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“A demência começa muitos anos antes de se tornar clinicamente aparente”

08 abr, 2026 - 06:00 • Redação

Simpósio da Fundação Bial reúne especialistas no Porto para discutir o que a ciência já sabe sobre o cérebro no fim da vida. "É possível atrasar" a demência, , diz à Renascença o neurocientista Miguel Castelo Branco, que destaca, também, as implicações sociais e económicas deste tipo de patologia: “Vamos ter desafios grandes na área da economia da saúde."

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O neurocientista Miguel Castelo Branco diz que a ciência tem vindo a mudar profundamente a forma como se compreende a condição da pessoa com demência.

“A demência começa muitos anos antes de se tornar clinicamente aparente”, diz à Renascença o especialista que, a partir desta quarta-feira, participa, no Porto, no 15.º simpósio “Aquém e Além do Cérebro”, promovido pela Fundação Bial, que junta vários especialistas internacionais para discutir as chamadas experiências de fim de vida.

Entre temas como a quase-morte, a lucidez terminal e os processos biológicos de morrer, o encontro abre também espaço para refletir sobre doenças neurológicas associadas ao envelhecimento, como a demência.

De acordo com Miguel Castelo Branco, processos como a acumulação de proteínas anómalas no cérebro — nomeadamente a amiloide, associada à Doença de Alzheimer — e fenómenos de neuroinflamação iniciam-se de forma silenciosa, muito antes dos primeiros sintomas. “Para a demência se tornar aparente, têm que ter morrido já muitos neurónios”, explica.

Este avanço no conhecimento tem reforçado a importância do diagnóstico precoce. Hoje, uma das áreas mais promissoras é a dos biomarcadores, que procuram identificar sinais da doença antes de surgirem falhas de memória ou alterações cognitivas evidentes.

“Já conseguimos medir a acumulação destas substâncias no cérebro muito antes da pessoa ter sintomas”, diz o médico, referindo técnicas de imagem desenvolvidas em centros de investigação portugueses.

Além da deteção antecipada, o estilo de vida tem também um papel relevante: exercício físico, estimulação cognitiva e controlo de doenças crónicas podem ajudar, uma vez que "criam uma reserva biológica que é importante, pelo menos, para atrasar o progresso da doença”.

Apesar dos avanços, o tratamento das demências continua a ser um desafio. Ensaios clínicos recentes com novos fármacos trazem esperança, mas ainda numa fase inicial.

“Estamos a começar a entrar numa era em que é possível atrasar, mas travar ou reverter ainda precisa de mais evidência”, diz o neurocientista.

Para além da dimensão clínica, a demência levanta também questões sociais e económicas.

O envelhecimento da população e o aumento esperado de casos colocam pressão sobre os sistemas de saúde, desde o custo elevado dos exames de diagnóstico até ao acesso a novas terapias.

Miguel Castelo Branco está convicto de que “vamos ter desafios grandes na área da economia da saúde".

Outro dos pontos críticos é o impacto nos cuidadores informais, muitas vezes familiares. Miguel Castelo Branco considera que continuam a ser “a pessoa esquecida”, enfrentando sobrecarga emocional, física e financeira.

Num contexto de envelhecimento acelerado da população, o neurocientista defende uma resposta mais ampla, que vá além da saúde.

“As políticas públicas vão ter que ter em conta estes desafios demográficos”, aponta.

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