Olga Cardoso (1934-2025)
Quando Sala entrevistou a sua amiga Olga. Nas radionovelas "fazia quase sempre de má”, por ter boa voz “para gritos e berros”
03 dez, 2025 - 21:27 • Catarina Santos
Foi a primeira vez que se trataram por “tu” em antena. Depois de partilharem muitos anos na condução do programa “Despertar”, António Sala convidou Olga Cardoso para uma conversa íntima sobre a sua vida, em setembro de 2000 — tinha ela 66 anos. A voz histórica da rádio e da televisão percorreu a infância e juventude, das radionovelas às aventuras na Renascença, pela mão do eterno companheiro de microfone. A "Amiga Olga" morreu esta quarta-feira, aos 91 anos.
“Cresceu de ouvido colado à telefonia e, como ela própria diz, a sonhar ser menina da rádio.” António Sala introduzia assim a antiga "companheira ideal” de microfone, que o acompanhou durante quase duas décadas no programa “Despertar” -- um “fenómeno de popularidade radiofónica”, que marcou ambos profundamente.
Numa rubrica de entrevistas que Sala mantinha na Renascença aos sábados de manhã, no início do milénio, ambos viajaram pela história de vida da locutora — que chegou à Emissora Católica a 6 de dezembro de 1960.
O programa que os juntou nos anos de 1980 e 90, dizia Olga, “fez virar a rádio” e “modificou tudo”, tratando os ouvintes como “familiares”. Nas palavras de António Sala, foram “as melhores manhãs de sempre, mais alegres, mais humanas, mais sorridentes da rádio portuguesa”.
Desses dias em que a rádio perdeu a gravata e deixou de ser “arrumadinha”, quando trabalhavam sempre em direto, sem rede e muitas vezes em lugares improváveis, Olga só lamenta nunca ter chegado a "descer de paraquedas”.
Ele era o irmão que ela nunca teve, havia de dizer um dia a eterna “Amiga Olga”. Ela era “indiscutivelmente”, dizia Sala, “a melhor companheira radiofónica e a melhor companheira matinal”.
Com Sala em Lisboa e Olga no Porto, como nos tempos em que acordavam Portugal, nesta conversa de 50 minutos percorrem as memórias de infância da menina começou a concretizar os sonhos quando, aos 15 anos, tropeçou num explicador de matemática que era também produtor de novelas radiofónicas.
Olga regressa aos tempos em que as radionovelas paravam o país — conta que fazia quase sempre “de má”, por ter boa voz “para os gritos e para os berros”. Tinha de se manter incógnita para não a insultarem na rua, tal era a forma como os ouvintes confundiam as personagens com a vida real.
Óbito
Morreu Olga Cardoso, voz histórica da Renascença
Morreu Olga Cardoso, aos 91 anos. Comunicadora inc(...)
Regressa também aos tempos em que era empregada num laboratório farmacêutico e se cruzava na rua com um homem de "olhar tão atrevido” e que a irritava tanto... que se casou com ele em seis meses. Esse homem era Virgílio Falco, seu marido durante 37 anos e com quem teve três filhos.
A morte de Virgílio era ainda uma ferida demasiado recente, naquele sábado de setembro de 2000. Em vários momentos da entrevista, António Sala procurou resgatar a amiga, quando a voz lhe começava a falhar, mas a conversa terminaria de forma algo abrupta, quando a emoção já impedia Olga Cardoso de prosseguir.
A antiga locutora, atriz e apresentadora morreu esta quarta-feira, aos 91 anos, na sequência de um AVC.


Quando Sala entrevistou a amiga Olga: ouça o programa emitido na Renascença em setembro de 2000
Para ouvir enquanto lê – como Olga fazia nos tempos de menina, enquanto estudava --, segue-se a transcrição desse programa, emitido na Renascença há 25 anos.
(António Sala) Olá amigos, muito bom dia. Olga Cardoso nasceu no Porto a 7 de julho de 1934. Cresceu de ouvido colado à telefonia e, como ela própria diz, a sonhar ser menina da rádio. O sonho viria a realizar-se. Curiosamente, foi graças às explicações de matemática que tudo começou. Atrapalhada com as contas que tinha que fazer no liceu, a então jovem estudante Olga Cardoso viu-se na necessidade de contratar um explicador. Teve tanta sorte que encontrou Graça Júnior, um professor de matemática que era também, imagine-se, produtor de novelas radiofónicas.
As contas ficaram para trás e a nossa Olga tinha apenas 15 anos quando se viu integrada no elenco de um radioteatro. A partir daí, nunca mais largou os microfones. “Última Hora”, com Carlos Silva, gravado nos Emissores do Norte Reunidos, foi o primeiro programa de sucesso em que participou. Os diálogos com Mena Matos foram outro sucesso de início de carreira. Eram emissões gravadas para serem transmitidas no Ultramar.
Após uma passagem pelo Rádio Clube do Norte, Olga Cardoso chegou, finalmente, à Rádio Renascença. Foi a 6 de dezembro de 1960. Entre os primeiros trabalhos que realizou na Emissora Católica, encontrava-se a leitura dos noticiários. Seguiu-se a apresentação dos primeiros espetáculos que, aliás, nunca deixou de promover. Ela diz guardar ainda hoje especiais recordações dos famosos “Espetaculares da Renascença”, ao lado de Jorge Peixoto.
