30 nov, 2025 - 09:00 • Daniela Espírito Santo , João Malheiro
Woody Allen foi, durante décadas, um dos realizadores mais bem sucedidos do cinema norte-americano. O seu estilo próprio, algures entre a comédia e o romance e com um toque de neurose e auto-depreciação, sempre com Nova Iorque como pano de fundo, era apreciado pela crítica e pelo público.
Durante anos, o nome "Woody Allen" era garante de bilheteira e de prémios. Algumas das suas musas, como Diane Keaton ou Cate Blanchett, levaram para casa Óscares graças ao trabalho desenvolvido com o realizador. Agora, no momento em que chega aos 90 anos, poucos são os que querem trabalhar com o nova-iorquino que marcou a história do cinema, especialmente no final do século XX.
Nascido a 30 de novembro de 1935, Allan Stewart Koningsberg tem uma carreira que se estende por mais de seis décadas como ator, realizador, argumentista e dramaturgo.
Começou pela comédia, nos anos 50, ora na televisão ora nas páginas da revista New Yorker. Rapidamente, conquistou um lugar na cultura nova-iorquina, atuando, inclusivamente, como comediante de "stand-up" nos pequenos palcos e bares da cidade que nunca dorme. Lançou álbuns de comédia nos anos 60 e, depois, a sua escrita levou-o, na década seguinte, ao grande ecrã. "Annie Hall", de 1977, é, porventura, o seu primeiro trabalho "mainstream". Estava lançada a sua carreira no cinema.
O filme, estrelado pelo próprio e por Diane Keaton, valeu-lhe quatro Óscares e a adoração do público.
Seguir-se-iam outros sucessos, com especial destaque para "Manhattan", mais uma homenagem à cidade onde nasceu (e mais um papel para Diane Keaton). Muito influenciado pelas tendências europeias, Woody Allen é um cineasta que filmava quase todos os anos, com produções pouco exigentes tecnicamente e orçamentos comedidos. O resultado? Sucesso atrás de sucesso, mais ou menos seguindo sempre a mesma fórmula: "Interiors" e "Stardust Memories", ainda nos anos 70, deram lugar, já nos anos 80, a obras como "Broadway Danny Rose", "A Rosa Púrpura do Cairo", "Hannah and Her Sisters", "Radio Days" ou, por exemplo, "September" e "Crimes and Misdemeanors".
Até ao início dos anos 90, havia uma musa que se destacava nos seus projetos: Mia Farrow. A ligação não era meramente profissional. Os dois começaram uma relação em 1979 e só se separaram no início dos anos 90, num divórcio envolto em polémica, com a atriz a acusar o ex-marido de abusar da filha adotiva, Dylan Farrow, e com este a casar-se com a outra filha adotiva, Soon-Yi Previn, que conhecia desde pequena. O assunto haveria de o assombrar novamente anos mais tarde.
No meio da polémica, os filmes continuaram, mas com outras protagonistas. Os anos 90, Woody Allen continuou prolífero, a lançar pelo menos um filme por ano: "Husbands and Wives", "Manhattan Murder Mystery", "Bullets Over Broadway", "Mighty Aphrodite", "Deconstructing Harry" e " Sweet and Lowdown" são só alguns dos títulos lançados nessa década.
Com o virar do milénio, Allen foi deixando, gradualmente, de aparecer à frente da câmara ou, pelo menos, de ser um dos protagonistas dos seus filmes (como habitual). "Matchpoint" é, talvez, o ponto de viragem desta nova fase da sua carreira e, em simultâneo, marcava o início da sua colaboração feliz com Scarlett Johansson: no ano seguinte voltaria a trabalhar com ela no filme "Scoop".
É na primeira década do novo século que Woody Allen começa, igualmente, a explorar outras latitudes: "abandona" provisoriamente Nova Iorque e começa a explorar a Europa com longas-metragens como "Vicky Cristina Barcelona", "Meia-noite em Paris" ou "Para Roma com Amor", que rapidamente se tornam êxitos comerciais.
"Blue Jasmine" e "Magia ao Luar" ainda granjearam elogios e alguns prémios (como o Óscar de Cate Blanchett), mas os títulos que se seguiram já não gozaram do mesmo sucesso.
No entretanto, e em paralelo, Woody Allen não parou de escrever e não deixou de lado os palcos. Publicou ao longo da vida vários contos, escreveu peças de teatro, ensaios e até uma autobiografia.
Continua a escrever hoje em dia: o seu primeiro romance, por exemplo, chegou o mês passado a Portugal. "Que se Passa com o Baum?", o retrato de um "intelectual paralisado por preocupações neuróticas sobre a futilidade e o vazio da vida, numa paródia ao meio editorial nova-iorquino" foi editado em outubro pelo grupo Almedina.
Para além disso, o também ator toca clarinete na New Orleans Jazz Band e foi com ela que veio até Portugal várias vezes: atuou em 2005 no CCB, depois de ter feito a passagem de ano anterior no Casino Estoril. Voltou à capital em 2017 e atuou no Porto, no Pavilhão Rosa Mota, em 2023, antes de voltar a Lisboa para tocar no Campo Pequeno.
Com o passar dos anos, a bilheteira e os críticos já não parecem acompanhar a velocidade com que Woody Allen continua a criar filmes. A indústria começa a virar-lhe as costas lentamente, numa altura em que o movimento #MeToo vai ganhando força em Hollywood.
É nessa altura que Dylan Farrow o volta a acusar de abuso e, praticamente em simultâneo, uma entrevista polémica leva a Amazon a cancelar um contrato milionário. O acordo previa o financiamento de quatro filmes de Allen, mas apenas um acabaria por ver a luz do dia ("Um Dia de Chuva em Nova Iorque").
A quebra deste vínculo contratual levaria Allen a processar a Amazon, criticando-a por ter dado "vagas razões" para não cumprir o acordo. Do seu lado, a empresa norte-americana acusou o cineasta de comprometer o sucesso comercial dos seus projetos devido aos comentários que proferiu a desvalorizar o movimento #MeToo, somado às acusações de que ainda era alvo por parte da família Farrow.
O caso terminou em acordo entre ambas as partes. Já as estrelas de "Um Dia de Chuva em Nova Iorque", Timothee Chalamet e Rebecca Hall, optaram por doar o dinheiro que receberam por ter feito o filme a instituições de caridade.
O processo de afastamento de Woody Allen em Hollywood culmina em 2021, com o lançamento da minissérie documental "Allen vs Farrow", onde o escândalo que o assolou nos anos 90 recebeu um novo foco ao olhos do grande público. Nele, são exploradas novamente as alegações de abuso sexual a Dylan Fallow, com a alegada vítima e a mãe, Mia, a participarem.
Entre prémios e elogios, houve também quem criticasse a obra, chamando-a de parcial contra o realizador, que continua a negar todas as acusações. O certo é que, desde então, o próprio assume que já não consegue financiamento nos EUA e são muitos atores que lhe viraram as costas. Aparecer num filme de Woody Allen virou tabu.
Nesta nova fase, Allen regressa à Europa, mas por necessidade. A produzir menos filmes por ano, as suas obras são agora financiadas por países europeus: "Golpe de Sorte", a sua 50.ª longa-metragem, envolveu dinheiro francês e a cidade de Madrid, por exemplo, acabou de anunciar que vai co-financiar a sua próxima produção. Mas, até mesmo no velho continente, há quem lhe diga não: Itália e Barcelona não aceitaram financiar projetos do realizador norte-americano que, este domingo, completa 90 anos.