O fenómeno Rosalía. Como é que a artista espanhola conquistou o mundo?
08 abr, 2026 - 09:00 • João Malheiro
O jornalista Gonçalo Frota ajuda-nos a entender o que é que leva tanta gente em todo o mundo a ouvir Rosalía e antecipa o que podemos esperar dos dois concertos que a cantora dá em Portugal, a partir desta quarta-feira.
Rosalía atua esta quarta-feira no MEO Arena, na primeira de duas noites de concertos em solo português para promover o seu novo disco "Lux".
Os dois espetáculos estão praticamente esgotados, com o público em grande antecipação para ver como é que o quarto álbum da artista espanhola, que surpreendeu pela sua sonoridade clássica, à base de uma orquestra, e cantado em 14 línguas, se vai refletir em palco.
À Renascença, o jornalista Gonçalo Frota, do "Público", que acompanha a carreira de Rosalía desde o seu álbum de estreia, "Los Angeles", perspetiva um concerto que vai seguir a lógica de vários atos do "Lux".
É de esperar que se reflitam as várias dimensões do disco, como a relação com a religião e o empoderamento feminino, de uma forma que será certamente "inteligente e provocadora".
"Proporão pequenos universos dentro de algo maior que é o concerto. É um pensamento sempre muito conceptual que ela aplica nos concertos", refere.
Mas, afinal, como é que esta cantora nascida na Catalunha e formada em flamenco conseguiu tornar-se um símbolo global da música?
Gonçalo Frota aponta que Rosalía "joga permanentemente no risco" e demonstra o que pode ser a invenção dentro da linguagem da pop, "sem ter de se conscrever às regras de qualquer género".
"Los Angeles", "El Mal Querer", "Motomami" e agora "Lux". São quatro discos muito distintos, em que a principal conclusão é que a artista nunca vai ser "aquilo que pensávamos que ela era".
Uma imprevisibilidade artística que acaba por ser também um produto "da imagem e do que a Rosalía pode significar para uma audiência global".
"Desconstruir a imagem que temos dela, por si só, gera muito interesse. As pessoas estão sempre na expectativa de perceber qual vai ser o passo seguinte", considera o jornalista do "Público".
"Que alguém consiga fazê-lo desta maneira, com os resultados artísticos que ela alcança, com discos que são statements artísticos extraordinários, é fascinante", reflete.
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Apesar de ter começado no flamenco, género clássico espanhol que decidiu desconstruir logo no álbum de estreia, Gonçalo Frota realça que há muito que a cantora já ultrapassou o género, ocupando-se com muitas outras sonoridades, em constante experimentação. Não obstante, encontramos sempre alguns traços do seu ponto de partida, mesmo nos trabalhos mais recentes.
De resto, nos últimos anos surgem cada vez mais artistas a explorar os cânones musicais das suas respetivas culturas. Portugal não é exceção, com muitas canções a explorar e modernizar géneros como o fado, o pimba ou o cante alentejano.
Gonçalo Frota diz que chamar Rosalía de "percursora" deste fenómeno talvez não seja o mais correto, contudo a artista espanhola teve sem dúvida "um efeito de arrastamento à escala global".
A cantora "rebentou com as portas" e permitiu que outros artistas - espanhóis, portugueses e não só - seguissem o mesmo caminho que ela, com menos receio do que antes.
"Há essa noção de que se pode pegar na música tradicional e ser-se, de facto, ousado. É apelar a que cada um consiga descobrir na sua relação com a tradição o que é que lhe é dado a fazer", explica o jornalista do "Público".
No entanto, "não há fórmulas" que repliquem o sucesso de Rosalía e, na verdade, seria um erro achar que se pode simplesmente copiar uma artista que tanto se inspira em lendas espanholas do século XIII, como a seguir usa a estética moderna do anime e outros traços da cultura asiática.
"Se fosse assim tão simples, estávamos cheios de casos com o mesmo sucesso e aquilo que vamos percebendo é que a Rosalía é um caso único", remata.
- Noticiário das 4h
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