Morreu o maestro Álvaro Cassuto
06 abr, 2026 - 11:29 • Lusa
Álvaro Cassuto deixa editados mais de 30 álbuns por diferentes discográficas, com centenas de obras, na maioria de compositores portugueses.
[Atualizado às 13h45]
O maestro Álvaro Cassuto morreu esta segunda-feira, aos 87 anos, na sua casa no Guincho, em Cascais, disse à agência Lusa fonte próxima da família.
Álvaro Cassuto fundou a Nova Filarmonia Portuguesa, trabalhou com orquestras nacionais e internacionais, e deixa uma vasta discografia, incluindo a integral das Sinfonias de Joly Braga Santos.
Segundo o Centro de Investigação & Informação da Música Portuguesa, foi "um dos mais conceituados maestros portugueses" e "um dos principais divulgadores da obra do compositor português Joly Braga Santos [1924-1988], seu amigo e colega".
Em 2004, o álbum com a gravação da Quarta Sinfonia deste compositor, com a Orquestra Nacional da República da Irlanda, valeu-lhe o Prémio Internacional do Disco do Mercado Internacional do Disco e da Indústria de Entretenimento (MIDEM).
Cassuto foi um dos maiores defensores da internacionalização da música erudita portuguesa, prioridade que levou para as orquestras que dirigiu e que reforçou, sobretudo a partir do final dos anos 1990, com a gravação de compositores portugueses como João Domingos Bomtempo, José Vianna da Motta, Luís de Freitas Branco e Fernando Lopes-Graça, em particular para a discográfica internacional Naxos e a sua subsidiária Marco Polo.
Em setembro de 2022 recebeu o Prémio Vida e Obra atribuído pela Sociedade Portuguesa de Autores.
Nascido no Porto, em 17 de novembro de 1938, filho de pais alemães de origem portuguesa que procuraram refúgio do regime Nazi, Álvaro Leon Cassuto cresceu em Lisboa, estudou violino e piano desde a infância, desenvolvendo a formação musical, mais tarde, com os compositores Artur Santos (1914-1987) e Fernando Lopes-Graça (1906-1994).
Em 1959, estreou-se como compositor com obras como Sonatina, Sinfonia Breve e Abertura para Cordas (1959), abordando o Dodecafonismo Serial. .
Estudou direção de orquestra com o maestro Pedro Freitas Branco (1896-1963), internacionalmente reconhecido como um dos melhores intérpretes da música de Maurice Ravel, e depois com Herbert von Karajan (1908-1989), em Berlim, pelo qual confessava grande admiração.
"Para mim, nunca tive outro maestro no meu panorama que admirasse tanto como Karajan", afirma no livro "Álvaro Cassuto: Maestro sem Fronteiras", acrescentando que o maestro alemão "era um dos pouquíssimos que fazia essa "fusão" de sons de uma maneira absolutamente espantosa, sem dizer uma palavra, só pelo gesto e pela sua personalidade".
Em Portugal, licenciou-se em Direito, pela Universidade de Lisboa, em 1964, com o objetivo de encetar uma carreia diplomática à qual chegou a candidatar-se. Mas a música impôs-se.
Em 1961, com 22 anos, estreou-se como maestro à frente da Orquestra do Porto. Posteriormente, foi maestro assistente (1965-1968) e subdiretor (1970-1975) da Orquestra Gulbenkian.
Aos Estados Unidos havia de ir e voltar ao longo da carreira. Aqui se manteve de 1968 a 1986. Foi professor na Universidade da Califórnia, de 1974 a 1979, maestro titular da Filarmónica de Rhode Island, de 1979 a 1985, e da Orquestra Nacional de Nova Iorque, entre 1981 e 1986.
Neste "período americano", também dirigiu alguns concertos de Amália Rodrigues (1920-1999) nos Estados Unidos.
Paralelamente, foi desenvolvendo uma carreira de compositor e dirigiu em salas do circuito internacional, uma "atividade de sucesso", segundo a "Enciclopédia da Música Portuguesa no Século XX".
No regresso a Portugal, fundou a Nova Filarmonia Portuguesa, em 1988, com a qual efetuou 635 concertos e que dirigiu até 1993. Nesse ano, foi convidado pelo Governo a formar a Orquestra Sinfónica Portuguesa (OSP), que incluiu os músicos da Filarmonia e da Orquestra do Teatro Nacional de São Carlos. Da OSP foi maestro titular e diretor artístico entre 1993 e 1999. .
Em 2016, numa mensagem escrita para a Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), sobre o seu percurso, Cassuto recordou: "Em 1993, quando fui incumbido de formar e de dirigir a Orquestra Sinfónica Portuguesa, uma das minhas prioridades foi a afirmação internacional daquela que deveria vir a ser a primeira e mais importante orquestra sinfónica portuguesa e, ao mesmo tempo, difundir, através dela, as mais importantes obras orquestrais dos nossos compositores".
Sobre a atividade de compositor de Álvaro Cassuto, a "Enciclopédia da Música Portuguesa no Século XX" afirma que "reflete a sua prática orquestral". "Nas primeiras obras aplicou o dodecafonismo serial, depois optou pelo atonalismo livre".
Entre as suas composições, constam-se "Sexteto de Cordas" (1961), música de cena para "Frei Luís de Sousa", de Garrett (1968), "Homenagem ao Povo" (1976), Abertura para cordas (1959), Sinfonia Breve n.º 1 (1959), Sinfonia Breve n.º 2 (1960), "Permutações" (1962), "In Memoriam Pedro Freitas Branco" (1963), "Cro (mo-no)fonia" (1967), "Canto da Solidão" (1970), "AS 4 Estações" (1987) e a ópera em um ato "Em Nome da Paz" (1971), com libreto da poetisa Natália Correia (1923-1993).
Algumas das suas obras estão também editadas pela Naxos, gravadas pela Royal Scottish National Orchestra.
Álvaro Cassuto deixa editados mais de 30 álbuns por diferentes discográficas, com centenas de obras, na maioria de compositores portugueses.
- Noticiário das 0h
- 14 abr, 2026








