12 nov, 2025 - 18:46 • Daniela Espírito Santo
Qual é a diferença entre uma imagem e uma fotografia? Será que ainda sabemos a diferença? A Inteligência Artificial está a afetar praticamente todas as áreas da existência humana, mas há algumas onde a sua introdução parece, certamente, mais disruptiva. Muito se tem falado do papel que a IA pode ter no mundo criativo e há quem acredite que pode determinar o fim da diferença entre o que é real e o que é criado artificialmente, mas também há quem defenda que tudo não passa de um exagero passageiro e que, num futuro próximo, usar IA será tão natural como usar outra qualquer ferramenta.
Durante o segundo dia da Web Summit, em Lisboa, a jornalista da Renascença Maria João Costa subiu a um dos palcos do evento para descortinar se estamos ou não perante uma grande mudança na criatividade. Em palco com ela estiveram a fotógrafa portuguesa Teresa Freitas e Eric Wittman, CEO da VSCO, uma aplicação dedicada à edição e partilha de fotografias, originalmente criada por um grupo de fotógrafos.
Ambos são da opinião que a IA pode ser uma forma de expandir a criatividade humana e não funcionar como seu substituto e que, eventualmente - e passado um início mais nebuloso - podemos beneficiar dela para perder menos tempo com o que não é tão importante no processo criativo.
"A tecnologia afeta a criatividade desde a Idade da Pedra", começa por dizer Eric Wittman, que assegura que a sua "app" quer "encontrar maneiras da IA ajudar no processo criativo", porque tem uma perspectiva "humana". "Não queremos substituir isso", admite. "Podes usar a Inteligência Artificial nas tarefas mundanas e isso dar-te mais espaço para te inspirares e seres criativo", diz.
Já Teresa Freitas acrescenta que, muito por "culpa" da explosão da utilização de IA's na criação de imagens, quem trabalha na área está cada vez mais "focado em criar algo com uma voz distinta", até porque não é possível abandonar o mundo online. "É assim que somos descobertos pelas marcas, agências e profissionais... É importante estar presente".
O processo disruptivo que afeta agora a fotografia, defendem ambos, já foi vivido há uns anos, por exemplo, pela música. E, garante Eric, o resultado não é muito diferente na arte de fotografar. "A música passou por isto com o streaming. Agora, voltamos a comprar álbuns, vinis, merchandise e a ir ver artistas ao vivo, porque a criatividade é uma experiência comunitária. Estamos a ver isso na fotografia também: vendem-se cada vez mais rolos fotográficos, a Kodak lançou rolos que já não lançava há mais de 30 anos, a Fuji não tem stock suficiente para responder às necessidades e há espaços para revelar fotografias a renascer", exemplifica, assegurando que as pessoas querem "continuar a ter experiências e a expressarem-se de formas únicas".
"É curioso que, quanto mais inovamos na tecnologia, mais as novas gerações voltam para o que é antigo, para encontrarem mais maneiras interessantes de usar as suas raízes criativas".
No final da conversa, e entre muitas teorias sobre o que será o futuro do "storytelling", uma certeza: seja o que for que acontecer à fotografia - como à criatividade - não há tecnologia que substitua "uma experiência real" e o gosto inato do ser humano pelo que é real e autêntico.
"No futuro, vamos procurar na fotografia a autenticidade e trabalhos que contem uma história. Há uma história por detrás de tudo, há autenticidade que é quase impossível de replicar. Talvez a tecnologia se torne mais evoluída e interessante, mas o que interessa é a história que queres passar", remata Eric, que acredita realmente que, passada a espuma dos dias, a IA vai ser apenas um "parceiro" e uma ferramenta de "inspiração", que ajude os criativos a chegarem a um "melhor resultado mais rapidamente".
Teresa concorda e tem esperança em quem vem a seguir. "Espero que os próximos fotógrafos sejam curiosos o suficiente para encontrarem novas maneiras de contar histórias, utilizando a IA nas tarefas que consomem tempo escusado. Se tudo correr bem, será só um acrescento e não um substituto para a criatividade", diz, deixando um conselho para as novas gerações.
"Sejam disciplinados na procura de novas histórias para contar", remata, deixando no ar outra palavra que orientou a conversa: no final do dia, procuramos todos comunidade e, isso, não só não terminou, como é cada vez mais uma necessidade.