08 nov, 2025 - 11:00 • Maria João Costa
Já chamou casa a um quarto do Forte de Peniche. Já chamou casa a um contentor pré-fabricado, instalado na região Oeste. O artista Carlos Bunga conhece, na primeira pessoa, a crise na habitação. A sua reflexão está na exposição “Habitar o Contraditório” que abre sábado ao público, no Centro de Arte Moderna (CAM), da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.
Com curadoria de Rui Mateus Amaral, a exposição pretende quebrar as barreiras do museu e talvez por isso comece no jardim, numa peça escultória a que o artista que nasceu no Porto e vive em Barcelona deu o nome de “Beijódromo”.
É “um espaço para namorar, para amar, para estar juntos, para a empatia”, explica o artista. São “palavras que fazem mais sentido agora do que nunca, num mundo polarizado, manipulado, num mundo do digital”. “É importante estar juntos, abraçarmo-nos e esta peça quer convidar a estarmos todos juntos”, explica.
Mas a exposição que saltou as paredes do museu instalou-se também na entrada com duas peças, uma delas uma escultura com móveis e um tapete que poderiam ser de uma casa.
Na opinião deste artista de origem angolana, “a palavra museu tem sempre uma carga muito forte, tem um peso institucional, uma carga histórica”. “Ter estes mobiliários é para que as pessoas se sintam identificadas com uma casa que é para todos. Uma casa aberta a todos, onde temos experiências”, indica.
Neste museu a que quer chamar casa, também colocou duas televisões na entrada. São objetos que segundo Carlos Bunga humanizam aquilo que é um museu. Mas o artista quebrou também outras paredes nesta exposição.
Ao entrar na nave central do CAM, cheira a cartão. À frente do visitante erguem-se uma espécie de colunas em cartão – material habitual do trabalho de Carlos Bunga – que parecem perfazer uma floresta.
Ao mesmo tempo que as grandes janelas do CAM dão para o verde jardim Gulbenkian, dentro da galeria surgem estes troncos, uma floresta conceptual como lhe chama Bunga. “É uma floresta, um espaço para refúgio que se transforma, onde as pessoas se podem esconder, e que tem esta monumentalidade porque é uma peça que quer convidar o público a entrar".
Do jardim para dentro do CAM vieram também as habituais cadeiras verdes que costuma estar espalhadas no exterior, convidando assim o público a sentar-se como se estivesse lá fora. “É uma floresta que quer fazer eco da floresta que está fora, mas também de uma floresta que todos levamos dentro, que é aquilo que é casa”, explicou o artista.
Dentro desta floresta surgem as várias casas que Carlos Bunga habitou, desde logo a “primeira casa”, o “ventre” da sua mãe. A figura da mãe é homenageada na peça “Motherhood” onde o artista evoca a mãe, que em 1975 saiu de Angola para fugir à Guerra Civil.
Mais à frente, outra peça toda preta, recria o quarto na antiga Cadeia do Forte de Peniche onde viveu e onde foram acolhidas pessoas que regressaram das ex-colónias portuguesas. Ao lado da cama, há uma luz, “é a esperança”, lembra Carlos Bunga que venceu como artista, contra aquilo que foram todas as adversidades.
Ainda no meio da floresta, surge a recriação de outra casa, a “Casa n.17”, um prefabricado onde Bunga viveu em São Bartolomeu dos Galegos, na zona Oeste. Aqui surge um lado menos conhecido da obra do artista. Através de fotografias, Carlos Bunga revela como encontrou a casa, depois de ter sido abandonada. Ao lado mostra uma miniatura da casa de paredes verdes, feita com uma caixa de cereais.
“Habitar a Contradição” ocupa os dois pisos do CAM. Além das obras de Carlos Bunga – e algumas colocadas no exterior são visíveis a partir da nave do CAM – há também um diálogo com obras da Coleção do CAM.
Entre os artistas escolhidos estão Manuel Amado, Vieira da Silva, Carlos Nogueira, Lourdes Castro, Helena Almeida, Alberto Carneiro ou Alberto Chissano. “Habitar a Contradição” estará patente até 30 de março no CAM.