Livro
A “tribo dos livros” de Rui Couceiro e a “maldição” da leitura
06 mai, 2026 - 13:39 • Maria João Costa
“A Mais Bela Maldição” é o livro que marca a estreia de Rui Couceiro na não ficção. É um livro que reúne um conjunto de retratos de leitores e da “tribo dos livros” espalhada pelo mundo.
De Bogotá, na Colômbia, à ilha de São Miguel, nos Açores: em cada recanto do mundo há viciados em livros. “A Mais Bela Maldição” (ed. Porto Editora), livro de Rui Couceiro, reúne um conjunto de retratos daqueles que vivem a ler ou têm vidas marcadas pelos livros. O autor estreia-se assim na não-ficção, depois de ter escrito dois romances.
O livro resulta de uma série de viagens que foi fazendo, onde conheceu e contactou com os protagonistas de cada capítulo da obra. Em entrevista ao Ensaio Geral, da Renascença, Couceiro admite que usar a palavra “maldição” no título é uma provocação ao leitor.
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Editado pela Porto Editora, “A Mais Bela Maldição” é um livro que Rui Couceiro diz ter escrito como “licença sabática” entre romances. Entre as histórias estão exemplos de pessoas a quem os livros mudou a vida, ou pessoas que mudam a vida de escritores criando todas as condições para escreverem. É uma ode aquela a que Couceiro chama a “tribo mais ou menos rara” a que, também ele, gosta de pertencer.
“A Mais Bela Maldição” reúne uma dezena de retratos de pessoas apaixonadas por livros. Que histórias são estas?
É um conjunto de histórias de pessoas excêntricas e que têm em comum o facto de serem apaixonadas pelos livros e pela leitura. Em alguns casos os livros mudaram-lhes as vidas, noutros são elas que, através dos livros, mudam as vidas de outras pessoas. São tudo pessoas também com ligações diferentes aos livros.
Quer dar exemplos?
Alguns são recoletores de livros que os guardam, acumulam e distribuem pelas outras pessoas. Ou seja, têm esse propósito, essa missão de partilha dos livros com os outros e criam grandes bibliotecas.
É o caso do antigo motorista de camião de lixo de Bogotá, que começou a apanhar livros no lixo e criou uma grande biblioteca num dos bairros mais pobres da capital colombiana.
Temos também o padre alemão que, depois da queda do muro de Berlim, começou a perceber que havia livros da Alemanha de Leste que estavam a ser destruídos em grandes quantidades e começou a recolhê-los e hoje tem um grande celeiro onde guarda esses livros.
Muitos deles são livros que já não existem em mais lado nenhum e quem os quer consultar tem de ir ali. Isso aconteceu até com a NASA que precisou de uma resposta para poder lançar um satélite para o espaço e o único exemplar que tinha a resposta para esse problema que a NASA precisava de solucionar estava ali.
Depois há outras figuras que são diferentes, que têm outras paixões pelos livros, mas são todas elas histórias que também têm muito a ver com o próprio carisma destas figuras. Elas são altamente carismáticas, mas depois há outras histórias também que chegam a ser tocantes.
Quem escreve sabe muito bem que uma das coisas mais preciosas é o tempo
Eu gosto muito da história do gasolineiro dos Açores, que é um homem que estudou muito pouco, mas a dada altura percebeu que deveria investir mais na sua formação e achou que a leitura seria um bom caminho. E se queria começar a ler, pensou, porque não começar a ler pelos melhores livros de todos.
Começou a perguntar, então, quais livros é que devo ler? Então o escritor, ensaísta e professor Onésimo Teotónio de Almeida falou-lhe no Prémio Nobel. Ele disse: “Bom, se esse é o melhor prémio de todos, vou começar a ler os livros desses autores”. E leu todos os vencedores do Prémio Nobel, um homem quase sem escola.
A unir todas estas histórias está o facto de se ter cruzado com elas?
Sim, andei a viajar pelo mundo para conhecer estas pessoas. No início, chegou quase a ser um pretexto para tirar a minha cabeça da ficção.
Eram quase umas licenças sabáticas dos romances que eu estava a escrever. Eu sou uma pessoa que gosta de pessoas. Não sou maniqueísta e acredito que as pessoas têm sempre coisas que valem a pena, ou quase sempre. E encontrei, de facto, aqui, personalidades extraordinárias.
Fiquei muito ligado, por exemplo, à baronesa Beatrice Monti della Corte, é uma mulher que hoje tem 100 anos e que é uma das maiores mecenas literárias do mundo. Tem uma residência extraordinária na Toscana, onde autores como John Banville, Michael Cunningham ou Zadie Smith escrevem os seus livros. Ela proporciona-lhes as condições.
Quem escreve sabe muito bem que uma das coisas mais preciosas é o tempo, o sossego, o silêncio. Sobretudo o tempo para escrever, sem incómodos, sem ser interrompido. E as residências literárias, felizmente em Portugal já há algumas, são das coisas mais preciosas para o escritor.
E esse texto é uma visita a essa residência, mostra-a por dentro e mostra essa mulher notável que conheci. Ela foi amiga do Calvino, esteve no casamento do Miró, é uma pessoa formidável.
Usar a expressão maldição na capa de um livro, numa época em que a maldição parece estar cada vez mais generalizada, é um desafio ao leitor?
Em certa medida é uma provocação ao leitor, que se interrogará "mas que bela maldição é esta?". Claro que tendo o livro, a pessoa percebe imediatamente na capa, porque o subtítulo é explicativo e contextualiza. No fundo, é também um convite a esta tribo a que nós pertencemos, a tribo dos apaixonados pelos livros. Percebemos que isto de facto, se é uma maldição, é uma maldição muito bonita.
Mas é importante esse valor do livro, mesmo que na versão digital, hoje, neste clima de maldição e guerras?
Sim, eu queria com este livro reafirmar a importância do livro e da leitura num tempo como aquele que nós vivemos, marcado por guerras. Às vezes não temos a noção, mas temos hoje muito mais conflitos ativos no mundo do que havia há 30 anos ou 40 anos.
Quando recordamos a Guerra do Golfo, achávamos que o mundo estava muito mal e que a civilização evoluiria de outra forma, mas na verdade há um retrocesso. Há mais conflitos.
Há um permanente estado de alerta em que temos de estar, porque a qualquer momento começa um conflito armado em qualquer parte do mundo.
Percebemos que, se calhar, ninguém está a salvo de meia dúzia de loucos que gerem alguns países, os governam, e que têm uma influência tremenda nas nossas vidas.
Acho que reafirmar a importância do livro, da leitura, do pensamento, da informação, da reflexão, do conhecimento é muito importante. Nós não queremos e não devemos querer ser geridos por homens ignorantes que têm como único pensamento pisar o outro para alcançar os seus objetivos.
- Noticiário das 13h
- 12 mai, 2026








