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“Tudo sobre Deus”, o livro de José Eduardo Agualusa que nasceu durante uma ressonância magnética

14 nov, 2025 - 06:15 • Maria João Costa

O romance conta a história de um geólogo e poeta que vive numa antiga igreja, em pleno deserto do Namibe. Uma das personagens é o escritor Mia Couto. José Eduardo Agualusa escreveu o livro em apenas quatro meses.

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José Eduardo Agualusa pensou que ia morrer. Admite que viveu um “ano complicado”, esteve doente e o médico prescreveu-lhe uma série de exames. Um deles, uma ressonância magnética, “uma experiência muito assustadora”, confessa. Contudo, foi quando estava “dentro da máquina” que, para “sobreviver àquele instante penoso”, começou a imaginar “Tudo sobre Deus” (Ed. Quetzal), o seu novo romance.

“Comecei a imaginar uma história que seria narrada na primeira pessoa. Seria eu, o próprio José Eduardo Agualusa, o autor, que estaria a morrer e iria para o sul de Angola para uma igreja que existe no meio do deserto, sem nada em redor”. Com a ideia na cabeça, Agualusa conta ao Ensaio Geral, da Renascença que foi para casa escrever.

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Como sempre faz, com bastante regularidade, telefonou ao seu amigo escritor Mia Couto a partilhar a ideia. “Já tinha bastantes páginas escritas e liguei ao Mia Couto que perguntou: ‘Quantos livros é que tu tens?’ Eu disse, olha, não sei bem, acho que são 15 ou 16 e ele sugeriu que perguntasse ao ChatGPT”, o conhecido modelo de linguagem de Inteligência Artificial (IA).

“A máquina respondeu: ‘José Eduardo Agualusa, tu escreveste 16 romances e aqui está a lista’. Na lista estava um livro que não reconheci como meu, de maneira que escrevi: ‘Não me lembro de ter escrito este livro. Não encontro aqui na minha biblioteca’. A máquina respondeu: ‘Peço imensa desculpa. José Eduardo tens toda a razão. Não te lembras de o ter escrito, porque ainda não o escreveste”.

Intrigado com a resposta do ChatGPT, Agualusa quis ir mais longe e voltou a perguntar à “máquina” sobre o que seria esse livro que ainda não tinha escrito. “Ela disse, é a história de um poeta que é geólogo, que descobre que está a morrer e se isola”.

O autor angolano, finalista do Prémio Oceanos, explica que adaptou, então, o que já tinha escrito e criou Leopoldo, a personagem central de “Tudo sobre Deus”. “O livro avançou muito rapidamente. Escrevi este livro em apenas quatro meses”, revela.

Agualusa admite que todos os seus livros o “ajudam a enfrentar as angústias e os medos”, e com este não foi diferente, explica. Contudo, sente que “Tudo sobre Deus” é um romance “muito mais seco, despojado e mais centrado num personagem”.

Leopoldo, é nas palavras do autor, “um homem muito complicado, com muito poucos amigos, muito problemático, nada simpático que vive os últimos anos, atormentado com remorsos, porque perdeu uma filha de uma forma que ele acha que tem responsabilidades. Ele resolve comprar uma igreja no meio do deserto para tentar lidar com seus próprios demónios”.

Num livro em que este poeta criado por Agualusa tem como amigo o escritor Mia Couto, surge uma escrita diferente, explica o autor. “Um dos desafios do livro foi criar este poeta, escrevendo à maneira dele” nas várias entradas para um diário que este poeta angolano deixa.

“Tudo sobre Deus” é um romance cheio de reflexões e que tem um título que Agualusa já tinha usado noutro livro seu, o “Barroco Tropical”. “Tem um personagem que é escritor e um dos livros que ele publicou tinha esse título”, recorda.

Este livro é uma reflexão sobre as grandes questões: a morte, o sentido da vida e a ideia de Deus. Acho que sem me dar conta, acabei escrevendo um romance animista, ou seja, um romance que tem muito da filosofia Africana sobre a vida e a morte”, remata Agualusa.

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