Nuno Artur Silva e a Eurovisão: RTP seguiu Governo "mas devia ter autonomia" na decisão de participar
12 mai, 2026 - 06:30 • João Malheiro
Nuno Artur Silva diz que inclusão de Israel no festival não faz sentido, face à expulsão da Rússia, afastada devido à invasão da Ucrânia. Antigo administrador da RTP admite que é possível haver uma tentativa de manipular o televoto.
Nuno Artur Silva, antigo administrador da RTP, considera que o canal público optou por seguir a posição internacional do Governo português face a Israel, mas sublinha que devia ter autonomia para tomar uma decisão sobre participação na Eurovisão.
A nova edição do festival de canção europeu arranca esta terça-feira envolto em polémica, com vários países a boicotar o evento. Entre eles está Espanha, um dos cinco principais financiadores do certame, assim como Países Baixos, República da Irlanda, Islândia, entre outros.
Ausências que podem custar cerca de 600 mil dólares (mais de 509 mil euros) à Eurovisão, segundo uma reportagem do "The New York Times".
A RTP foi em sentido contrário, optando por participar no evento, apesar da polémica e dos apelos de alguns dos próprios trabalhadores. Os "Bandidos do Cante", vencedores do Festival da Canção deste ano, participam na primeira semifinal, esta terça-feira.
À Renascença, Nuno Artur Silva diz que se pode "discutir o grau de autonomia que a RTP terá para tomar esta decisão".
"A RTP preferiu estar resguardada na posição internacional de Portugal. Essa posição, face à decisão tomada pela [Eurovisão] em relação à Rússia, é errada", considera.
Para o ex-secretário de Estado do Audiovisual, a RTP devia ter capacidade de tomar uma decisão, independentemente da posição defendida pelo Governo português, porque esta situação "tem a ver com as televisões públicas e não os governos".
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Para lá das ações militares de Israel na Faixa de Gaza, na guerra contra o Hamas, em torno da polémica estão, ainda, suspeitas sobre o televoto das últimas edições, em que o país conseguiu obter grandes resultados. Esta segunda-feira, o "The New York Times" estimou que, em alguns países, bastava coordenar cerca de uma centena de pessoas para conseguir uma vitória no televoto de alguns países.
Nuno Artur Silva refere que "é credível haver suspeitas" e é possível "que haja uma tentativa de manipulação dos votos", pelo que a Eurovisão deve clarificar esta suspeita.
"É do interesse geral que se abra uma investigação, um inquérito, para afastar de vez qualquer dúvida", sublinha.
Apesar da polémica, a Eurovisão continua a defender que o festival não é nem pode ser político. No entanto, Nuno Artur Silva aponta que esta edição é das "edições mais políticas, precisamente pelo esforço desesperado de retirar a política".
"É de uma enorme ingenuidade, pelo menos de um enorme cinismo, que um evento desta dimensão não é um acontecimento político. Um evento público é sempre político, mesmo na omissão que procura fazer de questões políticas", realça.
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