Depois vieram 17 anos de “Despertar”. Foram muitos anos de trabalho em conjunto, que nenhum de nós poderá esquecer. O “Despertar” foi um fenómeno de popularidade radiofónica que ambos vivemos intensamente.
Ao longo da vida de Olga Cardoso, passou por diversas áreas de atuação na rádio, algumas delas proporcionadas pelo sucesso do “Despertar”. Fez radionovelas, apresentou programas infantis, leu poesia e até participou numa comédia no teatro Sá da Bandeira — talvez haja quem se lembre da peça “Hotel Sarilhos”, de Lopes da Almeida. Depois disso, gravou dois discos, foi a Amiga Olga e apresentou o programa TVI Shopping Center, na televisão.
Após 50 anos de carreira, continua a ser acarinhada pelos seus fãs, espalhados pelo país inteiro, e a apresentar espetáculos, que é aquilo de que mais gosta, sobretudo por ter contato direto com o público — o mesmo público que já lhe deu vários prémios e muitas, muitas alegrias.
Em 1987, Olga Cardoso recebeu a Medalha de Mérito de Prata da Cidade do Porto, cidade que viu nascer e a respeita como uma das suas figuras mais populares. Hoje, e eu digo não é sem emoção, volto a sentar-me junto ao microfone, à distância do Porto, e Olga Cardoso vai estar comigo à conversa ao longo de uma hora, só que não é o “Despertar”... Mas mesmo assim eu digo: olá, Olga, bom dia!
(Olga Cardoso) Olá António, bom dia.
É um prazer muito grande e eu quero aqui dizer que é convive a emoção que eu tenho a Olga e que a convido para este programa, onde vamos conversar de muitas coisas, mas vamos ao princípio das coisas.
Eu também com muita emoção António, que mais uma vez estou aqui aos microfones da Emissora Católica, onde trabalhei quase 40 anos; onde fui, como disseste há pouco, acarinhada pelos ouvintes de uma maneira intensa. Ainda hoje a Olga passa pela rua, ainda é reconhecida como Amiga Olga e como a Olga Cardoso do “Despertar”.
Ó Olga, vamos ao início das coisas: como é que foi a infância da Olga Cardoso? Como é que foi, em termos familiares... Como era a menina Olga?
Olha, era uma menina irrequieta, muito alegre, cantava por tudo e por nada, o rádio sempre juntinho do ouvido, mesmo quando estudava o rádio tinha de estar junto de mim também. Os meus pais ficavam admirados como é que eu conseguia estudar com a música, porque eu ia cantando também com a música que saía do rádio. E havia uma espécie de maravilha quando eu ouvia rádio e, ao mesmo tempo, uma curiosidade imensa de saber como é que era feita a rádio.
Portanto começou aí, digamos, a primeira grande atração e o bichinho da rádio...
Fazia espetáculos até, com os miúdos da minha idade, na altura, eu gostava muito de apresentar e gostava também de cantar. E dizia sempre, quando me perguntavam a tal pergunta sacramental, que ainda hoje se faz às crianças, “o que quer ser quando for grande?”: “Menina da rádio”.
Não te lembras de ter querido fazer outra coisa qualquer?
Não, era menina da rádio. E espera lá, estou-me a lembrar que pelos meus 15 anos eu dizia que não queria casar e que queria ser freira. Freira não fechada num convento, mas sim de um hospital. Não a cuidar das feridas expostas, mas daquelas feridas interiores. Mais tarde vinha a saber que eu gostava de ser era voluntária, o que sou ainda.
Olha, eras boa aluna, eras uma boa estudante ou eras cábula?
Mais cábula do que boa (risos).
Eras o estilo... Não estudavas muito, era aquilo que ouvias e fixavas?
Sim, sim, sim. Em casa não estudava muito, ouvia mais realmente nas aulas.
Qual era a disciplina favorita?
Era inglês, que não sei, mas que gostava imenso. Adorava a pronúncia inglesa. Adoro ainda hoje. E se calhar vou me meter num curso, agora mesmo.
E aquela disciplina que nós dizemos “que horror, vai-te embora”?
É a matemática, pois... Mas foi graças à matemática que eu fui a menina da rádio.
Lembras-te do teu primeiro namorico?
Lembro, era um rapaz louro... não me lembro o nome, engraçado. Aliás, ainda tenho uma carta que ele me escreveu. Engraçado, tenho, tenho. Guardei-a, porque achei muita piada àquela carta e guardei-a. Era um rapaz louro, de olhos azuis e ele perguntava muitas vezes... Começou logo por falar em casar e eu longe de mim pensar em casar, não é?
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Que idade tinhas na altura?
Para aí 16 ou coisa assim, portanto era muito nova, não é? E o rapaz já vinha assim cheio de ideias para casamento e muitas vezes fazia-me a pergunta: como é que seriam os nossos filhos, tendo ele olhos azuis e os meus verdes? Que devia ser assim uma mistura muito engraçada. E eu ficava muito apavorada, assim “meu Deus, mas ele está a falar em casar, que é isto?” E eu deixei de lhe aparecer. E ele escreveu-me uma carta muito zangando e, pronto, terminámos aí o namoro.
