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Rosa Casaco "era o fotógrafo preferido de Salazar"

17 nov, 2025 - 08:07 • Maria João Costa

“Histórias da PIDE – Quando Salazar Mandava” é o novo livro do jornalista José Pedro Castanheira. Neste primeiro volume, o antigo jornalista do Expresso que entrevistou Rosa Casaco mostra como ninguém escapou à ação da polícia política de Salazar, nem mesmo Calouste Gulbenkian ou a igreja.

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Rosa Casaco "era o fotógrafo preferido de Salazar"
Rosa Casaco "era o fotógrafo preferido de Salazar", revela livro “Histórias da PIDE – Quando Salazar Mandava". Foto DR

A PIDE – a polícia política do regime de Oliveira Salazar – mandou prender Calouste Gulbenkian e manteve de baixo de olho um poeta russo que Snu Abecasis trouxe a Portugal, e que visitou Fátima aquando dos 50 anos das aparições e da viagem de Paulo VI ao santuário.

Estas são algumas das histórias que o antigo jornalista do Expresso, José Pedro Castanheira conta no livro “Histórias da PIDE – Quando Salazar Mandava” (ed. Tinta da China) que agora foi lançado.

Este apresenta-se como o primeiro volume e revela como ninguém escapou à ação da polícia política. “A primeira história tem a ver com a prisão inimaginável e completamente desconhecida de Calouste Gulbenkian, pela PIDE, em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, quando ele tinha acabado de chegar a Portugal, fugido do nazismo”, indica Castanheira.

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Além deste caso insólito, surgem outros nesta reunião de histórias que espelham bem a dimensão da ação da PIDE. Exemplo disso é o caso de D. Eurico Dias Nogueira que veio a ser arcebispo de Braga.

Trata-se do, então, ainda jovem sacerdote Eurico Dias Nogueira que, mais tarde, viria a ser bispo primeiro em Moçambique e depois em Goa. "Enfim, a nossa geração e os ouvintes lembram-se certamente de Dom Eurico Dias Nogueira como o arcebispo de Braga, no final dos anos 70 e, depois, nos anos 80 e 90. Eurico Dias Nogueira, nessa altura, era talvez uma das vozes mais conservadoras da Conferência Episcopal. Enquanto foi sacerdote primeiro, e depois, Bispo em Moçambique e em Goa, foi permanentemente vigiado pela polícia política”, explica Castanheira.

O jornalista, que teve acesso aos processos de D. Eurico Dias Nogueira que estão no arquivo da PIDE DGS, encontrou “várias centenas de folhas”, onde estão “um número incontável” de “fotocópias e até originais da correspondência” do prelado.

“Durante 13 a 14 anos” essa correspondência foi “vasculhada, copiada e apreendida, quer o seu interlocutor fosse o cardeal Patriarca de Lisboa, que na altura era D. Manuel Gonçalves Cerejeira, quer fosse o Núncio Apostólico em Lisboa, que era o representante da Santa Sé em Portugal, quer também para o próprio Salazar”, sublinha o autor. A PIDE “apreendia até a correspondência entre um bispo e o Presidente do Conselho”, exclama Castanheira.

No coração deste livro está uma das histórias que fez o “maior furo jornalístico” da vida de José Pedro Castanheira, o caso de Rosa Casaco – antigo diretor da PIDE e chefe da brigada que assassinou Humberto Delgado.

“Rosa Casaco tinha sido, depois do 25 de Abril, julgado à revelia, porque fugiu imediatamente do país a 27 de Abril. E, portanto, no processo que julgou o assassínio de Humberto Delgado, ele foi, naturalmente, um dos arguidos e foi julgado à revelia, porque estava fugido. Estava fora do país e foi condenado a oito anos de prisão”, explica Castanheira.

Procurado pelas autoridades, com um mandato de captura internacional, Rosa Casaco nunca foi encontrado, até que José Pedro Castanheira o fez, com uma entrevista que foi manchete do Expresso, tendo feito disparar as vendas.

“A verdade é que as autoridades policiais não tinham manifestado vontade de executar o mandato”, afirma o autor do livro. “Entrevistei-o em Espanha, em Zafra, numa cidadezinha ao sul de Badajoz. Depois, no dia seguinte, houve uma sessão de fotografias de Rosa Casaco em Lisboa, feitas pelo meu colega fotojornalista do Expresso, Luís Carvalho”.

Tudo isto surge no livro onde são contadas várias histórias paralelas, entre elas o facto de Rosa Casaco, filho de pai incógnito e sem grande escolaridade, ter uma paixão por fotografia.

“Era o fotógrafo preferido de Salazar. As melhores fotografias da intimidade de Salazar foram todas elas feitas por Rosa Casaco. Era um fotógrafo amador, originário de uma família muito pobre. Fez a vida a pulso. E até concorreu e ganhou vários prémios internacionais na área da fotografia”, revela José Pedro Castanheira.

“Histórias da PIDE – Quando Salazar Mandava” reúne muitos outros casos curiosos, como o de um poeta russo que a PIDE manteve de baixo de olho, quando Snu Abecasis – que dirigia a D. Quixote - o trouxe a Portugal. Na deslocação o poeta visitou Fátima aquando dos 50 anos das aparições e da viagem de Paulo VI ao santuário.

Os arquivos da PIDE são um “manancial” de informação, diz José Pedro Castanheira que já está a trabalhar num segundo volume destas histórias que incidirá sobre a época de Marcello Caetano.

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