Filme
As feridas das FP-25 chegam ao cinema pela mão de Ivo Ferreira
21 abr, 2026 - 17:17 • Maria João Costa
O filme “Projeto Global” estreia dia 23. Protagonizada por atores como Jani Zhao, Rodrigo Tomás, Gonçalo Waddington ou Ivo Canelas, a longa-metragem retrata algumas das ações mortais do grupo de extrema-esquerda. Em simultâneo é lançado o primeiro livro de história sobre as FP-25 da autoria do historiador Francisco Bairrão Ruivo.
Lisboa, anos 80. Tinham passado alguns anos da Revolução de Abril e Portugal vivia ainda tempos de alguma tensão. É neste caldo que surgem as FP-25, um grupo armado de extrema-esquerda que na clandestinidade preparou, entre outras coisas, assaltos a bancos e ataques à mão armada.
Esta história chega agora ao cinema pela mão do realizador Ivo Ferreira. O filme “Projeto Global” estreia-se esta quinta-feira e nasceu em parte das memórias pessoais do realizador.
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Ao Ensaio Geral, da Renascença, Ivo Ferreira conta que “muito mais do que questões políticas”, tinha “algumas questões pessoais e de infância” que o levaram “a ter um grande interesse por este assunto”.
“O facto de haver a operação Orion e assistir aos meus pais a avisarem que havia pessoas que, com certeza nós conhecíamos, e que iriam ser presas” despertou inquietação em Ivo Ferreira. “Ao mesmo tempo, os meus pais, disseram logo claramente que eles nunca teriam, e não tinham, nada a ver com a organização para que eu não me preocupasse”, sublinha.
Mas esta “página cinzenta” da História portuguesa sempre gerou curiosidade a Ivo Ferreira. “Sou muito atraído por temas cinzentos, pantanosos e, por outro lado, sou muito fascinado por esta ideia de quando a utopia encontra a realidade, e quando colide com a realidade, que tipo de faísca é que isso pode provocar”
No filme protagonizado por atores como Jani Zhao, Rodrigo Tomás, Gonçalo Waddington, João Catarré ou Ivo Canelas, Ivo Ferreira retrata alguns dos mais sangrentos episódios das FP-25. Desde assaltos a bancos e atentados à mão armada.
Tal como diz no filme a personagem do inspetor-chefe da polícia, desempenhado pelo ator Ivo Canelas, diz Ivo Ferreira: estas “organizações armadas em democracia que não faziam sentido, quem quiser poder agora, com a democracia, tem de candidatar-se com os outros sacanas todos”.
Com argumento de Ivo Ferreira e Hélder Beja, “Projeto Global” é um filme de ficção com base em factos reais. “O filme é um objeto artístico completamente independente da verdadeira história. E são pequenas histórias das pessoas que utilizei e que misturei. É isso que realmente mais me interessa. São as pessoas”, explica Ivo Ferreira.
Toca-se assim numa das feridas recentes da história portuguesa que chegou à barra dos tribunais. “É um tema muito sensível ainda. Ainda há, com certeza, muitos familiares das vítimas que estão por aí, e, por isso mesmo, foi uma obra em que houve uma grande investigação histórica e um grande trabalho de terreno”, indica Ivo Ferreira.
O realizador trabalhou com o historiador Francisco Bairrão Ruivo que está a lançar em simultâneo aquele que é o primeiro livro de História sobre as FP-25. A obra tem chancela da Tinta-da-China.
Um assunto complexo que não se aborda de ânimo leve
Em entrevista ao Ensaio Geral, o autor explica um dos desafios que enfrentou na pesquisa foi estar a lidar não só com “um tema difícil por ser recente, como por ser um assunto traumático e doloroso”.
“É uma organização terrorista. Há várias vítimas mortais, quer do lado da organização, quer causadas pelas FP 25, umas acidentais, outras propositadas. Portanto, é um assunto complexo que acho que não se aborda de ânimo leve, até por uma questão de respeito pelos envolvidos”, reflete Francisco Bairrão Ruivo.
Outras das dificuldades no que toca à investigação, diz o historiador é de ordem “técnica”. “Mergulharmos naquilo que é uma organização secreta, onde se sabe muito pouco, na medida em que os próprios intervenientes e membros da organização pouco falaram sobre isto, e quando falam, falam de coisas muito superficiais”, explica Bairrão Ruivo.
“Pouco sabemos como é que tudo isto funcionava, de onde é que vieram estas pessoas”, sublinha o historiador que foi tentar “perceber” mais sobre os contornos das FP-25. Um dos trabalhos passou pela recolha de “testemunho de alguns dos elementos”.
“O primeiro livro de história sobre o tema reúne por isso vários pontos de vista sobre esta organização que começou a atuar em abril de 1980, mas que nasceu antes”, indica o historiador.
Processo longo, complexo, com muitas contradições
“A sua gestação começa a seguir ao 25 de Novembro, no Verão de 1976 e a seguir às eleições presidenciais de 1976. Portanto, é um processo longo, complexo, com muitas contradições, com pessoas que entram e outras que se afastam”, sublinha.
Bairro Ruivo está em sintonia com Ivo Ferreira ao dizer que há na história das FP-25 “muitas zonas cinzentas”.
“O meu papel, enquanto historiador, não é necessariamente dizer que foi isto. É mais perceber as várias narrativas que existem, expô-las, problematizando cada uma delas e deixar ao leitor a interpretação ou algum tipo de conclusão, quando ela é possível. Há muitas visões diferentes”, refere.
Também ao realizador Ivo Ferreira se interessou em explorar “as partes mais omissas” dos livros de História.
“As partes boas da história que são claras estão nos livros de história, sempre. Mas aquelas páginas omissas dos nossos livros sempre foram aquelas que mais me interessaram”, diz.
“Acho que é importante lidarmos com os nossos traumas, as nossas feridas. Não é para pôr o dedo na chaga, antes pelo contrário”, acrescenta o realizador que quer acreditar que o filme “pode ajudar a sarar de alguma forma” essas feridas do passado.
“São estes temas que me interessam”, afirma Ivo Ferreira que conclui que, por vezes, os “ideais se podem tornar um pesadelo”.
Projeto Global de Ivo Ferreira chega dia 23 às salas de cinema, o mesmo dia em que será lançado o livro de Francisco Bairrão Ruivo pela Tinta da China
- Noticiário das 16h
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