Olha, vamos falar da tua família. Os teus pais, os teus avós, quem foram as pessoas marcantes na tua vida, na tua infância e mesmo durante a tua vida?
Olha, a minha avó, a minha avó era muito pequenina, muito baixinha e muito cedo ficou sem dente nenhum -- e sabes que naquela altura as pessoas da aldeia ficavam sem dentes e não repunham, não é?
Infelizmente, ainda hoje é assim em muitas aldeias, não é?
É, infelizmente é assim. E eu chamava-lhe o “queixinho de Rebeca”, porque ela, como não tinha dentes, fazia aquele queixinho assim arrebitadinho... E eu achava-lhe muito a piada, porque ela era muito querida, muito pequenina, muito engraçada, uns olhos verdes também e gostava imenso de mim. Tinha mais netos, mas talvez por eu ser a neta do Porto, ela gostava imenso de mim e então vinha sempre duas vezes por ano cá à casa. Era no Natal e nos meus anos, sempre. E então sempre que vinha cá ela ficava a dormir comigo e nós fazíamos uma paródia que nem fazes ideia.
A tua avó...
Da parte da minha mãe.
Morreu há quantos anos? Já há bastante tempo?
Há muitos anos. Eu tinha 23 anos.
Mas já chegou a conhecer a menina da rádio?
Sim.
Sentia orgulho? Era uma avó vaidosa da neta que era a menina da rádio?
Sim, sim, sim. Adorava ouvir-me.
Falaste com grande entusiasmo de tua avó. Ainda não me falaste dos teus pais.
Ora bem, dos meus pais... Gostei de ambos. Mas tinha uma predileção especial pelo meu pai, não sei porquê. Ou saberei porquê: porque como o meu pai só saía de manhã e entrava à noite, e era uma alegria quando me via, porque ele adorava a filha.... Chamava-me “a minha miúda”, toda a vida, mesmo depois de casada eu era a miúda do meu pai.
E a minha mãe, quando era preciso dar uma bofetada, ela dava-me, não é? E eu ficava muito zangada com isso. E deu-me muitas. Muitas vezes, não porque eu merecesse, tenho a certeza, mas porque a minha mãe tinha assim um feitiozinho mauzinho, coitadinha. Agora eu compreendo o feitio da minha mãe. Pela vida que ela levava, difícil, e quando se zangava era eu o bode expiatório, não é? De maneira que, quando me perguntavam de quem é que eu gostava mais, eu dizia sempre do meu pai. Ele dizia-me: “porquê?”. E eu: “Porque não me bate”. (risos)
Olha, há muitos anos atrás, quando tu começaste a fazer rádio e as rádios-teatro, as radionovelas -- talvez as pessoas mais jovens hoje não entendam isso, mas o êxito das radionovelas, num tempo em que não havia televisão, era quase igual aos êxitos das telenovelas.
Exatamente, era exatamente igual.
Eu lembro-me de uma cena uma vez em Lisboa em que eu e a família -- era miúdo -- queríamos entrar num táxi e o homem estava a ouvir na altura o “Teatro Tide” e disse que enquanto não terminasse não metia ninguém no táxi.
Era assim, era.
Era uma loucura.
E eu recordo-me quando foi a “Maria”...
“Simplesmente Maria”...
... que era transmitida aqui pela Rádio Renascença, eu recordo-me que quando, por qualquer motivo, não se transmitia, os telefones não paravam.
Eram as grandes reclamações.
Era terrível.
Há uma história muito engraçada, ainda voltando ao “Teatro Tide”. Houve uma célebre personagem que era a Coxinha e a intérprete da Coxinha... tornou-se público que ela ia casar. Pronto, na vida real ela casou. E quando a senhora se casou, que era uma atriz, que era a Lourdes Santos... Ah não, aliás, era a Lili Santos. E ela vai-se casar e juntaram-se milhares de pessoas para conhecer a Coxinha. E então algumas pessoas estavam muito escandalizadas e diziam “grande aldrabona”, porque ela não é coxa. (risos)
Ela não é coxinha. (risos) É que as pessoas realmente vivem de tal maneira as novelas, não é? E as radionovelas na altura, quem fazia de mau... E eu fiz sempre de má...
Porquê?
Sei lá, não sei.
Tu que és uma pessoa boa, por que é que fazias de má?
Olha, não sei, porque a minha voz era boa, era forte e dava para os gritos e para os berros e para essa coisa toda.
Fazer a fita.
É, exatamente. E, portanto, eu era sempre a má. E ai de mim que as pessoas lá for... Graças a Deus que não me conheciam, não é? Porque eu...
Se não, chegavam-te a roupa ao pelo... (risos)
Ah, chegavam, chegavam. Porque eu, uma ocasião, ia na rua, eu estava grávida do meu primeiro filho, do Gi. Iam duas senhoras à minha frente, na rua, a conversar exatamente sobre o teatro do dia anterior. E, então, diziam o pior de mim. Eu digo: “Olha, se elas sabem que sou eu, é bonito”.
Ora bem, vamos às escolhas musicais da Olga. Querida Olga, a primeira escolha é de Andrea Bocelli, “Con Te Partirò”. Porquê este tema?
