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Literatura

Pastoral da Cultura: obra de Lobo Antunes é um monumento e uma provocação

05 mar, 2026 - 22:17 • Henrique Cunha

A diretora do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura recorda António Lobo Antunes "com uma das vozes mais marcantes na literatura contemporânea em Portugal".

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António Lobo Antunes, que morreu esta quinta-feira aos 83 anos, é "uma das vozes mais marcantes na literatura contemporânea em Portugal", diz à Renascença a diretora do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

Isabel Maria Alçada Cardoso sublinha também a dimensão internacional do escritor, que pode ser medida pelas “variadas traduções da sua obra”.

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A escrita de Lobo Antunes "é muito marcada pela sua experiência pessoal", enquanto psiquiatra e militar na Guerra Colonial, sublinha.

“É muito marcada pela sua formação académica, pela experiência médica, pois exerceu Psiquiatria no Hospital Miguel Bombarda, um hospital onde estavam os mais abandonados, e depois pela sua experiência decorrente da sua participação na guerra do Ultramar entre 1971 e 1973, e depois também toda a sua experiência em família”, assinala Isabel Maria Alçada Cardoso.

“Tudo isto o marcou profundamente, e inclusivamente quando lhe fizeram a pergunta do que é que ele sublinhava da sua experiência de escrita, ele referiu três coisas: paciência, solidão e orgulho”, acrescenta.

Faz trespassar em toda a sua escrita a bondade humana


"Não quero deixar nada, quero ficar inteiro". António Lobo Antunes morreu aos 83 anos
"Não quero deixar nada, quero ficar inteiro". António Lobo Antunes morreu aos 83 anos

A responsável pela Pastoral da Cultura entende que são “três dimensões absolutamente fundamentais e muito provocadoras para os dias de hoje, porque a paciência hoje é o que muitas vezes nós não temos e é fundamental para a vida quotidiana, assim como a experiência da solidão, ou seja, a experiência do silêncio, do se confrontar consigo próprio e o orgulho que eu diria de outra maneira um brio que hoje em dia muitas vezes faz-se, mas não há esta tensão do ideal, a tensão para uma coisa que de alguma forma exige trabalho e exige este orgulho”.

A diretora do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura fala de “uma obra vasta” e sublinha a atenção do escritor “à realidade e às circunstâncias”. Ou seja, “ele parte sempre da realidade, não especula a partir de uma ideia, mas a partir, por um lado da sua experiência pessoal, mas também das pessoas que encontra, das circunstâncias que observa da história que vamos viver no dia a dia”.

Para Isabel Cardoso, o escritor “faz trespassar em toda a sua escrita a bondade humana, apesar de por vezes nos apresentar personagens violentas de onde ele faz sobressair o melhor e o pior que há na condição humana”.

Lobo Antunes apresenta três dimensões absolutamente fundamentais e muito provocadoras para os dias de hoje

“Nós vemos que a escrita dos seus primeiros tempos nos apresenta um mundo sem ilusões e esta bondade, de alguma forma, tem esta provocação da desconfiança das ilusões. Mais tarde, quando avança na idade, nós vamos ver a bondade como esta resistência íntima contra a desumanização, ou seja, ele apesar da dor, do sofrimento, da violência, há sempre uma resistência à desumanização e na própria fragilidade de algumas das suas personagens nós vemos emergir esta bondade”, sublinha.

Isabel Cardoso conclui que toda a obra de Lobo Antunes "é um monumento e uma provocação", porque “ele retrata a condição humana que resulta do horror da guerra, que nós continuamos a presenciar”.

“E é nesse horror da guerra que emerge a compaixão, que emergem presenças humanas, que na sua fragilidade, de alguma forma, mostram a beleza da bondade e a beleza da pessoa humana”. Por isso, no final da sua vida, nós percebemos nos textos dele, a bondade como uma lucidez, mas uma lucidez com compaixão”, acrescenta.

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