Ouvir
  • Noticiário das 6h
  • 10 fev, 2026
A+ / A-

"Consumo Obrigatório"

A vida noturna de Virgílio Castelo deu um livro (com uma história de racismo)

04 fev, 2026 - 22:51 • Maria João Costa

É uma espécie de autobiografia. Virgílio Castelo reúne em livro as suas memórias, dos 13 aos 49 anos. É um retrato da noite. Cada capítulo tem o nome de um espaço de diversão noturna, uma “boîte” como lhe chama.

A+ / A-

Hoje, reconhece que já não sabe quais são os “códigos” da vida noturna, até porque não sai “de uma maneira sistemática desde 2002”. O ator Virgílio Castelo tem agora 72 anos e uma longa história de saídas à noite que resolveu pôr em livro.

“Consumo Obrigatório” (ed. Guerra e Paz) é uma obra que reúne, capítulo a capítulo, um retrato da vida noturna de Lisboa, e não só, desde os anos 1970. São “contos” como lhe chama o ator que escreveu recentemente, mergulhando nas suas memórias.

Já segue a Informação da Renascença no WhatsApp? É só clicar aqui

Há, contudo, uma exceção, um capítulo onde conta uma das suas memórias mais antigas quando saía à noite, na sua juventude, com um vizinho de origem cabo-verdiana. Recorda as dificuldades que o amigo tinha em entrar numa “boîte” como lhe chama.

Em entrevista ao Ensaio Geral, da Renascença, Virgílio Castelo recorda: “Era muito miúdo para perceber que havia uma atitude de racismo” e que isso impedia o seu amigo, antes do 25 de Abril de entrar nos espaços de diversão noturna.


Escreve no livro que os artistas, aconteça o que acontecer, depois do teatro vão beber um copo. Nem uma revolução os pára. É um pouco esse o retrato que apresenta neste livro “Consumo Obrigatório”?

É um bocadinho a ideia de “show must go on”. Aconteça o que acontecer, a tribo dos atores tem sempre o mesmo comportamento, um pouco por todo o mundo.

Talvez porque o teatro é uma coisa que é feita à noite e acaba tarde, a ideia de ir beber um copo a seguir é uma coisa que é universal.

Vai-se beber, vai-se comer, vai-se dançar, porque a tensão que se acumulou durante o espetáculo precisa depois de uma qualquer sublimação.

É por isso que eu digo que, aconteça o que acontecer, os atores têm sempre essa necessidade de repor a energia que, de algum modo, foi dispensada durante o espetáculo.

Isso acontece através da bebida, da comida, do sexo ou da dança. Acontece por uma atividade física que julgo que compensa a atividade anímica, psíquica e física que se dispõe durante o espetáculo.

A noite é uma coisa que me fascina

“Consumo Obrigatório” é um livro onde se expõe? É nesse sentido autobiográfico?

Sim. Acho que isso acaba por ser um pouco autobiográfico. Embora não foi essa a intenção inicial. A intenção era escrever sobre a noite, porque a noite é uma coisa que me fascina. Eu acho que é uma parte da vida pela qual todos nós passámos, ou quase todos, num determinado momento, e sobre a qual se fala pouco e se escreve ainda menos. Tinha vontade de escrever sobre a noite, para falar sobre a noite e o mistério que a noite encerra.

Mas, o resultado saiu um bocadinho diferente, porque senti necessidade de enquadrar, em termos temporais, o que acontecia numa boîte dos anos 60, 70, 80 ou 90.

Para situar o leitor atual nessa outra época, achei que o melhor recurso era falar do meu trabalho como ator, que são coisas relativamente visíveis. Uma peça de teatro, um filme, uma série de televisão, uma telenovela que foi vista por mais pessoas e poderiam situar aquele projeto naquela época.

Assim, poderiam perceber melhor o espírito de cada uma das boîtes ou das discotecas. Isso acabou por me levar a falar não só de mim, mas também das pessoas que me foram acompanhando ao longo da vida.

Nessa medida, acaba por ser o possível retrato, de uma atitude de toda uma geração, da mística do “sex, drugs and rock and rol” - que é uma coisa que aconteceu no mundo inteiro nos anos 60 e em Portugal aconteceu 10 anos depois. É esta geração de pessoas que tinham 20 anos nos anos 70 do século passado e têm agora 70 anos. É um retrato dessa geração que aparece neste meu “Consumo Obrigatório”.

Eu conseguia entrar, mas o meu amigo cabo-verdiano não conseguia. E durante anos não percebi porquê que isso acontecia

Cada capítulo tem um nome de cada um dos espaços noturnos. São textos que foi escrevendo ao longo do tempo?

Não. O único conto que foi escrito há muito tempo foi o do “Ad Lib”, porque tinha uma circunstância que me impressionou na altura.

Eu era muito miúdo, tinha 15 anos quando essa história se passou, e havia uma dificuldade de eu e o meu amigo, que morava no andar por cima do meu, entrarmos na boîte. Ou melhor, eu conseguia entrar, mas ele não conseguia. E durante anos não percebi isso, não percebi porquê que isso acontecia.

Só percebi isso depois do 25 de Abril, porque o meu amigo era cabo-verdiano, mas para mim a questão racista não existia nessa altura. Era muito miúdo para perceber que havia uma atitude de racismo, portanto, não o deixavam entrar.

Então, esse conto, foi o que motivou depois todos os outros. Esse conto estava escrito há muito tempo. Agora, os outros, estas memórias, foram todas recuperadas nestes últimos dois ou três anos.

Mas aqui reúne exemplos da vida noturna, sobretudo de Lisboa, mas tem também o Porto e algumas cidades estrangeiras. Era uma noite muito diferente?

A diferença estará obviamente na parte material da coisa, ou seja, em Paris, ou em Monte Carlo, ou no Rio de Janeiro, havia uma riqueza que não era comparável à nossa, tanto do ponto de vista das instalações, como do poder económico das pessoas. Aí a diferença era grande.

Agora, digamos que a maneira de funcionar na noite é igual no mundo inteiro, pelo menos na minha experiência. Os rituais, as aproximações, os afastamentos, as tentativas de sedução, as repulsas, tudo isso me parece igual em Paris, Londres, Nova Iorque, Lisboa, Albufeira ou no Porto.

Se tivesse que escrever um capítulos sobre a noite em 2026, o que escreveria?

Agora não sei, porque não faço ideia como é que a noite funciona agora.

Presumo que a motivação principal da noite que é o convívio que tem como base uma procura sexual, acho que provavelmente será a mesma coisa, mas não sei exatamente quais são hoje em dia os códigos.

Eu não saio de uma maneira sistemática desde 2002 e, portanto, não sei, talvez me enganasse agora se quisesse reconhecer os códigos que estão a ser utilizados.

Ouvir
  • Noticiário das 6h
  • 10 fev, 2026
Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

Destaques V+