposições principais que se “chamam Fluxes, no MAAT, Spectres, no MUDE com a Fundação Millennium BCP e Lighter no CCB”.
“São três grandes capítulos da nossa reflexão. Depois temos projetos independentes no Palácio Sinel de Cordes, na sede da Trienal, no MAC/CCB e no MNAC, o Museu Nacional de Arte Contemporânea. São, no fundo, propostas independentes de reflexão e programação, que ampliam a nossa reflexão sobre as cidades”, explica o presidente da Trienal.
Além de um livro que vão publicar e terão também diversas conferências a que deram o nome de “Talk, talk, talk” que decorrem de 29 a 31 de outubro na Gulbenkian, em Lisboa. Participam “uma série de pensadores, cientistas, filósofos, técnicos” que vão “apresentar ideias e debatê-las”, explica Mateus
O arranque da Trienal de Arquitetura que coincide com a campanha para as autárquicas é também um momento de uma reflexão que se estende a políticos, arquitetos e demais cidadãos, sublinha José Mateus
O presidente da Trienal diz que “seria interessante perceber até que ponto é que os nossos políticos estão verdadeiramente conscientes das várias dimensões do problema”. Mateus fala em desafios complexos que as cidades enfrentam e dá exemplos com impacto ambiental.
“As pessoas que habitam as cidades, que, por exemplo, usam um smartphone, e guardam tudo na ‘cloud’ - que é assim um termo meio etéreo - acham que é insignificante, mas na verdade são ‘data centers’ que gastam quantidades de energia astronómicas”, alerta.
“Nesta edição, o que queremos, no fundo, é examinar esse impacto total de uma cidade, quando pensado a um nível planetário”, afirma o presidente da Trienal que reconhece que ao longo dos anos e das diferentes edições do evento tem vindo a melhorar a sua “ecoliteracia”.
“Fala-se muito de crise climática, mas não estamos perante uma crise climática. Estamos perante uma crise da biosfera na sua totalidade. E, portanto, seria interessante perceber até que ponto é que os nossos políticos, realmente, estão verdadeiramente conscientes das várias dimensões do problema”, refere.
José Mateus lembra que “a nossa realidade tem que mudar”. “É um dos desafios. A arquitetura é feita de sociologia, de economia, de tecnologia, História. É feita de uma série de disciplinas desde sempre. Há momentos, como houve, por exemplo, no pós-guerra, em que havia uma urgência de habitação e reconstrução das cidades. Agora o problema que se coloca é ao nível planetário. Temos que reinventar metodologias e linguagens em termos de arquitetura” neste momento.
“Ainda recentemente saiu um novo relatório sobre os nove limites da biosfera, que não poderiam ser ultrapassados em termos de impacto, e já foram ultrapassados sete, sendo que o último, este ano, foi a acidificação dos oceanos. E o problema não é ter-se ultrapassado esses sete limites da biosfera. O problema é a rapidez como está a avançar, nos últimos anos, essa evolução. Esse é o aspeto mais grave”, avisa Mateus.
Questionado pela Renascença sobre se os construtores estão conscientes dessa urgência ambiental e de mudar de paradigma no setor da edificação, José Mateus evoca a sua experiência como “arquiteto da prática” que desenha e constrói todos os dias.
“Em termos de legislação tem evoluído imenso, a vários níveis, na procura de uma maior eficácia, por exemplo, em termos térmicos, com as certificações. O enquadramento regulamentar da arquitetura e da construção é profundamente diferente daquilo que tínhamos há 20 anos”, recorda.
Contudo, lembra Mateus “há políticos que são negacionistas em termos da crise climática” e há outras questões que se levantam. A nível europeu a construção baseia-se muito no betão, já nos Estados Unidos é mais o aço e a madeira, elenca o arquiteto que remata dizendo que a produção de betão e aço “tem um impacto absolutamente astronómico em termos de emissão de CO2” e “são a base da indústria da construção”.
Só com apoios é que se pode implementar mudanças defende o presidente da Trienal, dando como exemplo o caso dos carros elétricos. “No início as novas tecnologias são sempre mais caras. Os automóveis elétricos hoje são mais caros, portanto, tudo aquilo que é novo começa por ser mais caro. E há um período de transição, até se tornar mais barato, que é extremamente complexo de ultrapassar”, aponta.
“A menos que haja vontade política de introdução de apoios, subsídios, nessa fase da transição tecnológica, é completamente impossível”, avisa o arquiteto que lembra que “neste momento assistimos a muita reinvenção em termos de materiais, mas que são quase de nicho, que não se podem projetar em termos de escala”, diz.
Há também a questão da “mão de obra que está formada para as tecnologias” atuais. É por isso, defende José Mateus necessário fazer “um esforço muito grande que envolve vontade política - muito decisiva - investigação, universidades e envolve apoiar indústrias que apostem nesse sentido”, remata.