Cinema
Angelita, uma das três mil crianças levadas para a URSS durante a Guerra Civil espanhola
10 abr, 2026 - 16:00 • Maria João Costa
“¿De qué casa eres?” estreia a 16 de abril. O primeiro filme realizado pela artista plástica Ana Pérez-Quiroga conta a história da sua mãe, uma das três mil crianças espanholas enviada durante a Guerra Civil espanhola para a, então, União Soviética.
Angelita Pérez tinha quatro anos quando os pais decidiram pô-la a salvo da Guerra Civil espanhola. Nascida no País Basco, a mãe da artista plástica Ana Peréz-Quiroga foi enviada para a então União Soviética, onde viveu até aos 24 anos.
A sua história sempre foi conhecida pela família, mas só em 2017 é que permitiu à filha mergulhar nela. “Até esse momento ela tinha-me proibido determinantemente”, explica Ana Pérez-Quiroga em entrevista ao Ensaio Geral, da Renascença, a propósito da estreia de “¿De qué casa eres?”.
Já segue a Informação da Renascença no WhatsApp? É só clicar aqui
“A minha mãe é uma pessoa muito reservada e acha que aquele tema é a sua vida e que não se queria expor”, adianta a realizadora, que tem vindo a trabalhar sobre temas como a pós-memória.
O filme, que chega às salas de cinema dia 16 de abril, tem um título em espanhol e é uma interrogação porque reflete a pergunta que as crianças então enviadas para fora de Espanha se faziam umas às outras sobre o seu lugar de pertença.
“A minha mãe e a minha família são do País Basco e na Guerra Civil tiveram que ser evacuados. A grande maioria foi para França, mas há depois grandes contingentes para a Inglaterra, México e um grande contingente de quase três mil crianças que vai para a então União Soviética”, conta a artista.
Ana Pérez-Quiroga lembra que os acontecimentos coincidem com o “massacre” de Guernica, em que foram lançadas “bombas da aviação alemã, a mando de Franco, contra populações civis”.
Guernica, que foi retratada no grande quadro de Pablo Picasso, fica “ao lado de Bilbao”, sublinha Ana Pérez-Quiroga que no filme, a que chama “documentário”, integra imagens da obra que está no Museu Reina Sofia de Madrid.
“Começam em Guernica a bombardear, mas depois os bombardeamentos passam para Bilbao e para todo o País Basco. As famílias em desespero querem salvar as suas crianças e a minha avó entrega as duas únicas crianças a estas ajudas internacionais”.
São cerca de três mil crianças que vão “acompanhadas de 140 adultos, médicos, educadores, assistentes sociais, tradutores e até cozinheiros que vão depois para 16 colégios internos na Rússia”.
A mãe de Ana Pérez-Quiroga foi, com a irmã, para um “colégio que ficava em Kherson, “que conhecemos tão bem agora por causa da guerra na Ucrânia”, indica a realizadora.
"Refém" na União Soviética
Segundo Ana Pérez-Quiroga, a mãe que vive há 67 anos em Portugal não conseguiu, contudo, regressar a Espanha depois da Guerra Civil espanhola terminar. Ficou refém na União Soviética.
“Tudo correria bem se a guerra não fosse perdida pelos republicanos. Ganhou Franco, os fascistas, e, por causa disso, houve um corte diplomático. Estas crianças ficaram reféns, retidas naquele país durante 20 anos. Estaline disse que não entregava as crianças a um governo fascista e que era responsável por elas”.
Angelita Pérez viveu até aos 24 anos na Rússia. Tal como ela milhares de outras crianças e adolescentes espanhóis. Pelo meio estalou a II Guerra Mundial.
“A minha mãe sai de uma guerra, parecia tudo bem. Acontece depois a II Guerra Mundial e têm novamente de fugir com bombas a caírem. Vão primeiro parar perto da Sibéria, a uma aldeia”, explica a realizadora, que indica que muitas dessas crianças e adolescentes acabaram “em Moscovo a trabalhar para fábricas para servir a guerra”.
O filme “¿De qué casa eres?” lida com todos estes traumas do passado. Ana Pérez-Quiroga explica que “esta pós-memória” quer dizer um “trauma sentido em segunda mão”. É explorando o que sente a partir do testemunho da sua mãe que construiu o documentário, onde não esquece a sua condição de artista plástica ao criar uma obra em diálogo com o Guernica de Picasso.
Além do filme, Ana Pérez-Quiroga vai inaugurar a 21 de maio na Appleton Square uma exposição e lançar em breve um livro a partir da sua obra e tese de doutoramento que explorou as temáticas que aborda também no filme.
- Noticiário das 0h
- 16 mai, 2026