Olha, era a minha música, a minha e do Virgílio.
Vamos ouvir.
Vamos.
[Música]
Ele era um bocadinho atrevidote. Quando viemos do cinema já me queria meter o braço. E, olha, passados seis meses estávamos casados.
Olga... Enfim, é incontornável não falar nisso. Eu tive o privilégio de lidar durante muito tempo com o casal Olga e Virgílio. Posso testemunhar a ligação fortíssima que existia entre este casal e o amor que os uniu ao longo da vida. E pude constatar que era um dos casais mais unidos e mais queridos que eu tive o privilégio de poder conhecer. Portanto, imagino bem o quanto tens sofrido e a saudade que a partida do Virgílio provocou na tua vida.
Sinto-me perdida.
Vocês conheceram-se há quantos anos?
Há 38. Estivemos 37 casados.
Daí resultaram 3 lindos filhos e tens uma neta lindíssima. Parece que está aí no estúdio ao pé de ti.
Está do lá de lá.
Olga, o Virgílio era uma pessoa muito bem-disposta, era uma pessoa fantástica.
Era um bom companheiro.
De maneira que eu estou convencido que ele, nesta altura, gostaria que nós estivéssemos bem mais alegres.
Eu acho que sim.
Vamos voltar um bocadinho atrás no tempo. Ainda te recordas como é que conheceste o Virgílio?
Foi de uma forma engraçada. Eu era empregada num laboratório e o Virgílio era empregado na Unifa, que também tinha produtos farmacêuticos. E o Virgílio era que tinha de falar para os laboratórios a pedir produtos desses mesmos laboratórios. E eu, no meu laboratório, é que atendia os pedidos. E começámos a ouvir-nos um ao outro e era o Sr. Virgílio e a minha Olga, o Sr. Virgílio e a minha Olga.
Só não sabíamos é que todos os dias nós passávamos um pelo outro, à hora do almoço, e ele dizia, para o colega com quem ia, dizia assim: “aquela moça é jeitosa, um dia peço-lhe namoro”. Depois é que soube as coisas todas, naturalmente. E eu, quando passava por ele, achava que tinha um olhar tão atrevido que me irritava. Mas sem saber que era o Sr. Virgílio e ele sem saber que era a menina Olga.
Um dia qualquer, ele disse a um colega: “Olha lá, eu queria saber quem era a menina Olga do Java, ela é jeitosa? Diz ele: "Tu conheces! Passas por ela todos os dias!”. “Passo por ela todos os dias? Ai, hoje vais-me dizer quem é?”
E então, nesse dia, ele soube quem era a menina Olga do Jaba. E foi ao Jaba, conhecer-me pessoalmente. E eu disse: “Ai o Sr. é que é o Sr. Virgílio? Olha, passo todos os dias por si, nem sabia e tal...” E daí, começámos.
Mas não começaram logo a namorar?
Olha, foi praticamente logo, é engraçado.
Atar e pôr ao fumeiro.
Foi. Ele ficou-me a conhecer, isto, salvo erro, foi numa sexta-feira, sábado eu tinha serviço aqui na Renascença de tarde... e tinha domingo também. E ele perguntou-me se eu queria ir ao cinema com ele no domingo. E a minha mãe e o meu pai não deixavam, não é? Mas eu disse que estava na Renascença e aproveitei uma altura em que havia o programa gravado e fui mesmo ao cinema, não é?
Agora um teste de memória: recordas que filme é que viram?
Sim, “Ao Sul do Pacífico”.
“Ao Sul do Pacífico”?
Sim, eu já tinha visto e tinha gostado e por coincidência ele tinha visto também. Ficou um bocadinho aborrecido quando eu lhe disse que queria ver aquele filme, porque ele também já tinha visto.
Mas o interessante, na altura, não era muito ver o filme...
Pois não, mas também passou o filme muito direitinho, atenção. Que eu cruzei muito as mãos e não queria que me tocasse. Ele era um bocadinho atrevidote. Quando viemos do cinema já me queria meter o braço. E eu muito aflita a mexer o braço para um lado e para o outro, para ele não meter o braço. E, olha, começou assim, pronto. E passados seis meses estávamos casados.
Estiveram casados quantos anos?
Trinta e sete. Trinta e sete anos.
Bem, vamos voltar atrás no tempo, Olga. Vamos para os rádios-teatro. Fazias normalmente os papéis de má.
Era.
Recordas-te de alguma radionovela que te tenha marcado e que tenha sido particularmente engraçada?
Olha, a que me recordo mais engraçada foi a que eu fiz o papel de boa. Nunca mais me esquecei o título. As outras varreu-se-me tudo. E esta fixei. Era “Farrapos e Lantejoulas”. Em que eu era realmente uma desgraçadinha e perdida de amores. E era um papel muito forte. Era realmente forte. Daqueles papéis de puxar pela pessoa e chorar a sério e tudo. E eu fiz aquilo tão bem que realmente gostei de ter feito de boa.
Olha, a 6 de dezembro de 1960 tu ingressas na Rádio Renascença.
É verdade.
