"Novelas das frutas". Fenómeno das redes sociais pode normalizar racismo e violência de género
19 mai, 2026 - 09:00 • Jaime Dantas
Algumas histórias adotam narrativas misóginas, palavrões ou vocabulário com cariz sexual. "Um dos aspectos mais preocupantes", defende a responsável pela Ordem dos Psicólogos, é que as personagens parecem simples desenhos animados, "o que acaba por atrair um público mais jovem", com menor "capacidade de questionamento das ideias".
“Abacatudo”, “Moranguete” ou “Bananão” são algumas das personagens das novelas geradas por Inteligência Artificial, em que frutas e legumes — como um abacate, um morango ou uma banana — têm papéis de destaque.
Estes conteúdos, apresentados sob forma de desenho animado, surgiram nos Estados Unidos da América (EUA) e acabaram por se espalhar por todo o mundo, acumulando já milhões de visualizações em redes sociais como o Instagram e o Tiktok. Começaram por ridicularizar reality shows, mas rapidamente se espalharam pelo mundo — e foram ganhando novos formatos. Hoje, qualquer pessoa pode criar a sua própria versão.
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A tendência mais recente são as novelas: histórias que exageram situações do nosso dia a dia — ora com humor, ora com drama.
O formato atrai naturalmente os mais novos — mas o conteúdo nem sempre é adequado para eles. Algumas destas histórias, simples aos olhos de um adulto, abordam temas como a idealização do corpo perfeito, racismo, papel da mulher na sociedade, relacionamentos amorosos e, não raras vezes, adotam narrativas misóginas, em que a utilização de palavrões ou de vocabulário com cariz sexual é uma constante.
À Renascença, a psicóloga Joana Alexandre salienta que “um dos aspectos mais preocupantes é que estas narrativas associadas a estas novelas surgem sob a forma de desenhos animados, o que de algum modo acaba por atrair um público mais jovem”, diminuindo "a capacidade de questionamento" e aumentando "a internalização destas ideias”.
Na maioria das novelas, separadas por várias partes, existe uma espécie de reflexão final que funciona como uma lição de moral. Ainda assim, a dirigente da Ordem dos Psicólogos alerta que “a exposição acaba por normalizar este tipo de interações”.
“Há aqui conteúdo de violência, não só física, mas verbal também, o que também contribui para a própria banalização do desrespeito”, analisa.
A clínica reforça que, apesar de aos olhos dos adultos os comportamentos demonstrados nos vídeos serem reprováveis, “as crianças ainda não têm pensamento crítico apurado e, ao verem estes conteúdos sem supervisão, naturalmente vão normalizar”.
Psicóloga alerta para a necessidade de supervisão dos pais
Joana Alexandre lança o apelo aos pais para que atuem como "uma espécie de mediador entre as plataformas digitais e crianças e jovens", criando "espaços seguros onde as crianças possam falar sem medo sobre aquilo que vão visualizando" nas redes sociais.
"Temos de ser realistas. Hoje em dia, os adultos não conseguem acompanhar a velocidade daquilo que é produzido na internet, sobretudo quando já se faz uso da Inteligência Artificial, as respostas tornam-se reativas".
A psicóloga sugere até que, "sem um julgamento prévio", os responsáveis tentem "acompanhar os conteúdos" para depois "promover aqui o pensamento crítico".
Para além desta solução mais diplomática, a responsável pela Ordem dos Psicólogos salienta que é também necessário criar um conjunto de regras na educação dos filhos, nomeadamente para "definir os limites e os tempos de ecrã".
"Vivemos tempos em que os pais têm medo de dizer que não aos seus filhos. O uso destes controlos parentais não vem de todo substituir o diálogo", ressalva.
- Noticiário das 9h
- 09 jun, 2026








