Reportagem
Uma (ou duas) prendas para cada um: é assim o Natal destas famílias
24 dez, 2025 - 09:00 • Ana Catarina André
Para evitar o consumismo e o desperdício, há quem limite o número de ofertas nesta quadra festiva – mesmo para as crianças. Por trás desta decisão, está a busca de um estilo de vida mais sustentável, mas também uma opção assente na fé e na celebração do nascimento de Jesus.
A cada Natal que passa, Madalena Caramona procura comprar menos e reutilizar mais. Há alguns anos, com o marido e os familiares mais próximos decidiu que deixariam de oferecer um presente a cada pessoa, procurando viver esta quadra de forma mais simples e com menos desperdício. “Adotámos um modelo que se faz, muitas vezes, nas empresas: o 'Amigo Secreto'. Cada um de nós dá [uma prenda] a uma só pessoa”, diz, contando que é, através de um sorteio, que determinam quem irá presentear quem.
Já segue a Informação da Renascença no WhatsApp? É só clicar aqui
Aos 43 anos, a tradutora considera que “não faz sentido” gastar dinheiro “em coisas repetidas que as pessoas já têm, que não gostam ou que têm de trocar”. “Enchemos as lojas, as casas e as árvores de Natal com coisas que não fazem falta”, diz, lembrando “o custo que cada compra tem para o planeta”.
“Cada coisa que se compra, mesmo que seja barata para nós, naquele momento, tem sempre um custo associado, e muitas vezes esse custo é terrível, porque as condições de trabalho são más. São produtos tóxicos que fazem mal às pessoas e às crianças, em particular. São brinquedos que se despedaçam em não sei quantos plásticos que, eventualmente, vão parar ao mar e matam os peixinhos todos”.
Enchemos as lojas, as casas e as árvores de Natal com coisas que não fazem falta
A opção de Madalena Caramona e da sua família continua a ser pouco comum. Um estudo da DECO Proteste concluiu que em 2025, entre prendas, viagens, alimentação e outras despesas, cada português planeia gastar nesta época festiva 515 euros. São mais 63 euros do que o ano passado.
Para evitar que esta tendência se instale na sua família, a tradutora procura sensibilizar os dois filhos, desde pequenos, “para o impacto das escolhas de cada um”. “Além de fazermos doações do que não usamos, fomentamos a economia circular. Compramos usado ou vendemos o que já temos, e à medida que eles vão crescendo e que os brinquedos deixam de ser adequados para a idade, passamos a amigos com filhos mais pequenos ou vendemos em plataformas como a Vinted, a Olx, ou a Wallapop”, refere.
“Gosto de receber uma coisa só. Se receber várias, já não é assim um espanto”
Aos 8 anos, a filha mais velha de Madalena Caramona – Julieta – está habituada a receber apenas uma prenda, ao contrário de muitos dos seus amigos. “Gosto de receber uma coisa só”, diz, confiante. “Se receber várias, já não é assim um espanto”, afirma a menina que frequenta o 3º ano de escolaridade. “Um presente é assim uma memória. Alguém está a dar-te uma coisa e não interessa se é muito bom, se é muito caro, muito barato. Não interessa se são muitas coisas, se é uma coisa. É uma coisa material boa para nós e temos de usá-la com carinho e amor”.
O Natal é, nas suas palavras, “uma coisa boa”. “Podemos estar todos juntos, partilhar ideias, partilhar memórias e falar uns com os outros”, refere. “Há pessoas que se conhecem, há pessoas que não se veem há muito tempo. Há tradições antigas”, enumera, sorridente.
Este ano, quer apenas que lhe ofereçam livros. “Ando a ler uma coleção que se chama ‘Coelho Vs Macaco’ e o ‘Diário de um Banana’”, conta, dizendo que gosta muito da “tradição de por mini chocolates na árvore de Natal”. E revela: “Como às escondidas e para não saberem que acabou, abro o chocolate por baixo, tiro e fecho. E fica com o formato do chocolate, sem ele estar lá dentro”.
“Jesus baseava-se muito no essencial”
Além do combate ao desperdício e ao “consumismo desenfreado”, Ana Campos e o marido, Pedro Brás, procuram limitar a quantidade de prendas que cada um dos seus quatro filhos, com idades entre os nove e os dois anos, recebe, porque a fé também lhes faz esse convite.
“Jesus baseava-se muito no essencial”, lembra Ana, de 41 anos. “Estamos aqui para partilhar com os outros e não para acumular. Jesus, a comunidade, estarmos juntos e em família isso é que temos de valorizar”, defende.
Para o marido, Pedro Brás, trata-se de “perceber o que realmente faz falta”. “Também os tentamos mentalizar um bocadinho para isto: nós temos muito e não precisamos de tanto. Vamos trabalhando isto e limitando algumas coisas que seriam, no nosso entendimento, excessivas para lhes incutirmos esta consciência”, refere o bancário, de 42 anos.
Normalmente, cada um dos seus quatro filhos (são dois rapazes e duas raparigas) pede apenas um presente. “Eles criam a sua própria música, e nessa música mudam que coisa essa criança quer. Para o Elias é não sei o quê, para a Chiara é não sei que mais, e assim sucessivamente”, conta a mãe, Ana Campos, que trabalha como agile coach.
Desde que os filhos nasceram, Ana Campos e Pedro Brás decidiram que a abertura dos embrulhos se faria no Dia de Reis, lembrando assim as ofertas que os Reis magos fizeram ao Menino Jesus, nesta ocasião. A exceção é a troca de prendas entre primos que é feita no dia 24. “Em vez de todos os primos darem a todos os primos, fazemos amigo secreto”, diz Ana Campos, contando, ainda, que sempre que cada um dos filhos recebe um brinquedo novo, é incentivado a escolher alguma coisa que já tenha para dar a outra criança. “Queremos incentivá-los a não acumular coisas.”
- Noticiário das 16h
- 17 mai, 2026