Começas por ler noticiários. É engraçado, porque as conceções... Quanto eu te conheci, radiofonicamente, já não fazias isso. E hoje tenho alguma dificuldade em ouvir a Olga Cardoso – que, fundamentalmente, acho uma pessoa muito próxima, muito afetiva -- a ler o noticiário. Porque normalmente requer um tom mais impessoal, mais narrativo.
Mas diziam que eu tinha. E eu gostava imenso de ler o noticiário. Aliás, li muitas... Às 10 horas, como é que se chamava?
Notas de Abertura?
Não. Era com o José da Silva. E era aquele noticiário das 10h.
Sim.
Eu gostava imenso. Éramos os dois que líamos, com um ritmo fantástico.
Ele fazia comentários políticos também, na altura.
Sim, e líamos notícias, também, os dois. Era um dos noticiários que eu gostava. Mas li muito noticiário. Não só esse. À noite, de manhã, à tarde. Eu lia também noticiários. Na altura nós fazíamos tudo, não é?
Exato.
Aliás, nós, locutores, é que preparávamos o noticiário.
Aqui, na Renascença, eu comecei por fazer também... recortar do jornal, não é? E depois, consoante o interesse da notícia e a importância, nós colocávamos nos papeizinhos e depois vínhamos ler o noticiário. Era assim.
Os jornalistas preparavas as coisas e nós liamos.
Não, espera lá. Nós, locutores, fazíamos tudo!
Eu já sou de uma fase em que os jornalistas preparavam as notícias e nós éramos os papagaios da leitura.
Não, mas nós não. Aqui, na Renascença, eu comecei por fazer também... recortar do jornal, não é? E depois, consoante o interesse da notícia e a importância, nós colocávamos nos papeizinhos e depois vínhamos ler o noticiário. Era assim.
Olha, e pode-se dizer que a rádio dos anos 50, que tu viveste ainda, e dos anos 60, comparativamente com a de hoje, é uma diferença incrível.
É diferente. Muito diferente.
Como é que olhas para a rádio de hoje, para estas rádios temáticas que existem? Uma rádio só para isto, uma rádio só para aquilo, uma rádio só para a informação, uma rádio para o desporto, uma rádio para a música rock, uma rádio para isto. São poucas as rádios generalistas já. Aqui a nossa é um exemplo, por exemplo.
Sei lá, olha, não sei. Eu ouço muito pouco rádio. Já na altura em que fazia rádio, houve uma altura em que eu parei de ouvir rádio. Não sei porquê, parei de ouvir rádio. E ouço muito pouco rádio. Não estou dentro do assunto. Só que acho... Por exemplo, na altura em que eu entrei para a rádio, era necessário saber-se colocar a voz, ter uma boa voz, uma boa dicção.
São predicados que hoje...
Hoje não interessa nada. Nada, não é? Porque ouve-se vozes horríveis, com dicções horríveis.
Eu acho que interessa. Eu acho que interessa, mas...
É.
Eu no outro dia numa rádio local ouvi um senhor, e com devido respeito, que era gago. Eu achei muita piada. No meu tempo isto não era permitido. Mas depois eu percebi por que é que aquele senhor estava... Ele era extremamente comunicativo, apesar disso. De maneira que eu acho que, se calhar, antigamente olhava-se demasiado para o lado estético, para a beleza, e descuravam-se outros lados. Hoje em dia, se calhar, olham-se por outras coisas.
Sim, sim, sim.
Não ouves rádio. E vês televisão, não?
Vejo. Nem que não esteja sentada ali assim, no sofá, a olhar para a televisão,
é uma das coisas que ligo de imediato a televisão, para me sentir acompanhada. Ouço qualquer coisa a falar junto de mim e, de vez em quando, venho espreitar a ver o que é que se passa.
Qual é o teu olhar para esta televisão de hoje em dia? De guerra desenfreada de audiências, de Big Brothers para a conquista de tudo, deste voyeurismo e de se fazer tudo para conseguir uns minutos de glória?
Acho horrível. E para nós, telespectadores, acho que é muitíssimo mau. Porque muitas das vezes, e isso acontece nos três canais, o tema é mais ou menos o mesmo e o telespectador quer ver um e quer ver o outro e quer ver o outro e acaba por não ver nada e fica uma noite estragada. Acho que as concorrências, audiências... isso estraga um pouco a qualidade.
Olha, vamos misturando a conversa entre a rádio e a televisão, radionovelas, a tua vida, a tua história... Há bocado falámos da tua avó, falámos dos teus pais e falámos do nosso saudoso Virgílio. Gostava de falar da herança fantástica que ele deixou, que foram três filhos, que são a tua alegria, e uma neta extraordinária. Fala-me dos teus filhos. São parecidos com quem, com quê? Herdaram o quê de quem? Como é que eles são?
Olha, o mais velho herdou a inteligência do pai, a vontade de ler e de saber tudo, como o Virgílio também tinha. O Virgílio em jovem não teve a possibilidade de estudar, não é? O filho teve, graças a Deus, está agora a fazer doutoramento, vai agora para a América, em janeiro, para fazer doutoramento. E realmente é um rapaz só virado para o estudo. É enólogo, gosta imenso de estar em laboratório. Eu acho que foi um bocadinho do pai que saiu para esse filho.
A Paula... a Paula é mais eu.
Deixa-me dar daqui um beijo à minha filhada.
Ela vai recebê-lo com carinho também.
