Óbito
Morreu João Abel Manta, o "cartoonista da Revolução"
15 mai, 2026 - 22:18 • Catarina Magalhães e Ricardo Vieira
Artista plástico, arquiteto, ilustrador e cartoonista ficou conhecido do grande público pelos cartoons, desenhos e caricaturas que criou durante o período revolucionário entre 1974-1975.
O artista plástico João Abel Manta, o "cartoonista da Revolução" de 25 de Abril de 1974, que derrubou a ditadura e abriu as portas da democracia em Portugal, morreu esta sexta-feira na sua casa em Lisboa, aos 98 anos, noticiou o jornal Público.
Artista plástico, arquiteto, ilustrador e cartoonista, ficou conhecido do grande público pelos cartoons, desenhos e caricaturas que criou durante o período revolucionário, entre 1974-1975.
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Opositor do regime de Salazar, com a queda do Estado Novo e o fim da censura, aquele que é considerado um dos maiores artistas gráficos portugueses deu largas à imaginação e assinou cartazes icónicos para as Campanhas de Dinamização Cultural do Movimento das Forças Armadas (MFA).
Uma das obras mais conhecidas é o famoso cartaz "POVO/MFA", em que um agricultor e um militar aparecem lado a lado. Também desenhou uma versão com Vasco Gonçalves, durante o chamado PREC, o Processo Revolucionário em Curso.
Nascido em 1928, anos depois da Ditadura Militar e numa família de pintores – Abel Manta e Clementina Carneiro de Moura –, João Abel Manta passou a infância num ambiente artístico privilegiado.
Em fevereiro de 1948, poucos dias depois de completar 20 anos, João Abel Manta foi detido pela PIDE e esteve duas semanas na prisão de Caxias, partilhando a cela com o artista Ernesto de Sousa, e onde não deixou de desenhar.
Formou-se em Arquitetura, em 1951, tendo-se dedicado à pintura, cerâmica, tapeçaria, mosaico, ilustração, artes gráficas e cartoon.
Foi várias vezes distinguido ao longo da carreira, nomeadamente pela Fundação Calouste Gulbenkian (1961), com a Medalha de Prata na Exposição Internacional de Artes Gráficas (Leipzig, 1965) e com o Prémio de Ilustração na Exposição de Artes Gráficas de Leipzig (1975).
Em 1972, ainda antes da revolução de 25 de Abril, João Abel Manta desenhou um cartoon, intitulado "Festival", publicado na forma de um cartaz no suplemento "A Mosca", do Diário de Lisboa, que lhe valeria um processo em tribunal por ofensas à bandeira nacional, e do qual seria ilibado.
Também em 1972 sai o livro "Dinossauro Excelentíssimo", de José Cardoso Pires, com cerca de duas dezenas de ilustrações do amigo de longa data, João Abel Manta, e que satirizava Salazar e a "primavera marcelista".
Publicou no final dessa década o livro "Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar" (1978), síntese de sofisticada ironia em que traça um quadro negro e preciso daquele período da História de Portugal.
Enquanto arquiteto, desenhou escolas, cinco blocos de habitação em Lisboa, coassinou o projeto do complexo da Associação Académica de Coimbra, mas foi abandonando progressivamente esta atividade a favor das artes gráficas.
Fez ainda intervenções nos pavimentos de mosaico para arruamentos na Praça dos Restauradores, em Lisboa, e na Figueira da Foz, enquanto na azulejaria concebeu em Lisboa, entre outros, o revestimento do mural da Avenida Calouste Gulbenkian, aplicado em 1980.
Abel Manta soube usar o "desenho ao serviço da informação"
O desenhador António Jorge Gonçalves recorda esta sexta-feira, em entrevista à Renascença, o cartoonista Abel Manta como o "inaugurador da modernidade do cartoonismo" em Portugal.
"Abel Manta levou muito à frente, para lá de uma questão mais convencional, o próprio cartoon. Foi um homem politicamente muito engajado e deu-nos imagens incríveis sobre o 25 de Abril", conta.
Jorge Gonçalves elogia o percurso do "cartoonista da Revolução" pela sua proximidade à informação e ao jornalismo.
"Foi um homem que se empenhou em pôr o desenho ao serviço da informação e da criação de ícones e imagens icónicas que inspirassem às pessoas logo depois da revolução."
Porém, reconhece que Abel Manta acabou por ser desvalorizado no cenário artístico, apesar da importância do seu legado.
"Não diria que, a certa altura, caiu em desgraça, mas os eventos políticos mudaram um pouco e foi desvalorizado por causa disso", lamentou. "Foi uma injustiça enorme, porque é um grande artista gráfico e cartoonista."
Novo livro sobre o cartoonista João Abel Manta
"Bonecos para o povo" reflete sobre o trabalho de (...)
"É uma marca que está gravada na pele"
Já para o cartoonista Nuno Saraiva, Abel Manta era e continua a ser um "mestre". "O seu legado é uma marca que está gravada na pele. É mais do que epidérmico, faz parte do ADN português."
Nuno Saraiva confia que, para qualquer profissional da área com "consciência política", o artista plástico é "uma espécie de pai e um ativista que procurou fazer pensar e viver".
Para as fações políticas atuais, "Abel Manta seria um radical", acredita o desenhador Nuno Saraiva.
"O cartoonista da Revolução deu as cores a Abril e vida ao MFA", uma vez que Abel Manta contextualizou o movimento.
Apesar desta rebeldia e sentido de liberdade, Nuno Saraiva reconhece que "Abel Manta foi um homem bastante desiludido e revoltado com os meses logo a seguir à revolução" e, por isso, desistiu do cartoonismo político.
"Para mim, vai sempre representar não apenas a alegria e a embriaguez da revolução, mas também, por outro lado, o momento em que uma pessoa bate, dá um murro na mesa e desiste. Há que respeitar o João Abel Manta da revolução e o que diz não e que vira as costas."
[Notícia atualizada às 23h30 para acrescentar reações à Renascença dos cartoonistas António Jorge Gonçalves e Nuno Saraiva sobre a morte de Abel Manta]
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- 11 jun, 2026













