04 fev, 2026 - 08:00 • Daniela Espírito Santo com Reuters
O nome não é novo. Surge em diversos artigos científicos desde o início da década e até já tem direito à sua própria página na Wikipédia. Voltou recentemente à baila, no entanto, graças ao "Moltbook", uma rede social feita exclusivamente para chatbots, que nos colocou a todos a pensar se é possível encher a Internet sem presença humana.
A "Teoria da Internet Morta" (Dead Internet Theory) começou como uma teoria da conspiração em 2016, mas foi ganhando terreno à medida que a inteligência artificial foi tomando conta do nosso dia-a-dia. Com isto, o linguista Adam Aleksic afirma mesmo, numa entrevista à revista Time, que a teoria da internet morta, nome que costumava ser dado a "uma teoria da conspiração lunática e marginal", agora é utilizado para descrever um fenómeno que "está a parecer muito mais real".
A explicação? O conteúdo gerado por IA e bots ultrapassou o conteúdo gerado por humanos na Internet.
Hoje em dia, é praticamente impossível escaparmos a imagens hiper-realistas geradas por IA, que surgem nas nossas redes sociais, muitas vezes com milhares de gostos e comentários. Segundo a teoria da internet morta, não só as imagens são geradas por agentes de IA, como também as contas que as publicam foram criadas e automatizadas por um chatbot, bem como os gostos e comentários que as acompanham.
Ainda corria o ano de 2024 e já se notava a mudança. Nessa altura, escrevia a Reuters, as imagens de IA já começavam a tomar conta dos nossos feeds nas redes sociais, concebidas para gerar engagement (cliques, gostos, comentários) em plataformas como o Facebook, o Instagram ou o TikTok. A teoria vai mais longe: se todo o conteúdo, publicação e feedback são feitos de forma artificial, então pode facilmente ter-se criado um "ciclo vicioso de envolvimento artificial", que dispensa humanos. Estaremos cercados por bots?
À primeira vista, a motivação destas contas para gerar interesse pode parecer óbvia: o engagement nas redes sociais leva a receitas publicitárias. Se uma pessoa criar uma conta que receba um envolvimento inflacionado, poderá ganhar uma parte da receita publicitária de organizações de redes sociais como a Meta. O problema surge no tal "ciclo vicioso de envolvimento artificial": um estudo feito o ano passado pela Adalytics, uma empresa de análise de publicidade, encontrou casos de anúncios feitos na Google que acabaram por ser mostrados... aos próprios bots da Google.
Ou seja, a teoria da internet morta pode ser real graças a uma inofensiva tentativa de geração de "engajamento" que dê lucro real a um humano de carne e osso. Mas, e segundo defendia a Reuters na altura, por detrás da superfície inofensiva, pode existir uma "tentativa sofisticada e bem financiada de apoiar regimes autocráticos, atacar os opositores e disseminar propaganda".
Desde então já vimos tal acontecer algumas vezes... Já existem fortes indícios de que as redes sociais estão a ser manipuladas por estes bots insuflados para influenciar a opinião pública com desinformação – e isto já acontece há anos, especialmente durante campanhas eleitorais.
O certo é que, entre as teorias da conspiração e a realidade, estas contas criadas por inteligência artificial vão ganhando seguidores, muitos falsos, alguns reais. E o grande número de seguidores legitima a conta para os utilizadores reais. Pelo caminho, um autêntico exército de contas é criado, com muitos seguidores e muita interação, e o seu conteúdo aparece nos nossos feeds, mesmo quando não os seguimos, ao ponto de até o criador do ChatGPT, Sam Altman, se queixar do assunto.
A teoria da Internet Morta torna-se ainda mais perigosa se pensarmos em dois cenários opostos: estas contas, criadas e alimentadas de forma artificial, podem não ter mão humana para as controlar ou, pelo contrário, serem estrategicamente controladas por alguém, que as pode vender a quem der mais. Os dois cenários podem ser igualmente assustadores.
Em 2018, um estudo analisou 14 milhões de tweets ao longo de um período de dez meses entre 2016 e 2017. Verificou-se que os bots nas redes sociais estavam significativamente envolvidos na divulgação de artigos de fontes não fidedignas. Contas com um grande número de seguidores legitimavam a desinformação, levando os utilizadores reais a acreditar, interagir e partilhar o conteúdo publicado pelos bots.
Esta abordagem de manipulação nas redes sociais também foi observada após massacres nos Estados Unidos. Em 2019, um estudo revelou que as publicações geradas por bots no X (antigo Twitter) contribuem significativamente para o debate público, amplificando ou distorcendo narrativas associadas a eventos extremos.
Mais recentemente, várias campanhas de desinformação pró-Rússia de grande escala tiveram como objetivo minar o apoio à Ucrânia e promover o sentimento pró-Rússia.
Descobertas por ativistas e jornalistas, as ações coordenadas utilizaram bots e IA para criar e divulgar informações falsas, chegando a milhões de utilizadores de redes sociais.
Só na plataforma X, a campanha utilizou mais de 10 mil contas de bots para publicar rapidamente dezenas de milhares de mensagens com conteúdo pró-Kremlin, atribuídas a celebridades americanas e europeias que aparentemente apoiavam a guerra em curso contra a Ucrânia, em 2024.
Esta escala de influência é significativa. Alguns relatórios apontam que quase metade de todo o tráfego da internet em 2022 foi gerado por bots. Dois anos depois, e segundo a companhia de cibersegurança Imperva, o tráfego de internet gerado por bots atingiu mesmo os 51% - ultrapassando, assim, e pela primeira vez, a quota de tráfego humano.
Com os recentes avanços na IA generativa – o ChatGPT já caminha para a sua quinta versão e a Google para o Gemini 3 – a qualidade do conteúdo falso só tende a melhorar e vai ser cada vez mais difícil distinguir realidade de ficção criada pelo Nano Banana.
O "AI slop" tomou conta dos nossos feeds e até os nossos filhos colecionam cromos com imagens de "brainrot", desenhos de impossibilidades criados sem grande qualidade, mas com imensos fãs. A influência do "brain rot" nas redes sociais é tanta que até os sistemas de IA começaram a ficar com "atrofia mental" e a perder capacidades cognitivas.
Nesta "bola de neve", não são só os humanos que se tornam menos capazes... Para isso contribuem também outros "players" que surgiram no mercado e foram ganhando terreno, como Perplexity AI, o Cursor, o Grok ou o Copilot, havendo agora centenas de ferramentas de Inteligência Artificial para todos os gostos.
Pelo meio, começam a surgir os primeiros estudos que indicam que os jovens estão a começar a desenvolver "digital burnout" e a aderir a movimentos de "detox digital", especialmente na Europa. Estar sempre online começa a parecer não só desgastante, como mal visto pela cultura dominante, o que também pode contribuir para a transição desta Teoria da Internet Morta, de conspiração a realidade.
Feitas as contas, a teoria da internet morta não afirma que a maioria das suas interações pessoais online são falsas, mas faz-nos ponderar que aquilo que vemos online é cada vez menos feito por humanos e para humanos.
No final do dia, o que podemos fazer? Num mundo digital onde qualquer interação, tendência ou "sentimento geral" pode muito bem ser artificialmente concebido para alterar, de forma subtil ou não, a forma como percebemos o mundo, convém, cada vez mais, navegarmos nas redes sociais e outros sites online com ceticismo e um olhar crítico.