Eu sei.
A Paula é mais para a minha parte: é alegre, tem a gargalhada da mãe, dizem, mas tem mais personalidade que a mãe.
O que é que queres dizer com isso?
Ela quando entende que deve fazer isto, faz, quando entende que não deve fazer, não faz. E a mãe às vezes vacila.
A mãe é mais mole, é?
Fui sempre.
É um dos teus lados bons.
Eu acho que é um dos meus lados infantis, porque eu acho que ainda hoje sou muito infantil.
Pois, continua... Mas deixa viver em ti essa menina que há lá dentro, que isso é muito bom.
É, mas é engraçado que eu levo muito as coisas... não é para a brincadeira, é para a facilidade.
Eu acho que tu olhas para elas com a pureza das crianças e isso é bom.
É isso, portanto, continuo assim. O Pedro foi buscar essa parte de mim, é muito infantil.
O Pedro tem uma grande qualidade, é bem benfiquista. (risos)
Pois. (risos)
Não saiu à mãe.
Não, não.
Os outros saíram...
Os outros não saíram também, porque a Paula não tem nada a ver com o futebol e o mais velho também não. Não quer nem saber do futebol. Só o mais novo é que quis saber do futebol. De maneira que, pronto, são três filhos diferentes entre si, mas muito iguais.
Mas o encanto dos teus olhos, nesta altura, é a tua neta. Já agora diz-me uma coisa, porque eu não sou avô ainda.
Então?
É verdade essa história que se diz que nós gostamos quase mais dos netos do que se gosta dos filhos?
Ora bem, não é gostar mais.
É um gostar diferente, não é?
É diferente. É o termos também uma vida muito mais pacata e termos todo o tempo do mundo para os netos. Na altura em que nós temos os nossos filhos, não temos o tempo do mundo para os filhos. Andamos preocupadíssimos com o futuro deles, andamos a trabalhar de manhã à noite e, portanto, há muito pouco tempo com os filhos. Eu tenho muita pena de não ter tido mais tempo com os meus filhos. Então, agora estou a ter o tempo todo para a minha neta.
Muito bem. Vamos para a música. Nova escolha da nossa convidada, a nossa querida Olga Cardoso. Escolheste Amália. Amália... só ela em si é uma forte razão, não é?
É, não há dúvida.
Mas, mesmo assim, Amália e “Lágrima” porquê?
Ora bem, porque realmente, a Amália faleceu...
Faz no dia 6 do próximo mês de Outubro um ano.
O Virgílio faleceu... Portanto, esta “Lágrima” vai-me dizer muito.
[Música]
António Sala
A "amiga Olga" era dona de "uma voz real, sorriso e gargalhada cativantes"
À Renascença, António Sala recorda que, apesar da (...)
Olga Cardoso, nos estúdios do Porto, é a nossa convidada no programa de hoje. A continuação de um bom sábado e uma boa manhã. Por falar em manhã, tive o grato prazer, esse prazer incrível de viver durante quase duas décadas as melhores manhãs de sempre, mais alegres, mais humanas, mais sorridentes da rádio portuguesa, encontrando na Olga a companheira ideal e encontrando aquela que -- peço desculpa, não quero chocar ninguém, nem quero chocar pessoas com quem trabalhei ao longo dos anos --, mas foi indiscutivelmente a melhor companheira radiofónica e a melhor companheira matinal que eu encontrei ao longo da minha carreira.
Eu posso dizer o mesmo.
— Aquele conceito tradicional de uma rádio muito arrumadinha, feita de gravata... nós encarregámo-nos de dar cabo disso, não foi?
— Foi, arregaçámos mangas e anda para a frente.
Ah, que bom... De maneira que hoje não é sem uma viva emoção que nós recordamos esses tempos e ela continua nos estúdios do Porto, eu aqui em Lisboa...
É verdade.
... Embora num horário diferente, num programa de características diferentes, a dialogarmos um bocadinho. Olga, cada um de nós sabe o que pensa, mas talvez seja bom seres tu a dizer ao público: o “Despertar” foi, realmente, qualquer coisa que nos marcou de uma forma muito profunda, não apenas profissionalmente, mas humanamente.
Ai, sem dúvida nenhuma. Foi realmente o programa que fez virar a rádio, acho eu. Modificou tudo, os ouvintes eram familiares nossos. Nós sentíamos isso, do outro lado. Fizemos realmente uma família enorme, não só em Portugal, como também no estrangeiro, onde éramos ouvidos.
É verdade. Foram grandes emoções que nós aqui vivemos.
Enormes...
Acima de tudo, aquele conceito tradicional de uma rádio muito arrumadinha, feita de gravata... nós encarregámo-nos de dar cabo disso, não foi?
Foi, arregaçámos mangas e anda para a frente. Olha, uma coisa que eu não cheguei a fazer, que tive muita pena: descer de paraquedas.
Pois, eu também não, muito obrigado.
Ainda hoje penso nisso.
Eu nem com cuequinha de plástico fazia isso, atenção, nem de fralda. (risos)
Eu tinha feito. (risos)
Não, eu não. Olha, mas por exemplo, no outro dia, quando aconteceu aquela tragédia horrível do submarino russo, na altura lembrei-me da emissão que fizemos...
