Literatura
Publicação de livro escrito com Inteligência Artificial foi cancelada nos EUA
22 abr, 2026 - 13:10 • João Malheiro
"Shy Girl" foi escrito por Mia Ballard e publicado online de forma independente em fevereiro de 2025. Depois de ter conquistado atenção digital, conseguiu vender quase dois mil exemplares no Reino Unido, mas os leitores começaram a questionar o conteúdo da obra.
Era um sucesso no Reino Unido e preparava-se para ser publicado nos Estados Unidos da América (EUA). A editora norte-americana Hachette adquiriu os direitos para publicar o romance de terror "Shy Girl" e ia lançar o livro no outro lado do Atlântico, em abril.
Depois, descobriu que o livro tinha sinais de ter sido escrito com recurso a Inteligência Artificial (IA). Os planos foram cancelados e a Hachette fez um comunicado a garantir que se mantém fiel "à proteção de histórias e expressões artísticas originais".
Segundo o jornal "The New York Times", pode tratar-se da primeira vez que a publicação de um livro é diretamente afetada pelo uso de IA.
"Shy Girl" foi escrito por Mia Ballard e publicado online de forma independente em fevereiro de 2025. O livro recebeu atenção da comunidade literária do TikTok, o que lhe permitiu chegar a um acordo de publicação com a editora Wildfire, no Reino Unido, em novembro.
Depois de ter vendido cerca de duas mil cópias em solo britânico, a Hachette ficou interessada em levar o romance para os EUA. Contudo, a popularidade crescente de "Shy Girl" fez com que cada vez mais leitores partilhassem as suas dúvidas quanto ao conteúdo e escrita do romance, com algumas pessoas a apontarem que a formatação e a pontuação do texto e a estrutura repetitiva das ideias encaixava com o estilo de programas de IA como o ChatGPT.
Milhares de pessoas partilharam publicações de análise ao alegado uso de IA em "Shy Girl" em fóruns como o Reddit e um vídeo do Youtube sobre o tema reuniu mais de um milhão de visualizações.
A Hachette acabou por rever o conteúdo do livro e tomar a decisão de cancelar a publicação. A Wildfire também decidiu retirar o romance do mercado britânico.
Numa pesquisa rápida, encontramos a versão britânica à venda em lojas portuguesas como a Bertrand e a Wook, mas não é possível efetuar a compra.
Por sua vez, a autora de "Shy Girl" rejeita ter usado IA para escrever o romance. Em declarações ao "The New York Times", Mia Ballard alega que a pessoa a quem pediu para rever o texto é que terá usado IA nessa edição.
"Esta controvérsia mudou a minha vida, a minha saúde mental bateu no fundo e o meu nome foi arruinado à custa de algo que eu não fiz", lamenta, sublinhando que está a equacionar agir em tribunal.
Este caso é mais um exemplo das dificuldades em várias áreas em distinguir conteúdo original humano e trabalhos feitos com recurso a programas de IA generativa (que apenas reutiliza ideias dentro do seu sistema). Para lá da Literatura, há cada vez mais dúvidas nas áreas da Educação e do Jornalismo, entre outras.
Apesar de haver sinais que permitem concluir se um texto foi copiado e colado de um sistema IA, essas regras não são 100% fiáveis. Com uma pesquisa rápida, encontram-se páginas da Internet que se dedicam a analisar texto e comprovar a probabilidade de ser artificial. Contudo, já vários utilizadores constataram que, mesmo textos totalmente escritos por humanos, podem ser assinalados como obras de IA.
- Noticiário das 9h
- 13 jun, 2026