É verdade...
Tu não foste, mas eu fui, num submarino em que andámos a 300 metros de profundidade durante muito tempo -- e senti um arrepio.
Claro...
Se fosse agora, “obrigado, vão vocês, mas eu não vou”. Mas foram momentos muito bonitos.
Ai, foram, vivemos coisas lindíssimas.
Tudo tem o seu tempo e as coisas depois, pronto, há sempre um terminar para tudo.
Sim.
Nós perdíamo-nos a rir e às vezes, quando passávamos música e íamos começar a falar, continuávamos a rir, não é?
Olha, tiveste uma etapa também, que foi uma etapa televisiva. Apesar de tudo, o que é que te marcou mais, a rádio ou a televisão? Apesar do mediatismo todo da televisão.
Naturalmente que a rádio, não é? A rádio foram 50 anos, enquanto que a televisão foram dois anos. O que é uma diferença muito grande. E a rádio era, realmente, a minha paixão. Naturalmente que foi a rádio que me marcou mais. Mas quero dizer também que gostei imenso de fazer televisão. Tive pena de ter sido tão tarde, comecei com 58 anos a fazer televisão...
Eu ainda me recordo como se fosse hoje o dia do convite, que foi em plena antena, feito pelo José Nuno Martins...
No despertar.
No despertar. Ele tinha-me confidenciado, tinha-me telefonado na noite anterior para casa e tinha-me dito: “Amanhã” -- porque ele era o nosso convidado no dia seguinte -- “eu vou fazer um convite assim e assim, só tenho medo de uma coisa, achas que ela diz que não?” E eu disse: "Não, acho que ela diz que sim”. "É porque não estou para levar uma tampa em público.” E fez o convite e foi realmente engraçadíssimo.
Bom, mas agora vamos dizer uma coisa, ó António... Deixa lá, já passou o tempo. Tu tinhas-me telefonado no dia anterior também.
Mas isso agora não era para dizer! (risos)
(risos)
Mas isso agora não era para dizer! Bem, vamos à música. Não, eu percebo a posição do Zé Nuno, era uma posição extremamente incómoda. Imagina que tu dizias “É giro, mas não é uma coisa que eu queira fazer”...
Era aborrecido, realmente.
Era aborrecido. Há situações engraçadas e, ao longo dos anos, de certeza que aconteceram muitas e muitas boas. Recordas-te assim de uma história, de uma coisa qualquer que tenha sido muito engraçada e que te tenha marcado?
Sei lá, foram tantas.
Foram tantas, tantas, tantas.
Foram tantas, tantas que nós perdíamo-nos a rir e às vezes, quando passávamos música e íamos começar a falar, continuávamos a rir, não é? Não me recordo assim, António, de uma em especial, mas sei que foram muitas.
Muitas e boas.
Sim, sem dúvida.
Muitas e boas. Há uma cena engraçadíssima que eu recordo em que tu... Durante uns tempos tu andavas muito cansada. E andavas muito cansada por um simples facto: é que fazias de manhã o programa e à noite estavas no Sá da Bandeira a interpretar o “Hotel Sarilhos”, que era uma comédia do Lopes de Almeida. Tu fazias o papel de...
Condessa. Só com a "mania da condessa", porque não tinha dinheiro nenhum, não é?
Uma condessa tesa.
Exato. (risos)
Como é pisar o palco... E eu digo isto porque para mim é uma frustração, era o que eu mais gostava de ter sido era ator -- e ainda bem que não fui, porque seria um canastrão... Mas o estar em palco, a representar um papel, a viver um personagem qualquer e ter o público pela frente deve ser emocionante...
É realmente emocionante, mas não me custou absolutamente nada, porque eu estava muito habituada ao palco.
Se fosse eu a fazer o papel, também não me custava nada... É assim, condessa... Marquês não era, mas teso já era, já não faltava tudo. Era só a meia representação.
(risos) Não me custou absolutamente nada. Uma das coisas que me metia medo... Foram vários anos em que me andaram a convidar, e eu sempre a dizer que não podia, que não gostava, mas não era não gostar... Eu tinha medo de não ser capaz de ensaiar e de saber o papel todo. Porque eu olhava para os artistas no palco e dizia assim: “Meu Deus, mas como é que é capaz, aquele artista, de saber aquilo tudo? Eu não era capaz.”
Metias muitas buchas ou sabias o teu papel?
Não, sabia, sabia.
O ponto ajuda mesmo?
Pouco, pouco sim. Porque nos diálogos, e um a falar e o outro a falar... O ponto às vezes não se ouve, não é? Mas às vezes ajuda, ajuda muito até... Eu acho que sim, ajuda muito. Pode dar uma paragem assim, sem querer, e o ponto, tumba: diz, e nós continuamos.
Eu lembro-me uma vez, com o Paulo Renato, já há muitos anos, numa peça no Teatro Monumental, em que ele nitidamente perdeu-se no papel. E via-se que ele estava a meter buchas e tal... E, às duas por três, começou-se a perceber que o ponto lhe estaria a dizer. Mas ele parou, olhou para o ponto e disse: “Eh pá, fala mais alto”. (risos) São situações muito engraçadas.
São, são... (risos)
Olha, vamos voltar à música, nova escolha da nossa convidada, a Olga Cardoso. Um senhor, infelizmente já desaparecido, mas nunca desaparecido, da nossa paixão, dos nossos sentidos e dos nossos ouvidos: Frank Sinatra. “My Way” tem alguma história especial para ti?
Tem, tem, e eu acho muita graça a esta canção e o porquê desta canção. Porque a minha neta, ainda muito pequenina... Ela agora está com oito anos, mas teria para aí quatro ou coisa assim, entrou no carro dos avós e estava a tocar o “My Way”. E ela ficou encantada, começou a trautear e ela toda contente a ouvir aquilo. E depois passou, sempre que entrava no carro do avô, a pedir-lhe o “My Way”.
Então olha, como ela está aí, não está dentro do carro, mas para ela e para aqueles que vão no carro e que estão em qualquer circunstância... Uma escolha da Olga Cardoso, Sinatra em “My Way”.
[Música]
Uma das canções preferidas da minha convidada de hoje, Olga Cardoso. E também uma das canções preferidas da sua neta.
Ela estava ali deliciada.
Estamos nos minutos finais do nosso programa, isto passa muito depressa...
É verdade...
Não são três horas de “Despertar”, é uma hora apenas... De maneira que isto voou num instantinho.
É um instantinho.
E os discos? Tu gravaste dois discos, com canções bonitas do Tozé Brito e do José Cid. Foi uma experiência agradável? Repetirias hoje? Ou sentes que, hoje, cantas mais no chuveiro?
Nem aí. Hoje já não faria mais nada. Sinto-me perdida, neste momento, não sei ainda bem o que vou fazer.
Como é que têm sido os teus dias, o teu dia a dia?
Difíceis, muito difíceis. Vale-me a companhia da minha neta, que tem estado sempre comigo estes dias, até que vá para a escola.
Olga, estamos quase no final e eu ainda queria falar de outras coisas. O público -- e essa é a melhor homenagem que o artista pode ter -- tem-te reconhecido e tem-te oferecido o seu calor, o seu carinho, a sua ternura. Mas também há instituições que o têm feito, nomeadamente, por exemplo, a cidade do Porto, a tua cidade, que tu tanto amas e defendes. Reconheceu-te esse amor e os serviços prestados à própria cidade e galardoou-te com a medalha de mérito de prata da cidade. Foi um momento bonito, foi um momento marcante na tua vida...
Foi, foi realmente. Eu acho que sim. Não sei porque é que mereci, mas na altura senti-me muito feliz com esta medalha de prata de mérito da cidade do Porto.
Uma última questão que eu te queria perguntar é esta: com o passar dos anos e com as etapas diferentes que a nossa vida vai tendo, como é que é... como é que se reage, como é que se vive depois, quando se entra nesse capítulo chamado “reforma”? Para uns é uma coisa muito ansiada, é o começar de uma nova fase de vida, mais tranquila, em que já se fez tanta coisa que agora vamos tirar partido da vida e descansar; para outros não, é extremamente frustrante porque se abandona, ainda com pleno fulgor, muitas coisas que se podem fazer. No teu caso concreto, a palavra “reforma” que significado é que tem e que tem tido na tua vida, nos últimos tempos?
Neste momento é um significado muito triste. Na altura em que eu estava para reformar-me, eu andava feliz e contente, até porque me reformei e o Virgílio reformou-se logo a seguir... e nós tínhamos muitos sonhos, para sonhar em conjunto. Hoje sinto que vim para a reforma para a tristeza.
Bem, vamos ficar por aqui, é o final do nosso programa.
Vamos.
Gostei muito de ter aqui.
Também eu, António, gostei de estar aqui.
Eu gostaria que este programa não terminasse desta forma, mas estou a ver que não consigo terminar de outra. Já agora, uma revelação que eu acho que é curiosa: nós que trabalhámos quase duas décadas e que ao microfone nunca nos tratámos por tu...
É verdade...
Pessoalmente sempre o fizemos, nunca nos tratámos de outra maneira, mas ao microfone, durante quase 20 anos...
Foi sempre “você”...
“Você, Olga” e “você, António”...
É verdade...
E hoje, numa conversa cheia de verdade, deixámos transparecer aquilo que é, que só em rádio é que nos tratámos assim, na vida real sempre...
O “tu” apareceu.
De maneira que... deixo-te um grande beijo.
Beijinho também para ti.
E muito obrigado por teres vindo. Aliás, volta sempre, que a casa é tua.
E um grande xi coração aos ouvintes, também. Muito obrigada por tudo.
Olga Cardoso, a nossa convidada de hoje, num programa que teve técnica de António Centeno, Marília Meireles e Rui Ferraz. Textos de apoio da Ana Marta Domingos, produção de Luísa Espírito Santo. A convidada foi Olga Cardoso. Eu despeço-me até de hoje a oito dias, se Deus quiser... Deixando-vos no ar uma última escolha da Olga... Ela escolheu a Aula dos Namorados e aquilo que toda a vida fez em relação aos ouvintes do “Despertar”: nunca começou nem terminou um programa que não soltasse o seu beijo e a sua gargalhada.
[Música]
- Noticiário das 8h
- 13 mai, 2026
























